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Tradições e recriações

Os amigos de Mariana (1ª parte)

Tradições e recriações

Voz aos Escritores

2021-10-29 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

No tempo dos Celtas, por esta altura do ano, terminavam as colheitas que iriam servir de sustento para o Inverno, escasso de alimentos disponíveis pela natureza circundante.
Celebravam, num agradecimento aos deuses em que acreditavam, com danças e partilhas de comida. Como ainda hoje nos fazemos rodear em qualquer celebração: alimento e música. Talvez as duas uma mesma forma de fortalecer corpo e espírito.
As festividades encontravam-se com o anoitecer, numa época sem luz elétrica. Sem candeeiros, sem máquinas, sem frigoríficos, o que deveria fazer do armazenamento e conservação não só uma tarefa difícil, mas também uma espécie de caixinha de surpresas. Mas voltando ao assunto, as celebrações encontravam-se com a noite e, para quem queria continuar a festejar, a solução seria acenderem grandes fogueiras. Com as grandes fogueiras vinham as grandes sombras, que eram na época reconhecidas como fantasmas ou almas do outro mundo. Uma visita dos mortos com saudades nossas ou, simplesmente, com saudades de uma boa festa.

Por ignorância, às sombras eram atribuídos poderes que não tinham na realidade. Nada mais são que o resultado da opacidade dos nossos corpos perante a exposição à luz. No entanto, queriam continuar a festejar, que uma festa rija assim, antes do início do Inverno, não se podia desaproveitar por dá cá aquele medo. Aconteceu que depois de muito pensarem, a ideia que mais convenceu foi pintarem a cara ou criarem máscaras assustadoras de forma a amedrontarem as entidades noturnas ou confundi-las, levando-as a pensar estarem entre pares e, assim, deixá-los na sua amena cavaqueira. Esta festividade era denominada Samhain, Summer’s end, ou seja, o fim do Verão, dando início à metade do ano com mais noite.
Com o passar dos anos, dos séculos, o avanço do conhecimento permitiu desmistificar, tornando o Halloween uma brincadeira de crianças que se mascaram e que vão de porta em porta pedir o seu doce ou exercer a sua travessura. Na sua origem, recitavam versos em troca de comida.

Por cá temos o Pão por Deus, que poderá ser um descendente desta referência. Ou o Dia do Bolinho ou do Bolinhó, consoante as regiões. Um pedido de alimento para os que têm fome, disfarçado de alimento para os mortos, potenciado pelo grande terramoto de Lisboa de 1755 que trouxe grande miséria generalizada e que aconteceu, precisamente, a 1 de Novembro. Em troca, as crianças recitam alguns versos bem giros e que podem encontrar com facilidade na Internet. Curiosamente em Custóias, a aldeia da minha mãe que fica perto de Vila Nova de Foz Côa, quando alguém morre, a família do falecido distribui pão pelas pessoas da aldeia. Na Páscoa, a visita faz-se também com a recolha de uma laranja por cada casa, o que deve dar uma saca bem pesada no final do dia. Mas isso são outros caminhos e visitas.

Voltando aos dias que se aproximam e às suas raízes, no século VII, o Papa Bonifácio IV, numa tentativa de sobrepor as festividades cristãs às pagãs, designou o dia 1 de Novembro como o dia de Todos os Santos ou de todas as almas, em Inglês All Saints Day ou All Hallows Day. A noite anterior era designada All Hallows Eve, a noite de todas as almas. A evolução de All Hallows Eve para Halloween pertence ao domínio da evolução da língua e da linguística, o espaço aqui é curto para tanta explicação paralela, que o assunto mereceria. Acrescento apenas que com a emigração em massa de Irlandeses e Escoceses, no século XIX, o Halloween chega aos Estados Unidos da América e aí começa toda uma proliferação pelo mundo. No início do século XX é celebrado na América por todas as raças, credos e posições sociais.

Não deixa de ser curioso uma celebração pagã ter sobrevivido até aos nossos dias e ter proliferado com um nome cristão. Esta mistura revela que o que nos une e identifica é maior do que o que nos divide. No colégio onde trabalho há 19 anos tenho a sorte de poder reflectir sobre isto e outras coisas, celebrar as duas tradições, o Pão por Deus e o Halloween, partilhar raízes e evoluções, mesmo tendo uma matriz católica. Não serão muitos assim por este país fora.
O conhecimento da História é fundamental para não cairmos em erros de avaliação e de rejeição. O desconhecimento da evolução e da ciência não se revela só ridículo, mas fundamentalmente perigoso, pois leva-nos a cair em posições extremistas. Tanto em relação a aspectos culturais, como a políticos. Afinal, não está tudo tão desligado assim.

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