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Tbilisi

Escreve quem sabe

2022-12-09 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Acaba de fazer 25 anos que experienciei um dos momentos mais indeléveis da minha vida profissional. Foi esta casa, para a qual estou neste momento a escrever, que me proporcionou observar e sentir um pedaço de Mundo que poucos ousam tocar. Uma odisseia chamada Tbilisi, plantada no Cáucaso, na fronteira entre a Europa e a Ásia, que jamais esquecerei, tamanho o impacto provocado.
Em 1997 estava a dar as primeiras pinceladas numa tela ainda sem relevo. Foi o atual diretor do jornal – à época chefe de redação – que lançou um imberbe jornalista na peugada de um Sporting de Braga que iniciava a retoma europeia.
Semanas antes tinha andado, como enviado especial, por várias cidades de França a narrar a pré- temporada do ABC, na altura a melhor equipa de andebol portuguesa. Foi um Verão de nervo onde pude sentir a dureza do malogrado Aleksander Donner, treinador ucraniano que comandou um pelotão notável onde pontificavam Rui Almeida, Carlos Galambas, Filipe Cruz, Álvaro Martins e o genial Carlos Resende.
Este aperitivo serviu de mote para aquecer o fim de Outono quando embarquei rumo à Geórgia. Levei na bagagem a ilusão dos dias felizes. A comitiva partiu sorridente. A vantagem de quatro golos da primeira mão dava segurança ao plantel orientado pelo galego Fernando Castro Santos. Em redor, o primeiro contacto internacional com nomes que via na televisão, ouvia na rádio e lia nos jornais: Rui Orlando (RTP), Fernando Eurico (Antena 1), Paulo Sérgio (TSF), António Trota (Renascença), José Manuel Ribeiro (O Jogo), Sérgio Alves (A Bola), Rui Gomes (Record), entre tantos outros.
O voo foi longo. Pelo meio, paragem na cidade de Sófia, capital da Bulgária. O pouco tempo que estive no aeroporto búlgaro ficou marcado pelo roubo da carteira a um alto dirigente do clube. Um episódio que não passou despercebido e que revelava bem a falta de segurança que existia neste país balcânico.
Chegado a Tbilisi, cedo deu para entender que estava perante uma nação em ruínas. O império soviético tinha colapsado e com ele as dores que alastravam pela população. Para termos uma ideia do fosso que existia com Portugal, deixo dois apontamentos: a vitória bracarense diante do Dínamo de Tbilisi (1-0) valeu a cada jogador 750 contos. Esta verba dava para pagar 10 anos de ordenado a um jornalista georgiano; ficámos instalados numa unidade hoteleira luxuosa. Cada refeição significava um mês de vencimento para quem servia à mesa.
Apesar do degredo visto a cada virar de esquina, a nação então governada por Eduard Shevardnadze – no poder até 2003 – ainda mantinha traços de imponência. Uma babel de igrejas ortodoxas, sinagogas, mesquitas, átrios persas, balcões tártaros, cúpulas russas e as famosas casas com terraços de madeira suspensos. Um tremendo património histórico, religioso e arquitetónico que invocava os conhecidos banhos sulfurosos, isto é, termas de fontes naturais relacionadas com o nome Tbilisi (lugar quente). Ao invés, vi carros da velha União Soviética a serem empurrados nas rotundas caóticas de uma cidade cercada por países como a Rússia, Turquia e Irão. Avistei, por entre labirintos, gente que vendia anéis ao desbarato para manter os dedos a salvo. No chamado mercado soviético (Dry Bridge), uma típica feira da ladra, pude contemplar incríveis discos de vinil, posters de propaganda soviética, máscaras de gás, máquinas fotográficas de fabrico russo, notas e moedas com o rosto de Estaline e peças de artesanato de valor apreciável.
O jogo foi o menos importante. Novo triunfo à custa do golo solitário alcançado, no início da segunda parte (48m), pelo ponta de lança cabo-verdiano, Toni. Entre várias peripécias, lembro o repentino desligar da luz, ainda com os jogadores em campo, do monumental e degradante Boris Paitchadze National Stadium, um facto que provocou a ira de toda a comitiva portuguesa e que levou todos a sair do estádio sem tomar banho. Uma imagem anémica de uma coletividade sempre associada ao coração do ditador Estaline.
Foi neste cataclismo de emoções que saí de um país dilacerado. Paradoxalmente, este mesmo povo possui as maiores reservas de petróleo e gás natural inexploradas do Mundo. Um chão que ostenta, ao sabor de becos e ruelas, um valor inapagável pela ação do homem. Apesar desta atmosfera suja e poluída, continua dentro de mim um postigo com vista para a memória.

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