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Tradição não rima com liberdade

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Tradição não rima com liberdade

Ideias Políticas

2024-04-16 às 06h00

Inês Rodrigues Inês Rodrigues

“É mais fácil uma mulher desembaraçar-se de um animal ou de um carro que tenha adquirido em comunhão de adquiridos porque precisa do consentimento do respetivo cônjuge do que interromper voluntariamente a gravidez. Nós tratamos melhor as coisas do que as pessoas. É isso que a meu ver é, no fundo, um atentado porque não houve ponderação devida. O que está em causa é dignificar a vida humana e a vida humana não nascida que é, no fundo, de algum modo tutelada apenas e exclusivamente pelo capricho da mulher.”
Otero, Paulo 2024

A direita conservadora decide, no inicio de funções do novo governo de direita em Portugal, lançar um livro, com duas dezenas de testemunho sobre a família, ideologia de genero, casamento, aborto, eutanasia e não só acusando a esquerda de ser inimigo das familias. Diz-nos o Priberam que a palavra família é “Conjunto de todos os parentes de uma pessoa, e, principalmente, dos que moram com ela. Conjunto formado pelos pais e pelos filhos. Conjunto formado por duas pessoas ligadas pelo casamento e pelos seus eventuais descendentes. Conjunto de pessoas que têm um ancestral comum. Conjunto de pessoas que vivem na mesma casa”.
Foi uma vitória histórica, conseguirmos, enquanto sociedade, que cada um de nós se encontre no seu tipo de família. Que cada um de nós escolha o que fazer com o seu corpo, com o seu casamento, com a sua vida e com a sua morte.
A alteração da lei do aborto de 2007, por exemplo, foi uma conquista que retirou do banco dos réus milhares de mulheres portuguesas que escolhiam interromper a sua gravidez. Durante décadas, mulheres morreram ou ficaram com marcas de sofrimento físico e mental profundo. Nos anos que antecederam 2007, as mulheres portuguesas tiveram que recorrer a práticas medievais, sem segurança, sem higiene, para que pudessem interromper as suas gravidezes. Diariamente julgadas e condenadas por procurarem a sua autodeterminação, sujeitando-se à humilhação e a penalização da sociedade
A história tem tendência a repetir-se se não for relembrada. Importa, por isso, relembrar aos nossos leitores que em 2005, terão sido realizados cerca de 17 mil abortos clandestinos em Portugal. Importa recordar, as vezes que forem precisas que, o direito ao aborto seguro não me obriga a abortar, a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo não me obriga a casar com uma mulher, a eutanásia não me obriga a morrer, que despenalização do consumo não me obriga a fumar droga.
O que Paulo Otero qualifica como “movimentos de cariz político apostados na destruição do papel «natural e fundamental da sociedade» da família” eu chamo liberdade. A liberdade de escolher, de decidir - a liberdade de não depender de ninguém para tomar as mais elementares decisões da vida de uma mulher.
Os tempos que vivemos são tempos conturbados. De repente parece que se descobriu que em Portugal há, ainda, uma teia conservadora e bafienta, que odeia o liberalismo nos costumes e ainda pensa dentro de uma caixa medieval. Em Portugal há uma tendência natural à cópia barata e então achamos sempre por bem copiar os movimentos exteriores com tudo aquilo que têm de mau. É assim e será sempre. O que não deveria ser possível é um Ex-Primeiro Ministro, achar que tem o direito de condicionar o avanço humanista e progressista e promove um regresso ao passado em matéria de Direitos, Liberdades e Garantias.
Pedro Passos Coelho já percebeu que já ninguém anseia o seu regresso, já percebeu que o mito sebastianista caiu e está a fazer de tudo para chamar a atenção. Não condeno ninguém por delito de opinião, mas já que também tenho liberdade de agir e pensar, também tenho o direito de repudiar, demarcar-me e lutar contra estas opiniões, que não são mais do que paternalismo bafiento, moralismo barato, mas são acima de tudo: um engulho.

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