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Sozinhos na cidade grande

Quem me dera voltar a ser Criança

Ideias

2011-02-13 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Às vezes, acontece isto: estamos sós no meio da multidão. Conhecemos muita gente: a vizinha do lado, a senhora do supermercado, o funcionário do banco, o utente do metro…, mas a verdade é que estes múltiplos rostos que enchem o nosso quotidiano não fazem parte da nossa vida. Passam por nós, sem ficar connosco. Daí ter sido possível, embora inverosímil, uma mulher ter permanecido morta durante nove anos dentro do seu apartamento, sem que ninguém se tivesse sentido verdadeiramente impelido a saber o que se passava. As instituições públicas foram ineficientes; os conhecidos/familiares desta senhora, negligentes.

Vivemos hoje em territórios flutuantes, talvez porque também mudamos permanentemente de espaços. Não experimentamos os sítios como intrinsecamente nossos, nem sentimos qualquer responsabilidade em relação às pessoas que neles habitam. No enraizamento dinâmico que o quotidiano obriga a fazer, muitos dos lugares aos quais nos ligamos constituem-se como espaços sem identidades. Não-lugares, que nem sequer chegam a ser espaços vividos com os outros. Nem que fosse de forma vicária. Estranho mundo este, o que habitamos. Corremos tanto de um lado para o outro e nem sequer conseguimos ter tempo para aquilo que nos entra pelos olhos.

A notícia de uma mulher morta durante nove anos na sua própria casa choca. E choca também ouvir uma outra mulher dizer que viu durante o mês a luz acesa de uma das janelas da casa da idosa. Como também choca muito ouvir a vizinha do lado reconhecer que soube desta estranha morte pela televisão. Ontem os jornais traziam relatos de familiares próximos que terão ido à polícia denunciar essa ausência. As instituições públicas não actuaram, mas essa negligência justificará o cruzar de braços de todas estas pessoas durante todo este tempo?... A resposta parece fácil, mas não vai de encontro à realidade.

Em “Telepolis”, o filósofo Javier Echeverría refere a constituição de “cidades a distância”, cidades interligadas por dispositivos tecnológicos que nos dão a ilusão de estarmos permanentemente em rede. Muitas vezes, trata-se de uma ilusão. Talvez fosse preferível falar da explosão do mundo urbano ou da multiplicação de policentros em territórios urbanizados e fisicamente em permanente desassossego. As cidades, tal como as conhecemos no passado, transformaram-se. Ganharam outra configuração, continuando a ser “lugares de muitas e variegadas gentes”, como escrevia Fernão Lopes na “Crónica de D. Fernando”, a propósito da Lisboa quinhentista. Gentes que, nas sociedades actuais, se rodeiam de coisas, sem terem grande espaço para alojar no coração outras pessoas. Faz medo.

Poder-se-ia dizer que esta sociedade não é para velhos. Mas é aí que, um dia, todos nós vamos chegar. E, depois, quem irá tomar conta de nós? Como já se percebeu, os adultos em idade activa não têm tempo. Estão demasiado ocupados com uma vida cheia de coisas, mas despida de pessoas. Ontem, o JN noticiava que um casal octogenário tinha recebido uma factura de quase 200 euros para pagar o transporte de uma ambulância ao hospital. Como apenas tinham guardado 60 euros para uma despesa que calculavam bem menor, andavam a pedir pelas portas para amealhar o resto do dinheiro. Será isto possível? Sim, é possível, apesar de inverosímil.

É destas histórias de vida que deveriam encher-se os noticiários. Histórias reais de gentes com vidas sombrias. Era isso que deveria despertar a nossa atenção e desencadear acções mais solidárias. A verdade é que lá andamos entretidos com pseudo moções de censura ao governo ou episódios de vida cor-de-roda de gente plástica. Poderia esta ser uma forma de entretenimento, se a realidade não fosse tão dura. E tão cruel para alguns.

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