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Sozinho em casa

Escreve quem sabe

2021-01-17 às 06h00

Cristina Fontes Cristina Fontes

Não, não vamos falar de confinamento. Vamos falar de acentuação.
Não é raro encontrar nomes terminados no sufixo “zinho” acentuados graficamente com acento agudo (*sózinho, *cafézinho, *avózinha).
Com disse no artigo anterior, todos podemos errar, mas os órgãos de comunicação social, as empresas, as instituições deverão ter uma atenção redobrada ao que escrevem.
Deparar com um anúncio como este “RFM - A TASCA DA MANHÃ - NÃO ESTAMOS SÓZINHOS - 11-12”, na página oficial da rádio, não é bom cartão de visitas. (em http:// bit.ly/3nR65h2, acedido em 16.01-2021).
Ora, ao associarmos o sufixo a palavras agudas (só, café, avó), o acento tónico passa a recair na primeira sílaba do sufixo (sozinho, cafezinho, avozinha), passando a ser uma palavra grave não acentuada graficamente, apesar de a vogal anterior continuar aberta.
Estas palavras eram, antes de 1973, acentuadas graficamente, mas com acento grave e não agudo (sòzinho, cafèzinho, avòzinha), exatamente para demonstrar que a vogal anterior à sílaba tónica permanecia aberta.
Todavia, nesse ano, o decreto n.º 32/73 de 6 de fevereiro, (adenda ao texto do acordo ortográfico de 1945) determinou a eliminação dos acentos graves com que se assinalavam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados dos sufixos iniciados por z.
Aproveito a ocasião para chamar a vossa atenção para o texto deste decreto, assinado pelo Presidente da República, Américo Thomaz, no qual se manifesta, claramente, uma decisão política, obviamente suportada por linguistas, tal como foi aconteceu com o atual Acordo Ortográfico, em vigor desde 2009, e que tanta polémica tem causado. Nele lê-se: “2. Em compensação, e enquanto não for seguida em Portugal a norma que determina a abolição do acento gráfico (…), surgiu - desnecessàriamente - uma nova divergência entre palavras, como “praticamente” e “pràticamente” ou “sozinho” e “sòzinho”, grafadas de maneira diversa em Portugal e no Brasil. 3. Trata-se de um pormenor de importância secundária, sem correspondência na linguagem falada, e acerca do qual já se pronunciou a Secção de Ciências Filológicas da Academia, propondo por unanimidade que se elimine, naqueles casos, o acento grave ou o acento circunflexo. (…) Deste modo se aproximarão ainda mais as ortografias seguidas nos dois países. E não será de mais louvar a vantagem das modificações agora introduzidas, já que - também segundo as amostragens realizadas -, graças a elas, as divergências de ortografia baixarão sensìvelmente de percentagem.”
Fechado o parêntese sobre o decreto n.º 32/73 de 6 de fevereiro, convém, ainda, alertar para o facto de o til não ser um acento, mas um sinal gráfico que assinala a nasalação das vogais a e o. Pode surgir em sílaba tónica (amanhã,) ou em sílaba átona (órfão). Assim, o til mantém-se nos diminutivos com sufixo “zinho” (ex.: mãozinha, pãozinho, cãozinho).
O decreto supracitado determinou, ainda, a abolição do acento gráfico nas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente. Também estes eram acentuados com acento grave, para marcar a abertura da vogal após a junção do sufixo “mente” (lamentável – lamentàvelmente).
No entanto, este acento grave, em vez de desaparecer, transformou-se num acento agudo na escrita de várias pessoas (erradamente e inexplicavelmente).
Lamentavelmente, ainda não podemos ir beber um cafezinho com os nossos amigos, mas espero que não se sintam sozinhos. Leiam, escrevam, telefonem, oiçam música, vejam televisão.
Bom domingo.

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