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Tirar ilações ou enquistar políticas?

Rizoma

Ideias

2013-03-05 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Independentemente de eventuais divergências sobre o número de pessoas que no sábado passado saíram à rua em protesto contra a troika e o governo de Passos Coelho, a verdade é que as manifestações geraram alguns consensos: foram demonstrações inorgânicas e pacíficas de exteriorização da real indignação dos portugueses, de carácter transversal e que movimentaram enormes manchas humanas.

Se dúvidas houvesse quanto à gritante perda de apoio popular deste governo, as manifestações deste sábado tê-las-iam dissipado por completo. Uma situação que, de resto, a própria imprensa internacional destacou ao assegurar que “razões não faltam” para a ira dos portugueses e, consequentemente, para estes e outros protestos.

De um modo geral, os meios de comunicação estrangeiros ressaltaram o carácter pacífico das manifestações aproveitando para relevar a recuperação instrumental da canção de Zeca Afonso, ‘Grândola vila morena’, e explicar o seu papel na revolução de Abril de 1974. Mas, claro, não perderam de vista as razões do descontentamento popular, cada vez mais generalizado.

A Associated Press, por exemplo, lembrou que na origem da forte indignação dos portugueses se situa a quebra do seu nível de vida, devido às medidas de austeridade exigidas pelos credores internacionais e adoptadas, inclusive para além dessas exigências, pelo governo de Passos Coelho. E sublinhou mesmo o facto de os indicadores económicos não melhorarem, bem pelo contrário, pelo que considera que “não faltam aos portugueses razões para resmungar”.

A agência espanhola EFE, por seu turno, recordou, para justificar as razões dos protestos, que “a taxa de desemprego disparou para 17,6%, o dobro de há três anos”, acrescentando que “o PIB caiu 3,8% no último trimestre de 2012, o pior dado em várias décadas”.

Mas a agência noticiosa do país vizinho foi ainda mais longe ao lembrar que a manifestação de 15 de Setembro de 2012, a primeira promovida pelo movimento ‘Que se lixe a troika’, já havia reunido “centenas de milhares de pessoas, numa das manifestações mais multitudinárias organizadas em Portugal contra os cortes orçamentais exigidos em troca dos empréstimos financeiros ao país”. Recordou, a propósito, que esse protesto obrigou o Governo a recuar na intenção de mexer na taxa social única, cobrando mais aos trabalhadores e menos aos patrões, o que aliás era rejeitado pelas duas partes.

A grande dúvida que se coloca depois das grandiosas manifestações de sábado passado prende-se precisamente com isso, com a leitura política que delas farão os principais responsáveis. No plano interno, evidentemente, mas de igual modo a nível externo. É que não nos podemos esquecer, em primeiro lugar, que os protestos decorreram na “presença” dos representantes da troika, que se encontram em Portugal para a sétima avaliação ao plano de ajustamento da economia portuguesa. Depois, por-que como lembrou a EFE, também não está esquecido o recuo de Passos Coelho em relação à taxa social única na sequência das anteriores manifestações.

Finalmente, outro factor a ter em conta será a postura bastante mais aberta e mais colaborante que as instituições europeias e, de um modo geral, os credores internacionais têm manifestado relativamente ao nosso país.

A teimosia frequentemente transformada em casmurrice de que Passos Coelho tem dado abundantes mostras será porventura o maior factor de incerteza quanto ao rumo a tomar. Creio que ninguém esperará que o primeiro-ministro corresponda à exigência que lhe foi feita no passado sábado de se demitir. E também será pouco plausível esperar profundas alterações ao rumo da governação por parte de quem desvalorizou os protestos dizendo que “não devemos confundir a árvore com a floresta”. Mas não retirar ilações e, pior que isso, deixar enquistar as políticas alvo de ampla contestação será um erro crasso.

A ser assim, e a acreditar que o CDS convive bem com a postura do seu líder, que de vez em quando dá sinais de preocupação e até de discordância mas finge não perceber o que se passa à sua volta e, principalmente, no país real para poder manter a sua fatia de poder, mesmo contra a sua base de apoio eleitoral, então restará olhar para Belém para tentar descobrir se ainda lá vive alguém com capacidade e vontade políticas para cumprir o juramento que fez aquando da sua posse: cumprir e fazer cumprir a Constituição.

O momento é demasiado grave para se poder assobiar para o lado como se nada se passasse. Como se fosse normal ter a economia em cacos e existir mais de um milhão de desempregados e um número crescente de portugueses a passar fome. Como se fosse aceitável condenar os nossos jovens à emigração para fugirem à indignidade em que se está a transformar a vida em Portugal.

Mais do que a mudança de políticos, o que se reclama com maior intensidade, e não apenas em Portugal, é a mudança de políticas. E desiludam-se aqueles que gostam de rotular e aquartelar as pessoas que se manifestam. Como muito bem salientou o filósofo José Gil, já não é só o povo que está descontente uma vez que “mesmo aqueles que têm o poder económico e financeiro já não aceitam esta política”.

Com todo este caldo, que Angela Merkel e Passos Coelho ajudaram a cozinhar, estão cria-das as condições para ultrapassar a linha, cada vez mais ténue, que separa um povo afável e dócil de um povo mais ostensivamente activo, eventualmente violento. Essa linha poderá esbater-se completamente quando se esgotar a paciência e o desespero der origem à exasperação.

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