Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Tem direito a não ler esta crónica... Daniel Pennac diz-nos porquê

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Escreve quem sabe

2014-03-25 às 06h00

Cristina Palhares

‘Como um Romance’, de Daniel Pennac, um livro que há muito li, que reli, que faz parte de alguns que estão na prateleira “reler sempre”…

E é este livro que hoje, e porque a leitura e os leitores foram neste dias últimos dias o palco da nossa cidade, vos trago. É um ensaio, com muito humor, em que de uma forma divertida e muito séria Daniel Pennac apresenta os 10 direitos inalienáveis do leitor.

Ensaio em que Pennac questiona, recriando o ambiente de uma sala de aula, a razão de os jovens não gostarem de ler. Baseado nas próprias experiências como professor, ele ensina como recuperar nos alunos o gosto pela leitura. Quebra tabus, preconceitos, desfaz os mitos que envolvem o leitor na sua relação com o livro. Porque o que fala é da relação leitor-livro. Sublime. Transforma esta relação numa relação de amor: o amor pelo livro.

E também por isso, tal como o intrigante título, este romance tem uma intenção pedagógica que vai muito além dos manuais a que nos habituamos. Nos, nós pais, nós professores, nós leitores. De uma relação cerimoniosa com os livros, que trespassaram tantas épocas até aos dias de hoje, Pennac propõe-nos uma relação íntima, porque uma obra de arte. E assim, a leitura é uma viagem em que não se exige nada, “a gratuidade, a única moeda da arte”.

Mas atentemos nos dez direitos inalienáveis que propõe:
1. O direito de não ler;
2. O direito de pular páginas;
3. O direito de não terminar um livro;
4. O direito de reler;
5. O direito de ler qualquer coisa;
6. O direito de confundir o livro com a vida real;
7. O direito de ler em qualquer lugar;
8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali;
9. O direito de ler em voz alta;
10. O direito de calar.

Sobre cada um Pennac transporta-nos à sala de aula e à relação professor-aluno. Desconstruindo o que tantas vezes nos transformou e aos nossos filhos e alunos em não leitores. Não leitores porque os objetivos que a literacia impõe estiveram sempre aliados ao imperativo: “Lê”! E este imperativo não destrói livros, destrói sim leitores. Por isso o primeiro direito inalienável, e o segundo e o terceiro… e todos os outros.

“O dever de educar, consiste, no fundo, no ensinar as crianças a ler, iniciando-as na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar livremente se elas sentem ou não a ‘necessidade de livros’. Porque, se podemos admitir que um indivíduo rejeite a leitura, é intolerável que ele seja rejeitado por ela.
É uma tristeza imensa, uma solidão dentro da solidão, ser excluído dos livros - inclusive daqueles que não nos interessam.”

O desejo de aprender, o entusiasmo pelo saber (lembram-se do espanto de Aristóteles e do prazer rebouliano?) esse sim, o papel da escola. “Ler sem cobrar”, apenas pelo prazer de ler.
O que fazer então para colocar o livro na mão das crianças e dos jovens?

Se for para continuar a fazer o que estamos habituados a fazer, a melhor resposta é: NADA.
Pelo grau de rejeição que eles desenvolvem em relação à leitura, vemos que as estratégias postas em prática até agora não deram resultado. O que se pode fazer é preparar melhor os professores para que transmitam sua paixão pelos livros de forma natural. Professor que não tem nos livros a sua forma de viver não deveria ensinar.

Professor que não tem paixão pela escrita não deveria ensinar a escrever. É preciso que a sua fala transmita uma verdade que vem de dentro, nunca de fora. Alguém dizia que o papel do professor é o de alcoviteira. É ele que vai fazer o elo entre o aluno e o livro, casá-los para sempre. Facilitar o ato de ler, contabilizar páginas, convencê-lo de que lendo cinco páginas por dia, ao final da semana são 30 (dispensemos o domingo); no final do mês, são 120. Que lucro para quem não conseguia ler nada! O professor se transforma, assim, num estrategista da leitura.

Quando se sugere um livro é para partilhá-lo, é uma prova de amor, queremos que o outro leia aquilo que foi importante para nós em certo momento da vida. Damos a ler aquilo que nos é mais caro. Partilhamos com o outro a nossa paixão pelo livro. Identificamo-nos com o que sugerimos. Quem lê o que sugerimos lê-nos também… nas entrelinhas.
É esta a relação que falta: 'O verbo ler não suporta o imperativo. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo amar... o verbo sonhar...'

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