Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Sophia

O Estado Novo e a cultura popular (2)

Conta o Leitor

2019-07-06 às 06h00

Escritor Escritor

Cláudia Catarina Graça

Achuva parisiense estava naquela noite melancolicamente fria. Sentia-me perseguido pela sombra da torre Eiffel debaixo de um nevoeiro eternizando a idílica cidade boémia, com uma mistura de odores e gentes chiques. Já havia estado ali durante séculos, mas naquela noite tudo parecia diferente. Os cabarés eram os mesmos, as dançarinas dançavam as mesmas danças, o Sena espelhava o mesmo brilho, as quiches emanavam o mesmo cheiro, nas esquinas existiam os mesmos monumentos, os pintores de rua eram exímios nos seus retratos, a torre Eiffel era linda, majestosa, indescritível, o metro percorria com a mesma exatidão, respeitando todos os locais ao segundo.
Estava diante do cartão postal mais incrível no mundo!
Vivia à seculos e conhecia o mundo todo, mas aquela cidade repleta de roupas e perfumes vintage guardava no meu cansado coração a marca de um destino marcado por um karma onde a vida me tinha ensinado que Sophia iria sempre primeiro que eu.
Por ela tinha aprendido a dominar a minha sobrevivência alimentando-me de criaturas não vivas e a suportar todas as esperas.
E ali estava novamente naquela ruela estreita, com calçamento de paralelepípedos e grandes boulevards, de um lado, o arco do Triunfo, a Place de Concorde do outro, diante do pitoresco café onde a vi pela primeira vez.
Era um ponto de encontro, despedia-me dela e ela voltava a nascer. Despreocupada e com uma atitude confiante perseguindo a sua própria grandiosidade, controlando minuciosamente as suas emoções, ferozmente inteligente, Sophia bebia um café e lia uma revista. A chuva abandonada naquela ruela, não me deixava vislumbrar toda a sua beleza. Era como se a estivesse a ver pela primeira vez.
Sophia emanava um parfum fresco que contrastava com a imagem quente dos seus cabelos negros e olhos violetas também conhecidos por olhos cor de mediterrâneo, e vestia uma gabardine de linha Pret–à-porter, um lenço e calçava uns scarpins pretos.
Poderia apaixonar me por outra mulher, mas como se de uma doença se tratasse esperava sempre por ela. O destino não nos queria ver passar e tinha sempre a missão complicada de a conquistar. Ela curiosamente olhava para mim como se já me tivesse visto outras vezes.
Como em todas as vidas passadas dela consegui, que Sophia, mais uma vez fosse minha, mas fatidicamente algo tinha mudado. Não a iria ver sorrir por muito tempo. Sophia estava doente e avistavam-se poucos dias de vida. Decidi naquela fugaz e efémera vida viver intensamente comtemplando-a gravando na alma a sua imagem, até à sua próxima vida. Esse era o meu maior tormento, não saber quando ela nasceria de novo e se algum dia deixaria de nascer. Podia eterniza-la e parar ali o tempo. Explicar lhe como é a vida de um vulgo vampiro. Iria torna-la num ser mais inteligente, com os sentidos mais aguçados, alva e teria que ensinar-lhe que nunca mais poderia ver a cor gradiente do crepúsculo.
Sophia adoeceu gravemente e mesmo diante deste sofrimento de perda, esta era uma paixão que se materializava em vida e que tragicamente acabava sempre com a sua morte.
Esperei algumas décadas, percorrendo os mais inóspitos sítios, fugindo a vários crepúsculos, até que um dia debaixo de uma chuva familiar senti um parfum fresco a sair da estação de metro de Convent Garden. Entrei e lá estava ela, sentada num banco ouvinte de estórias à minha espera. Tinha valido a pena, nem que fosse pelos segundos que a vislumbrava, quase tão rápidos como a crescente intensidade da luminosidade do crepúsculo.
Era intensamente linda e chama-se Anne.

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