Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Trabalhos dobrados

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2016-08-03 às 06h00

Escritor

Susana miranda

Já ouviram falar daquela receita maravilhosa para cozinhar esparguete em sete minutos? Ainda não? Pois... provavelmente não vivem sozinhos, senão seria o vosso jantar ideal depois de um dia de trabalho!
A minha vida mudou muito nestes últimos meses, depois da separação e da forçada mudança de hábitos, com um apartamento T3 no centro da cidade a precisar de todas as tarefas domésticas... Devem estar a pensar que anteriormente fazia da minha esposa a minha criada? Pois bem, desenganem-se... Tínhamos uma empregada que ia a casa duas vezes por semana fazer tudo aquilo que hoje tenho que fazer sozinho, porque isto dos divórcios é uma complicação! Uma belíssima fonte de rendimento para os advogados e uma limpeza da conta bancária para as duas partes envolvidas! A conclusão é que, contas feitas no final do mês, não consigo pagar a uma empregada novamente... Já com dois salários era outra história!
Enfim, mas nada de dramas... Também tenho aprendido bastante, confesso que muitas vezes recorrendo à ajuda da minha mãe, com uma simples chamadinha, mais que não seja para perguntar como faço uns panados: farinha, pão ralado... Sim, coisas tão simples quando as vemos na montra do café prontinhas a comer!
Sempre fui organizado e, como tal, estruturei um plano de tarefas semanal: ao sábado é dia de limpeza! Começo o dia a lavar os lençóis da cama, estender a roupa na varanda, aspirar o chão e passar o espanador. O mais complicado é mesmo passar a roupa a ferro... A minha profissão obriga-me a vestir camisas diariamente e então, ao sábado, a minha tarde é passada a engomar camisas para que na segunda-feira volte à rotina habitual sem preocupações domésticas a invadir-me os pensamentos na hora laboral. Já me basta preocupar-me em preencher mapas, balanços e gráficos estatísticos e ainda ter que dividir os meus pensamentos com as prateleiras do supermercado à procura do que vou confecionar para o jantar.
Hoje é um dia especial, porque o meu filho vem cá a casa jantar comigo. Obviamente que lhe vou preparar um manjar dos deuses para que fique bem impressionado e fique a pensar que, afinal, o meu pai “safa-se” bem sozinho! A casa está a brilhar, sem pó nem qualquer loiça espalhada por lavar! Comprei uma toalha de mesa bonita e faço questão de a estrear hoje com ele. Coloquei os dois pratos, copos e talhares na mesa da sala. O meu filho e eu merecíamos um tratamento ao nosso melhor nível!
Com a preciosa ajuda da internet estou a tornar-me um cozinheiro ao nível do Chef Avillez... ou melhor, estou a tratar disso... A ementa para o jantar teria que ser ao gosto do meu convidado: preparei uns camarões fritos para entrada, depois um naco de carne assado no forno com batata nova e para sobremesa uma mousse de abacate. Até eu estou impressionado!... Imaginem agora a cara do meu filho ao deparar-se com um jantar destes, quando há uns meses atrás era a empregada que cozinhava e eu não sabia fazer nada!
Nos primeiros dias o take away era o meu maior aliado. Até que iniciei a minha pesquisa no google e comecei a confecionar receias simples, as mais básicas que encontrava. À medida que o tempo foi passando, aventurei-me um pouco mais e comecei a fazer de tudo um pouco: fritos, cozidos, assados. Agora já me sinto quase confortável para receber visitas cá em casa. Sinto-me um perfeito “homem do lar”!
Para já ainda não tenho máquina de lavar loiça, contudo quando me sobrar algum, vou destiná-lo para comprar uma. Ninguém merece estar a lavar a loiça depois de um dia de trabalho e de um jantar descontraído. Digo eu...
A última tarefa diária é colocar o lixo na rua. Depois subir ao apartamento, sentar-me na cadeira de baloiço que tenho na varanda e perder-me em pensamentos acompanhado de uma bebida fresca... Não é fácil viver sozinho, talvez seja falta de hábito ainda. Sempre admirei a minha mãe, viúva há vários anos e que nunca mais casou ou partilhou o seu espaço com outra pessoa. Sozinha, distrai-se com algumas atividades lúdicas durante o dia, tendo a televisão por companhia à noite. Se a minha vida e o meu trabalho permitissem, gostava que ela vivesse aqui comigo, mas infelizmente eu nunca tenho hora certa de sair, com raros fins-de-semana livres, o que torna tudo mais difícil. Para mil e para ela!
Na próxima semana vão entregar-me a mobília do segundo quarto e a partir daí os meus dias ou serões vão passar a ser diferentes... Com sorte, duas ou três vezes por semana convenço o meu filho a ficar aqui a dormir! E, como não quero que passe por estas dificuldades emocionais e práticas, vou tentar ensinar-lhe a ser um homem independente e autónomo... A ligar a máquina de lavar roupa, a preparar um peixe assado no forno, a fazer a cama todos os dias! Quero que ele se sinta confiante nele próprio, capaz de enfrentar a vida e as suas constantes mudanças com coragem e sem receio de julgamentos, tão normais em mim. Se tiver que, um dia, viver sozinho, que esteja preparado para isso sem os dramas e medos que eu tive que ultrapassar.
Agora, até já estou a ponderar preparar a ceia de Natal cá em casa! Ou talvez não... aquela quantidade imensa de loiça suja para lavar... Vamos com calma, ainda estamos em Agosto!

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