Correio do Minho

Braga,

Toda a verdade?

Transtorno obsessivo compulsivo por compras: Oniomania

Ideias

2018-09-07 às 06h00

José Manuel Cruz

Em época venatória inclemente, que de águia garbosa faz perdiz vermelha abatível, mau era que do facto não respigasse o mínimo reflexo em apontamentos sobre o quotidiano. Descrê o cidadão comum que a espera dê em troféu, mas algum dia terá que ser. Observe-se, porém, o tempo da Justiça. De todo o modo, o título da presente crónica, que outro pássaro visa, bem se ajusta à matéria encarnada.
Prosseguindo. Comento factos correntes, partindo de experiências pessoais, e atesto que sem vaidades me convoco. Corriam os anos oitenta, e não ganhasse eu uns dinheiritos como tradutor eventual da Sputnik e da Raduga, e talvez acomodasse declaração estaferma destes dias, essa de que a decreto de Putin, datado de 2005, se deve a criação da aludida Sputnik e do canal Russia Today, desses difusores de inverdades e venenos que minam a boa da nossa democracia.
Talvez eu só tenha um leitor, e esse me desculpe as teias em que me enredo, em defesa de causa perdida. Talvez esse meu solitário leitor tenha seguido a última emissão do programa da SIC-Notícias que trago a título – Toda a Verdade. O ponto de interrogação é da minha lavra, pela pega de cernelha que lhes apanhei na passada semana.
Coisas há que mudam em quatro décadas, para outras que iguais se mantêm. Nada direi da Sputnik da actualidade, que não conheço. A de outras eras já teria o seu quê de panfletário, no dizer simplista de detractores. Eu traduzia o que me davam, normalmente narrativas sem importância de maior – textos sobre uma paisagem, uma curiosidade humana de Estado multi-étnico, sobre um herói, um pintor ou obra literária…
Discordando ou não, aceito que me digam que tudo bate com a verdade, nessa emissão de título bombástico: «Rússia, uma máquina de propaganda.». Tudo, menos um pequeno lapso, já que faço questão de esmiuçar, acrescentarão com cândido sorriso. Mas eu, que tenho carta de telhudo, uma me basta para abalar a santidade do articulado.
Depois, pergunta-se, que sentido tem glosar o aleijão da propaganda? Somos todos virgens, agora? Pior: que sentido tem fazer-se entender que a propaganda de uns é louvável, enquanto diabólica é a de outros? De quantos milhões, durante décadas, foram os orçamentos da Voz da América, da BBC, da Deut- sche Welle, a difundirem para um lado, e da Rádio Moscovo, da Rádio Praga, da Rádio Berlim Internacional, a doutrinarem para outro? Ainda antes de haver capitalismo e gémeo perverso, que diziam Maquiavel e Sun Tzu da dissimulação, da indução deliberada em erro?
Há um cheirinho a fim de civilização, pelo menos a uma mudança de paradigma. Magoa-me que liguem o nosso estertor a uma acção malévola orquestrada por um inimigo, quando melhor se deveria insistir na ideia de que interna é a doença. Mas isso é assunto que os produtores de conteúdos e os órgãos de informação preferem ignorar. Bandeiam, as pessoas, para os extremos e para a irrazoabilidade, quando os que deveriam promover a estabilidade e o equilíbrio se afadigam a encontrar bodes expiatórios para as aselhices que cometem dia após dia.
Quantos “deuses nos acudam” cabem no suposto suporte moscovita a Marine Le Pen, que não possam ser contrastados com os apoios desinteressados da Fundação Friedrich Ebert, a um PS de outros tempos, e da Fundação Konrad Ade- nauer a um PSD do mesmo período? E quando teria aplicado a CIA, sob os bons conselhos do amigo Carlucci?
Tudo cabe na política, e tarde ou cedo acabamos por provar da peçonha que levamos alhures. Não foram as quatrocentas contas FB piratas, localizadas na Rússia, que elegeram o Trump, por muito que procuradores e quejandos corram seca e meca. Queiramos ou não, todos acabamos tendo opinião sobre tudo, e simpatias afinadas com este e desafinadas com aquele. Passam-nos, em repetição, o disco da ingerência espúria, para que reconfirmemos aquilo em que desejamos acreditar, e de há décadas que o bicho-papão não muda de carranca. O caricato, em tudo isto, é se queixe que de intrusão, quem o sadio hábito tem de meter o bedelho em cada beco, num planeta entendido de lés a lés como zona de interesse estratégico.
Nem de propósito, vem de cair mais uma peça da farsa Skripal: já há suspeitos confirmados! E daí? Sob que penalidades juram fidelidade os que abraçam a carreira de 007? E não quererá responder, a senhora May: a quantos operacionais, estrategas ou mentores do IRA, limparam o sebo os serviços secretos ingleses? Porque é que temos que passar horas e horas pendurados de ajustes de contas russo-qualquer-coisa, reais ou imaginários, quando melhor deveríamos tratar da deserção do Reino Unido e da factura que os bifes preferem não pagar?

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