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“Teoria das Nuvens”, de Mário Cláudio

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“Teoria das Nuvens”, de Mário Cláudio

Voz aos Escritores

2024-02-02 às 06h00

José Moreira da Silva José Moreira da Silva

Mário Cláudio é um dos meus escritores preferidos. Romancista, cronista, poeta, para além de produtor de outros géneros literários, tem-me oferecido momentos de verdadeiro prazer em textos que me obrigam a pensar. Lembro-me da “Tocata para dois clarins” e de “Tiago Veiga, uma biografia”, que me prenderam há uns bons anos e me disseram que estava na presença de um grande escritor. Mais recentemente, “Tríptico da Salvação”, “Embora eu seja um Velho Errante” e “Doze mapas” confirmaram toda a sua valia, confirmada por todo um conjunto de prémios reveladores da sua genialidade literária.
Assisti há dias, no Porto, à apresentação do seu último romance, “Teoria das nuvens”, de que quero dar uma curta informação. Autor prolífico como é, não demorará com certeza muito a trazer à luz novas e apaixonantes obras.
O título é impositivo, "Teoria das nuvens". Sabendo-se que Mário Cláudio não dá, nos seus magníficos livros, ponto sem nó, há que procurar na estrutura narrativa a fundamentação teórica, o desenvolvimento da ideia e, finalmente, uma previsível conclusão.

A fundamentação teórica, espécie de proposta de leitura, é-nos comunicada na página 95 pelo “gestor da narrativa”, através de um texto de John Ruskin, britânico, teórico de arte e pintor do século XIX. Ruskin escreveu sobre as nuvens vários textos, entre os quais se destacam "The clouds-balancings", "The clouds-flocks" e "The cloud-chariots". Diz o seguinte: “Não há um único instante em qualquer dia da nossa vida, no qual a Natureza não produza cenário após cenário, quadro após quadro, glória após glória, labutando em simultâneo nos princípios sublimes e constantes da mais perfeita beleza, tudo indubitavelmente destinado a nós, e ao nosso perpétuo prazer. E cada homem, seja qual for o lugar onde se encontre, e por muito afastado que se ache da fonte dessas maravilhas, poderá sempre contar com a claridade do céu, propícia ao eterno conforto, e à eterna euforia, do coração, consolando-o e purificando-o da sujidade, e do pó. Por vezes amável, por vezes caprichoso, por vezes terrível, nunca o mesmo em duas ocasiões, quase humano de paixão, quase espiritual de ternura, quase divino de infinitude, o céu oferece-se como mestre do que há de mais imortal em nós, e como juiz da bênção e do castigo, da nossa mortalidade. E, no entanto, nunca lhe prestamos atenção, nunca o tomamos como tema do nosso pensamento”. E Mário Cláudio tomou-o como tema. O céu e a terra, o espírito e a matéria, o sublime e o vulgar, dicotomias operantes na vivência humana, são expostas por personagens cujas características permitem situá-las num dos polos. O artífice, Mário Cláudio, autor textual, personagem e “gestor” da narrativa, carrega às costas a diegese, fixando-se em S. João da Cruz e numa tese que Guilherme quer apresentar numa universidade, noutras personagens que se relacionam com maior ou menor valor simbólico, e em Bárbara, a personagem nuclear. Doente mental, Bárbara olha o céu de forma pura e tem uma obsessão, as nuvens. Procura nelas formas e essências, ninguém mais tem capacidade para vivê-las. Enquanto o faz, vive e convive com a vulgaridade da sua família, com desprezos e traições, aceita sem grande questionamento filhos que não são seus, até à sua morte. Talvez morrendo suba à “claridade do céu” e compreenda a essência pura das nuvens.

Enquanto isso, cruzam-se cenários, quadros materiais da vida, com invejas e ciúmes, despojamentos emotivos, interesses materiais. Mostra-se, simbolicamente, que a terra, ao contrário do céu, não imortaliza o ser humano. Aqui, as relações humanas podem fundar-se em falsidade, em mentira, e causar profunda desilusão. Guilherme sentiu isso, depois de defender a sua tese. Mário Cláudio tentou explicar, com este belíssimo livro, uma teoria das nuvens. Mas, como disse Ruskin em “Clouds-balancigs”, “Some of the mysteries of the clouds never will be understood by us at all”.

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