Correio do Minho

Braga, sábado

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Todos pelo Banco Alimentar

E no fim poderá ganhar (sempre) a Europa!

Ideias

2011-11-27 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Decorre este fim-de-semana mais uma recolha de bens para o Banco Alimentar. Poder-se-ia dizer mais uma, mas esta será certamente particular. Mais do que um tempo pré-natalício, este é um tempo de dificuldades, de medo. Portanto, este é o tempo de, mais do que nunca, sermos solidários. Com quem não tem nada, com quem tem pouco, com quem deixou de ter. Infelizmente esse número de pessoas vai continuar a crescer.

Não será difícil acrescentar um saco àqueles em que vamos metendo as compras neste fim-de-semana. Esse saco não deverá ser encarado como aquilo que sobra, mas poderá ser olhado como aquilo que faz falta a quem precisa de alimentos e não tem dinheiro para os comprar. Para muitos de nós tratar-se-á de uma realidade longínqua, se calhar para alguns até inimaginável. Uma espécie de mundo inverosímil, mas possível.

Num ambiente de prosperidade não será fácil saber o que significa a pobreza ou, pior, a fome. Eu acho que não sei falar de fome, porque, na verdade, nunca a senti. Por isso, tudo o que poderei dizer acerca deste tema não passará de uma teorização, necessariamente limitada, porque faltará sempre o saber vivido que felizmente não tenho. Contudo, lembro-me bem de uma experiência que vivi, deveria eu ter aí uns seis anos.

Perto da casa dos meus avós havia um bairro clandestino onde se vivia de forma quase comunitária. As duas casas de banho serviam todas as habitações daquele aglomerado sem água canalizada. Sob tectos de chapas de zinco, viviam famílias pobres, mas com crianças que pareciam felizes. Sem brinquedos, aqueles miúdos recriavam na rua animações que os entretinham até ao anoitecer. Recordo-me de engrossar o grupo dos mais pequenos em tardes verdadeiramente divertidas.

Eram bem felizes aqueles tempos… Recordo-os com alguma saudade. De quando em vez faz-me bem revisitar essas memórias para perceber que se poderá ser feliz com poucos bens. No entanto, também tenho consciência de que, no meio daquelas famílias, havia algumas que eram verdadeiramente pobres. E passavam fome. Percebi isso, quando, uma vez, a minha avó convidou uma das crianças para almoçar em nossa casa. Nesse dia, a refeição fazia-se com arroz de frango.

No prato de cada um foram colocados dois pedaços daquela carne branca. Num ápice tudo desapareceu do prato daquela criança que, vendo-me comer devagar, perguntou se poderia comer o bocado de frango, não esperando pela resposta. Com a mão, alcançou rapidamente a perna que meteria na boca energeticamente. Nunca mais esqueci aquele episódio. Lembro-me muitas vezes daquela criança e daquele movimento rápido de mão com que me subtraiu a perna de frango, como que a querer dizer que, se eu não tinha fome, havia muitos outros que não podiam contar com uma mesa farta.

Hoje, em muitos supermercados estão milhares de voluntários que nos estendem sacos plásticos à procura de ajuda para outrem. Estão lá em nome de pessoas necessitadas e estão lá em nosso nome. Poder-se-á também optar por senhas pagas nas caixas registadoras. Não importa a modalidade. O mais importante é ser solidário. Hoje mais do que nunca. Notícias recentes dão conta que houve uma substancial diminuição de donativos por parte das empresas. Por outro lado, os pedidos de ajuda não param de aumentar, atingindo grupos etários diferentes e classes profissionais variadas.

Ontem, o Expresso dava conta de uma iniciativa dos estudantes das universidades de Aveiro e do Algarve que, percebendo que havia um número crescente de alunos com carências alimentares, resolveram instituir uma espécie de Banco Alimentar para universitários. Aí está como a massa estudantil poderá promover iniciativas louváveis, em vez de queimar tempo em dispensáveis praxes.

Espero que o Banco Alimentar reúna este fim-de-semana a maior recolha de sempre. Porque é em tempos críticos que o valor da solidariedade se revela maior. Ajudar em contexto de prosperidade não será um gesto difícil. Louvável é dar, quando não há muito para oferecer. Aí não se dá o que sobra, entrega-se o que será importante para nós, mas decerto imprescindível para os outros.

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