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Terra, tecto e trabalho

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Terra, tecto  e trabalho

Escreve quem sabe

2022-10-03 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Há momentos em que a folha branca parece mesmo existir e o que nos ocorre abordar como tema ou assunto é algo repetido ou desinteressante, nada de perspectiva ou de carácter reflexivo, pertinente ou actual. A folha branca assume-se como partida e chegada, uma partida em que não sabemos para onde ir, uma chegada que não encontramos sentido…
Todavia, e na verdade, não há folha branca, ou melhor, só existe folha branca em aparência, já que somos (sempre) feitos de nós próprios (e do que conquistamos em informação e conhecimento, das nossas capacidades inatas que desenvolvemos ou acantonamos) e do nosso contexto que nos informa e forma.
Por ser assim, vem à memória expressão lida algures tempo atrás “terra, tecto e trabalho”, expressão essa que, com três palavras, condensa o sentido da urbanidade que, cada um de nós enquanto indivíduo e pessoa, enquanto membro de uma comunidade procura e aspira como direito e dever.

Terra, tecto e trabalho feitos trilogia dos sinais evidentes da nossa presença e existência, mas, sobretudo, da nossa necessidade e exigência de, como seres humanos, viver em dignidade e com dignidade.
Terra enquanto sinónimo de chão construído em respeito pelo bem natural que o conforma, enforma e informa. A este chão construído chama-se cidade, a invenção mais intrincada e complexa que o homem gerou, invenção mais apaixonante e exigente que o mesmo homem criou.
A cidade é um artifício humano que serve o humano na resposta às suas necessidades, mas que se funde e inspira (ou deveria ser assim) no meio natural de suporte que herda, ocupa e transforma.
A cidade não é uma construção abstracta nem pode ser arbitrária, não emerge da folha branca (mesmo aquelas construídas a partir de puras opções políticas , mesmo aquelas resultantes de planos e projectos previamente delineados para solos “desocupados e virgens”), nem deve desconhecer a partida, ambicionando (mesmo sabendo que não lá chegará) sempre aproximar-se do ponto final da chegada.

Como tal, a cidade, ou esta artificialização do território, tem de ser conjugada com o meio natural donde emerge, entendendo, respeitando as debilidades e fragilidades deste meio, as suas necessidades e condicionantes, aceitando o que não pode ser mudado, respeitando o que deve ser preservado, transformando o que pode ser melhorado, num processo dialético de conquista e de qualidade, nunca de imposição ou sobreposição.
Porque, na verdade, enquanto sistema complexo de construções e vias, de seres e trocas, a cidade não é mais do que uma réplica artificial da própria natureza, assim saiba encontrar a sabedoria certa para a interpretar e valorizar.
Tecto porque sempre precisamos, e precisaremos, de nos abrigar e conter no mundo criado à nossa escala e sentido. Tecto enquanto sinónimo de abrigo e protecção, de conforto e partilha, de referência individual na vida comunitária que experimentamos na cidade. Tecto enquanto espaço identitário de cada um e que transmite segurança e conforto para o ciclo de vida quotidiano.
Trabalho como rendimento e como satisfação, forma de nos realizarmos, modo de rentabilizar talentos e capacidades. Trabalho como contributo para a construção do bem comum e como rendimento para a compensação justa e necessária.

Terra, tecto e trabalho como princípios básicos de urbanidade e que nos oferecem as maiores riquezas que o ser humano em relação a outro ser humano foi capaz de criar: comunidade, conforto e cultura.
Comunidade como expressão de uma vida comum sobre a terra , cultura assumida como o resultado do exercício e labor da comunidade, seja material ou imaterial, conforto na criação de condições de equilíbrio entre a realidade herdade e aquela construída.
Terra, tecto e trabalho, comunidade, conforto e cultura encerram todas elas o mesmo foco e a mesma convergência: dignidade! Dignidade como valor maior de entendimento relacional entre nós e nós e o nosso contexto.
Reclamamos melhores condições de trabalho, salário proprocional, espaços físicos bem dimensionados, direitos de harmonia entre labor e família, labor e lazer; reclamamos estruturas de abrigo sólidas e capazes de serem mais do que simples albergue, antes habitação e lar; reclamamos atenção ao que nos rodeia “naturalmente” e apercebemo-nos, cada vez mais, o quanto a Natureza se magoa com o nosso excesso, o quanto somos indiferentes e egoístas às suas chamadas de atenção; reclamamos de tanto… e tanto entronca na dignidade! Provavelmente, porque a teremos começado a perder algures no tempo e no espaço e, seguramente, estamos com dificuldade em encontrá-la, quanto mais usufruí-la, ainda mais em pleno.

Talvez por isso seja importante nunca esquecer de que, quando falamos de cidade, de habitação e mobilidade, de economia e cultura, de solidariedade e educação, de edifício e natureza, de política e de “sustentabilidade”, de opções e reversões (e, consequentemente, quando estamos a governar, ou seja, a decidir sobre o espaço de todos nós e a condicionar o espaço de cada um de nós em função do bem maior chamado “bem público”), mais não estamos e, de forma perene e constante, a falar de dignidade e a medir a nossa dimensão e valor. Sim, porque, na verdade, po- demos ter muito e cada vez mais, mas nunca deixaremos de ser o que a nossa dignidade nos retratar. E valer para mim e para os outros!
A cidade é um bom espelho desta realidade. E, seguramente, por isso, merecemos uma cidade digna. Temos esse direito. Assim como temos o dever de a saber reclamar e construir. Para depois usufruir. Dignamente!

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