Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Temos que acreditar mais...

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2013-07-03 às 06h00

Escritor

Torres de Campos

Quando cheguei à casa grande, onde vivia, soube que o Orlando tinha sido preso pela segunda vez. A mãe dele, Sra. Maria, deixou um bilhete na portaria.

“Jorge, o Orlando foi preso novamente. O pai não o quer ver mais. Veja o que pode fazer. Obrigado.”
Laurinda Silva.

Pedi autorização aos meus superiores e fui falar com o Sr. Arménio, o pai do Orlando. Pelo caminho iam pensando no que lhe havia de dizer. Sr. Arménio tinha feito tudo para que o Orlando voltasse a viver. Arranjou-lhe emprego numa fábrica, pintou o quarto dele, comprou uma televisão e um carro, em segunda mão, para que ele começasse tudo de novo. Agora ia ser muito difícil voltar a convencê-lo para ajudar de novo o filho. Quando cheguei à casa do meu destino estavam a rezar o terço. Entrei sem incomodar e rezei com eles.

A mãe estava aterrorizada, como se alguém tivesse morrido. A noite naquela casa era fria e o terço era rezado ao som de soluços e banhado a lágrimas. Nunca naquela família tal notícia tinha sido tão dura. Todos acreditavam que o Orlando estava recuperado e que nunca mais iria roubar. Quando temos muita esperança e ela se apaga, é como uma punhalada que o coração apanha de quem amamos. O pai tinha estampado no rosto o ódio da desilusão e não olhava para ninguém. Era um homem muito honesto e respeitado, sofria muito com aquela situação. Rezava com um tom muito sério, como se fizesse tudo para querer esquecer aquele drama, que abalara, pela segunda vez a família.

Cada Avé-Maria que eu rezava sentia um aperto no coração. O que iria dizer àquele pai que tanto tinha acreditado nas minhas palavras? Qual seria a sua reacção? Quando chegamos ao 5.º mistério ele desatou a choramingar baixinho, para que ninguém desse conta. Será que tinha meditado bem quando rezava e não podia atraiçoar as palavras que dizia a Deus? pensava eu no meu intimo.

Terminado o terço e a tradicional bênção todos se retiraram. Só fiquei eu e o homem que me levara àquela casa. Ele olhava para mim e eu para o espaço onde estávamos. Era uma cozinha de lavra-dores, escura, mas muito familiar. Tinha uma masseira para amassar o pão, um forno e uma mesa grande. Sobre a lareira tinha dois potes que ferviam tanto como eu. Olhei para o alto e o tecto estava bordado com presuntos e salpicões.

A noite ia fria, tal como aquele momento e a sombra do meu litigante batia na parede como a chuva que caía miudinha sobre a terra seca. Ao fundo da cozinha havia uma mesa pequenina e sobre ela uma imagem de Nossa Senhora dos Remédios e alguns quadros com fotografias. Levantei-me com a esperança de que no meio daqueles retratos todos estaria o do Orlando. Escondido no meio dos outros, lá estava ele com a farda militar.

Tinha feito o serviço militar no quartel de Santa Margarida, em Lisboa. Fora distinguido pelo sargento da sua companhia.
- Bela fotografia. Era um grande soldado, disse eu.
- Pena é que tenha perdido o juízo. Nem sei como esse rapaz se perdeu. Teve boa educação e uma família que sempre o apoiou. É certo que não somos ricos, mas nunca teve falta de pão, disse o Sr. Arménio.
- A vida tem destas coisas. Nem sempre podemos medir o futuro como queríamos. É duro confiarmos em alguém e sermos atraiçoados... Temos que começar tudo de novo... Iniciava eu mais um discurso, cheio de filosofia existencial.
- Começar de novo... já imaginou se eu lançasse a semente sempre à terra e ela nunca produzisse. Não podia estar a vida inteira a semear sem nada colher. Sabe a terra também se cansa e chegamos a um momento em que o melhor é parar de semear. Temos que esperar por dias melhores e deixar a terra fertilizar, para depois produzir, respondia ele magistralmente.
- Para a terra produzir não a podemos abandonar! refutava eu.
- Eu sei isso muito bem. Menino Jorge eu estou farto das asneiras do meu filho, fiz tudo para ele fosse feliz. Vendi o tractor para lhe comprar um carro, gastei as minhas economias para o instalar bem em casa. Tirei à boca dos outros irmãos para ele não se sentir inferior a eles. Paguei durante 15 meses a médicos para que o tirassem da droga. Passados 4 meses de regressar a casa eis a recompensa: deixou-me mal no trabalho, envergonhou o nome da família e voltou para a cadeia. Não acredita como me dói ao vê-lo lá dentro. Contei todos os dias o seu regresso à família e quando ele regressou mandei matar um cabrito e fazer uma festa. Foi um dia feliz, porque via de novo o sorriso do meu filho. Agora não sei o que dizer. A morte bateu à minha porta e só me apetece sumir desta vida e nunca mais cá voltar.
- Sr. Arménio o mundo não acabou e o seu filho não morreu. Ele pode estar inocente. O senhor acredita nele? Ele próprio disse que nunca mais o ia deixar ficar mal. Tem que acreditar mais...
- Não sei se acredito nele ou não. Só sei que ele está preso novamente.
De repente começa alguém a gritar, era a vizinha a chamar pelo Sr. Arménio que viesse atender um telefonema do Porto. A casa da vizinha ficava longe, mas eu decidi esperar. Enquanto esperava ia planeando um outro jogo filosófico de palavras para convencê-lo. Esperei cerca de 1 hora.
- Menino Jorge, Menino Jorge dê cá um abraço bem forte, gritou o Sr. Arménio aos meus ouvidos quando estava quase a adormecer.
- O que aconteceu? disse eu surpreendido.
- O meu filho está novamente em liberdade. Alguém o confundiu com outra pessoa e retirou a queixa contra ele. Oh meu Deus como Tu és grande, suspirou o Sr. Arménio.
- Temos que acreditar mais Sr. Arménio, temos que acreditar mais, disse eu em tom de despedida.

Regressei à casa grande, com uma grande alegria no coração. Quando ia fazendo uma revisão do meu dia, estive durante muito tempo com o olhar parado sobre o pensamento. Cheguei à conclusão que o acto mais importante que tinha realizado na jornada foi a conversa com o Sr. Arménio. Senti que foi uma verdadeira oração ao Deus de todas as religiões. Aquela conversa foi sem dúvida um momento de eternidade, porque fui ao encontro de quem sentia a cruz demasiado pesada para a carregar sozinho.

Naquela noite, aprendi que devemos acreditar mais nas pessoas, para que o mundo tenha mais esperança e para que a felicidade não seja uma sombra sobre a nossa existência, mas um raio de sol a abrir a janela da nossa história. Temos que acreditar mais...

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