Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Taxas de juro irão subir na Europa?

O CODIS fala

Ideias

2017-02-18 às 06h00

António Ferraz

A resposta dependerá da política monetária que vier a ser seguida pelo Banco Central Europeu (BCE) no futuro. Podemos, assim, colocar duas hipóteses possíveis de actuação do BCE:
(a) seguimento da política monetária expansionista (“apoios monetários”) e manutenção da sua taxa de juro muito próxima de zero;
(b) finalização da política monetária expansionista e subida da sua taxa de juro. Por sua vez, atendendo a tendência actual de subida da taxa de inflação na Zona Euro são muitos os analistas que têm vindo a concluírem por uma inevitável e mais ou menos breve mudança de política monetária do BCE, por via da retirada dos “apoios monetários ”, ou seja, das avultadas compras de títulos de dívida pública e privada dos países da Zona Euro em maiores dificuldades financeiras (como é o caso de Portugal). Dizem, que tal mudança não seria mais do que seguir o que está sendo feito há algum tempo pelo Banco Central dos Estados Unidos (FED).
Contudo, em sentido contrário, muitos outros analistas e mesmo o Presidente do BCE, Mário Draghi, tem vindo a apontar para a necessidade de continuação da política monetária expansionista e de taxa de juro muito baixa, com fundamento na ainda muito débil recuperação económica na Zona Euro (entre 1,5% e 2%). A propósito, Draghi tem dito algumas frases esclarecedoras: “os alemães têm de ter paciência, os estímulos estão para ficar” e o “BCE mantém a sua taxa de juro e admite alargar compras de títulos”, desvalorizando o aumento registado da taxa de inflação (taxa de inflação homóloga, face ao mesmo mês do ano anterior) da Zona Euro e que foi de 1,8% em Janeiro de 2017 (1,3% em Portugal e 1,9% na Alemanha). Justifica a sua posição pelo facto de o aumento da inflação resultar sobretudo da elevação dos preços dos produtos alimentares não transformados e energéticos, mais expostos a “choques” temporários. Na verdade a chamada taxa de inflação core/subjacente, isto é, a taxa de inflação descontando a variação dos preços dos produtos alimentares não transformados e energéticos, foi de apenas 1,1%.
Resumindo, o BCE apenas mudará a sua política monetária (mais restritiva) e taxa de juro (subida) quando existirem um certo número de requisitos, em particular, a dois principais níveis: o da inflação e o do desemprego/emprego. É isso mesmo o que está implícito na conhecida (em Economia) “regra de Taylor”:
1. Nível de Inflação: existência de uma subida sustentada da inflação que afaste o risco da deflação (descida dos preços); aumento da inflação de molde a permitir que se alcance a meta prioritária na Zona Euro, quer dizer, uma taxa de inflação abaixo mas próxima de 2%; as expectativas de inflação devem ser a médio prazo; o aumento dos preços deve revelar uma convergência duradoura e não temporária para a meta de 2%; a recuperação do nível dos preços deverá ser auto-sustentável (e terá de continuar mesmo no caso de os alívios monetários serem retirados); a subida dos preços deve ser avaliada para a Zona Euro como um todo.
2. Nível do Desemprego: a relação económica existente entre desemprego e inflação é relevante para o BCE, em concreto, o nível de desemprego deverá ter uma tendência de descida (aumento do emprego) para pressionar uma subida da inflação; note-se, porém, que sendo a taxa de desemprego na Zona Euro de 10,2 % (Dezembro de 2016), ainda bastante elevada, não é expectável que haja uma subida rápida da taxa de inflação europeia proximamente, o que contribui para que o BCE mantenha a sua política monetária e taxa de juro.
Refira-se também que a situação actual é muito semelhante à verificada em 2011, altura em que o BCE retirou os “apoios monetários” e subiu a sua taxa de juro, o que veio a se mostrar uma decisão errada pois não teve em conta a importância do comportamento da inflação-core/subjacente e de que resultou uma nova contracção económica obrigando o BCE a reverter ao fim de alguns meses aquelas alterações. Ou seja, é importante à luz dessa experiência que o BCE não incorra em erros iguais no presente. Em suma, uma vez que os requisitos exigidos não se estejam cumpridos, o BCE não deverá alterar por ainda muito tempo as suas política monetária (“apoios monetários”) e muito baixa taxa de juro.
Concluindo, apenas haverá alteração de política monetária (restritiva) e da taxa de juro (subida) pelo BCE quando as condições económicas e financeiras o justificarem, nomeadamente crescimento económico sustentado, redução significativa do desemprego e inflação ancorada em torno de 2%. Muitos analistas afirmam mesmo que dificilmente tal acontecerá pelo menos até final de 2018. Se assim for, será um alívio para os europeus (e portugueses). Mas, atenção, em economia tudo é cada vez mais incerto, logo…

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