Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

Teremos um novo mundo. Mas, qual mundo?

Quem me dera voltar a ser Criança

Teremos um novo mundo. Mas, qual mundo?

Ideias

2020-04-25 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

A crise da Covid-19 mudou muito rapidamente a forma de viver e entender o mundo para as pessoas, cidades, países e toda a sociedade à escala global. O confinamento social que tem vindo a sujeitar muitos milhões de pessoas em todo o mundo, nunca antes tinha sido vivenciado pela humanidade. Claro que a existência do ser humano foi posta em causa em várias situações ao longo da história: lutas entre impérios, doenças e pestes, guerras mundiais e continentais e disputas étnicas, raciais e religiosas. Mas porque considerar como sendo único este momento dramático em que vivemos?

Ora, porque ao encararmos o mundo e os avanços científicos e tecnológicos obtidos nas últimas décadas, verifica-se que nunca em nenhum outro momento da humanidade se tinha acumulado tanto saber e experiências nos vários domínios do conhecimento e das ciências aplicadas. Nas últimas quatro décadas, acumulamos mais saber que em toda a história do ser humano no mundo. Assim, logo que o primeiro caso da Covid-19 foi reportado publicamente na China, os cientistas já tinham isolado o novo coronavírus, identificado o material genético e a cadeia proteica, a capacidade de reproduzir e contaminar humanos, métodos de isolamentos para evitar a propagação exponencial da doença.

Seguiu-se uma corrida veloz pelos cientistas, profissionais de saúde, governos e instituições da sociedade civil para a produção de vacinas e medicamentos que evitem uma elevada mortalidade. De igual forma, há uma comunicação rápida do fenómeno o que permitiu transmitir informações e conhecimentos aos mais diversos lugares do mundo de forma a um mais adequado combate à pandemia viral. Tal seria impossível de acontecer no passado mesmo que recente. Quanto aos efeitos no plano psicológico e social da Covid-19 e muito de passagem eis alguns pontos para reflecção: Como tem sido o comportamento emocional das pessoas com o isolamento social? Quais implicações psicológicas e sociológicas a nível individual e de grupo social? E, no fim da pandemia viral vamos ser mais individualistas ou mais sociais? Mais afetivos e humanos ou mais rancorosos odiosos? Mais divididos e egoístas ou mais unidos e mais participativos socialmente?

Iremos, agora focar um pouco mais os possíveis efeitos económicos, políticos e sociais da crise da Covid-19 que se avizinham à escala global. Certamente que um novo ciclo surgirá, para o bem ou para o mal da humanidade, tudo depende das escolhas de governos e sociedade! Sejam: (1) No plano da geopolítica, o mundo multipolar que emergiu depois da crise económica e financeira desde 2007/08 trouxe grandes problemas económicos e financeiros, em particular, para os Estados Unidos e a Europa. Por sua vez, a atual pandemia viral apenas acelerou algo que já vinha em curso e que de novo atinge e de forma ainda mais dramática os Estados Unidos e a Europa. Vislumbra-se um cenário distópico para ambos: milhares de mortos; crises políticas; crises económicas e financeiras; tensões sociais internas e alterações profundas na sociedade. Neste contexto, é uma hipótese viável a da China aumentar a sua influência no mundo, o que já vinha acontecendo desde a crise de 2007/08, ao acelerar a ocupação de espaços políticos, económicos e diplomáticos.

A China além de controlar a expansão da doença no país, surge com força na ajuda humanitária e tecnológica a vários países do mundo. Será que a China sairá desta crise de pandemia viral como a maior potência económica mundial? Se sim, o poder imperial dos Estados Unidos ao ver a sua pujança económica e influência mundial diminuir aceitará esse facto de forma pacífica? (2) No plano ideológico, a crise da Covid-19 pode pôr em causa a hegemonia do neoliberalismo à escala mundial, porque se assiste ao derrocar de seus principais paradigmas: (a) a disciplina orçamental, ou melhor, “austeridade excessiva”; (b) a contenção de investimentos sociais. Em suma, face a crise sanitária emergirá uma recessão económica profunda e longa, com crises sociais e humanitárias em todo o mundo. Mais grave, para salvar o capitalismo neoliberal há o risco de constituição ou reforço de regimes autoritários, centralizados e violentos. Este cenário só será contrariado se entretanto ganhar força uma forte mobilização política, social e laboral em defesa do regime democrático; (3) No plano económico, é previsível que o poder do mercado livre, das privatizações do Estado e da política neoliberal do Estado mínimo para a sociedade possam entrar em crise. Se assim for, é de esperar que (mais uma vez), governos, bancos centrais, FMI, Comissão Europeia, etc. tentem salvaguardar o sistema dominante e defender os interesses das elites económicas e financeiras. Porém, como referimos é de prever o surgimento de recessão económica, desemprego, precarização laboral, falência de muitas pequenas e médias empresas e uma feroz luta pelos mercados internacionais no curto e no médio prazo. Assim, haverá um aumento das tensões sociais, da miséria, da crise económica e financeira e, logo, um apelo à mudança de paradigma de desenvolvimento, com mais justiça económica e social e um maior acesso a políticas públicas, sobretudo, na saúde, educação e habitação.
P.S. Uma referência, pese embora o momento difícil em que vivemos, à data comemorativa dos 46 anos da Revolução dos Cravos que libertou Portugal da ditadura, findou com as guerras coloniais e abriu perspetivas de democracia, liberdade, justiça e modernização do país.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho