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É tempo…

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É tempo…

Escreve quem sabe

2020-10-19 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Ouvindo “os quatro e meia” a cantar “(tempo) só mais um instante”, recordo o “tempo das coisas” e “as coisas do tempo” (abordadas no último texto), relação ambivalente que expressa o quão dependentes estamos do momento em que vivemos (presente), o quanto somos consequência do que soubemos construir (passado) e, sobretudo, o quanto somos esperança na nossa capacidade de sonhar e perspectivar (futuro). E o quanto desta realidade não nos conseguimos desligar ou separar.
O momento actual trouxe “à tona” um conjunto de circunstâncias, respostas, constatações, dificuldades indisfarçáveis e incontornáveis: as primeiras porque directamente sentidas por todos; as segundas porque fortemente condicionadoras e limitadoras.

Entre muitas, identificam-se duas constatações para o que, agora, se quer reflectir e partilhar: (1) a constatação da melhoria do ambiente urbano das cidades no período de confinamento onde a redução da circulação automóvel, o apelo a práticas de maior usufruto do “ar livre” e a redução da denominada pegada ecológica foram evidentes… o que resulta na conclusão da necessidade de se aproveitar o momento para introduzir mudanças na cidade, reformas ou resoluções, rupturas ou ajustamentos, seja o que for, mas tudo permitindo conquistar a disponibilidade, a atenção e a disposição para aceitação de determinadas opções e, dir-se-á, dificuldades na mudança e adaptação à mesma; (2) a constatação de que o contexto económico, financeiro, social, urbanístico, habitacional, cultural, não se superará a si próprio, carecendo de ajuda e solidariedade… originando a definição de apoios financeiros excepcionais (a chamada “bazuca financeira”) e a construção de um plano de recuperação e resiliência económica (tido como estrutural para os tempos longos que se adivinham).
O cruzamento destas duas constatações, e a respectiva leitura crítica das mesmas, permitem descobrir uma flexibilidade e acomodação urbanas, quer da realidade espacial, quer do tecido humano presentes na cidade muito maior do que o suposto, carecendo os mesmos apenas de orientação forte e decidida, pensamento assertivo e coerente, decisão útil e grave de quem dirige e tem obrigação (e legitimidade) para conduzir a cidade: a administração pública e os seus decisores políticos e técnicos.

De igual modo, dir-se-á que se confirma uma leitura generalizada da administração pública, muitas vezes, mal verbalizada e justificada: “a administração pública é pouco criativa, está muito virada para o parecer e para o funcionamento e não para o processo, objectivos e resultados, para a utilidade e assertividade do seu trabalho – afinal o sentido da sua acção e razão de existência”.
A estas duas constatações, acrescenta-se uma terceira: “existem muitas respostas plausíveis, mas todas elas com prós e contras”.
Resulta, assim, do agora descrito a necessidade de, rapidamente, se repensar e se operacionalizar a cidade e a administração pública. Isto é, de introduzir mudanças, independentemente da sua escala, dimensão e natureza, na resposta e melhoria da obra, alterações e processos que se plasmam na cidade.

Por “este mundo fora” constata-se o esforço de muitas cidades em responder a este momento tão exigente quanto incerto, a premência da melhoria da resposta da administração pública.
Ao nível da(s) cidade(s), reage-se ao problema habitacional, condicionando e reinventando o alojamento local (colocando-o ao serviço da cidade), “congelando-se” ou condicionando rendas e valor imobiliário, lançando programas públicos de habitação efectivos e reais… numa intervenção directa, destemida e consentânea com o tempo: o agora; enfrenta-se a questão da mobilidade, questionando-se conceitos e ideias, ganhando protagonismo a “cidade dos 15 minutos”; discute-se a qualidade da densificação, as suas vantagens e como pode significar melhor espaço público; constata-se a necessidade de recentrar e aprofundar os vínculos do espaço de residência, na sua significação do conhecimento do vizinho que, morando “ao meu lado”, desconheço o seu nome; reclama-se espaço público e responde-se com outras formas e dimensões de quarteirões e espaços urbanos construídos; assiste-se à vontade da efectiva mudança no que é relevante e importante.

Ao nível da administração pública e decisão política, somos surpreendidos por um discurso, ora assertivo e direccionado, ora titubeante e errático, por uma acção ora inibida e tímida, ora incompleta e, como tal, inconsequente. Na verdade, confirma-se a constatação do plano de resiliência: administra-se, analisa-se, projecta-se e decide-se em nome da qualidade da mudança e do progresso mas, depois, na prática, fica-se pela comunicação e divulgação, da aparência do “vai ser”, num processo de “parecer” e não de “ser”.
O tempo reclama acção e que esta transforme esperança em expectativa e, depois, em certeza: esperança é sonhar com o improvável e difícil de alcançar; a expectativa é a gestão do tempo, acreditando na probabilidade forte de concretização; a certeza é a constatação da inevitabilidade do processo.

No actual momento pandémico, a esperança tomou conta de nós, sonhando-se com o elemento definidor da vitória sobre o vírus. A cidade e a administração pública podem perseguir o seu dever e transformar esperança em expectativa, melhorando, mudando, qualificando o espaço que todos nós habitamos. Para que todos possamos experimentar a certeza de um futuro melhor!

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