Correio do Minho

Braga,

Sonho quebrado

Escrever e falar bem Português

Conta o Leitor

2016-08-14 às 06h00

Escritor

Susana Miranda

Hoje acordei feliz! Espreguiçei-me devagar na cama, enquanto sorria sozinha e lembrava todos os momentos da noite anterior. Tinha sido magnífica! De tal forma que tinha perdido a noção das horas e chegado tarde a casa, obrigando-me a descalçar as sandálias para não fazer barulho e deitar-me às escuras, sendo que a única testemunha que me olhou através de uns olhos amarelados e sonolentos tinha sido o gato, enroscado no sofá das sala. Os meus pais confiavam em mim e na maturidade dos meus vinte e dois anos, mas ainda assim...
Há uns meses atrás, conheci um rapaz por quem o meu coração bateu de imediato. Era lindo de morrer, com um corpo atlético e uma voz calma e profunda que me fazia arrepiar a espinha de cada vez que a ouvia. Eu e as minhas amigas tínhamos ido a uma festa, daquelas em que se fazia muito barulho, se bebia demais e praticamente se conhecia toda a gente. A música era ensurdecedora, pelo que tínhamos de falar aos gritos e, a determinada altura, tive que sair um pouco da sala para os jardins que circundavam a casa, a fim de respirar um pouco de ar puro. Estava uma noite clara, com a lua cheia a espalhar luz pelos recantos, dando brilho à relva bem aparada. E foi nesse momento que o vi... sentado num banco de pedra, a fumar um cigarro, numa postura serena e silenciosa. Sob aquela luz difusa, pareceu-me abandonado, como se alguém se tivesse esquecido dele ali. Curiosa, aproximei-me, como quem não quer a coisa, e dei boa noite de forma natural e descontraída. Sem olhar para mim, respondeu e foi a primeira vez que ouvi aquela voz... Um simples “boa noite” dito de uma forma tão calma que me surpreendeu. Obviamente, eu nunca o tinha visto no nosso círculo de amigos, o que aguçou a minha curiosidade. Sentei-me ao seu lado no banco e ele levantou a cabeça, sorrindo. Uns olhos castanhos, penetrantes e meigos, inundaram o meu ser...
Conversámos um pouco, rimos um pouco da conversa brejeira sobre aquelas festas e os normais exageros que se cometiam. Subitamente, levantou-se, estendeu-me a mão e convidou-me para dançar. Ali, no jardim, ao som da música esbatida que vinha de dentro da casa. Eu aceitei, mais surpreendida do que com vontade de dançar.
Os meses seguintes passaram a correr, num frenesim de conhecimento mútuo, de conquista de confiança e o nascimento de um amor profundo. Todos os minutos livres do dia, entre as minhas aulas na faculdade e o trabalho de gestor financeiro dele, passávamos juntos. À noite, quando não saíamos, estávamos horas a falar ao telefone ou a trocar dezenas de mensagens, e-mails, enfim, qualquer forma possível de estarmos juntos. Naturalmente, passamos a evitar as saídas ou festas em grupo, o que originou as habituais piadas, às quais não liguei nenhuma. A maioria seriam de inveja por eu me ter apaixonado por um homem carinhoso, lindo e bom. A praia, o cinema, as noites em bares e discotecas, os jantares românticos sempre a dois, passaram a ser uma constante na minha vida e na dele. Vivíamos um para o outro em todos os momentos, dividíamos as preocupações das aulas ou do trabalho dele, arriscávamos a fazer um ou outro plano para o futuro. Eu sentia-me perdidamente apaixonada... a viver o conto de fadas de criança.
Um dia, trouxe-o a conhecer os meus pais cá a casa. A simpatia e a segurança dele depressa dissiparam os receios dos meus pais, sempre preocupados comigo e com o meu futuro. O almoço para o qual eu o tinha convidado, tirando as parvoíces do meu irmão de catorze anos convencido que tinha obrigação de me defender e afastar de qualquer homem, correu na perfeição. A minha mãe desmultiplicou-se em simpatia e conversa de circunstância, contrastando com a calma do meu pai, mais calado e atento a qualquer gesto ou observação que não lhe agradasse. Mas foi perfeito! Quando ele se foi embora, mostraram-me o seu agrado pelo homem que eu tinha escolhido, o que me deixou feliz e segura. Era tudo o que me faltava, ter os meus pais ao meu lado!
Depois foi a minha vez. Ele já não tinha pai e a mãe era uma pessoa com alguma idade. Porém, de uma atenção e uma simplicidade comoventes, que facilmente me fizeram entender o carisma dele. Era uma cópia da mãe!
Num instante, estávamos a fazer planos para vivermos juntos, talvez casando. As conversas sobre filhos, os nomes a dar-lhes, a casa onde iríamos viver , o destino da lua de mel, o emprego que eu conseguiria ter mal finalizasse o curso, tornaram-se frequentes. A excitação e a certeza de uma vida feliz afastavam qualquer receio ou preocupação que, de vez em quando, apareciam na minha mente. E, por fim, marcamos a data do nosso casamento! Os convites, a quinta para o copo de água, o vestido de noiva, a igreja, uma imensidão de pormenores que nos ocuparam durante muito tempo e nos fizeram sentir bem...
Hoje, acordei feliz... a dois dias da data marcada, o primeiro dia de Setembro.
Levantei-me e tomei um chuveiro rápido. Vesti-me e desci para o piso de baixo, onde a minha mãe já se atarefava com o almoço. Um dos últimos nesta casa... deu-me um beijo e resmungou pela hora tardia a que tinha chegado. Ela sabia sempre! Nem respondi, limitando-me a abraçá-la e a sorrir. O meu telemóvel vibrou com uma mensagem a entrar. Peguei nele, sabendo que era ele a desejar-me um bom dia e a dizer que me amava, como fazia todos os dias. Não era...
O telemóvel caiu ao chão, desfazendo-se em pedaços. Era um colega de trabalho dele... Tinha havido um acidente mortal de automóvel, não sei onde, nem como, nem porquê...
Hoje tinha acordado feliz.... e nunca mais adormeci...

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