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Traiçoeiras, ciumentas, vaidosas e gastadoras. Estamos mesmo em 2019?

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Traiçoeiras, ciumentas, vaidosas e gastadoras. Estamos mesmo em 2019?

Ideias

2019-03-04 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

Ao contrário do que se possa pensar, não é só para as mulheres que o machismo é negativo. É profundamente tóxico para os rapazes que, por via dele, se envolvem em frequentes situações de violência interpares, que crescem atemorizados por não serem suficientemente “masculinos” (seja lá o que isso for), que morrem mais precocemente por comportamentos perfeitamente evitáveis, que padecem de elevados níveis de ansiedade de desempenho nos seus relaciona- mentos afetivos e sociais, que demoram mais tempo a procurar ajuda para situações de depressão (e outras doenças psiquiátricas) e que gerem de forma excessivamente sofrida as normais frustrações da vida.

Há uns tempos atrás estive perante uma plateia de jovens adolescentes (mais de 90% eram rapazes) a conversar sobre cérebro, género e orientações sexuais. O ponto de partida foi um desafio em que lhes pedimos para encontrarem características definidoras das mulheres e dos homens. O objetivo era salientar os preconceitos e os estereótipos que assimilaram ao longo das suas vidas para os confrontar com a falta de evidência científica para cada um deles. Recebemos a garantia de que os homens eram “fortes, líderes, capazes e cheios de adrenalina” enquanto as mulheres eram “traiçoeiras, ciumentas, vaidosas e gastadoras”. As poucas participantes do género feminino aceitaram passivamente o consenso, ousando discordar da questão da vantagem masculina no que respeita à adrenalina: “se pensas que as mulheres não têm adrenalina é porque conheces as mulheres erradas”, retorquiu uma delas.

Um dos rapazes, num misto de culpa e discernimento, tratou de declarar que “as mulheres são assim, mas a sua mãe não”. A declaração, solene, foi seguida por um movimento quase unânime de acenares afirmativos de cabeça. Compreende-se a ressalva tendo em conta que estamos no Minho, uma região onde a sociedade tem laivos matriarcais que, ainda assim, não atenuam o machismo dominante.
Detivemo-nos por uns instantes na questão da traição e do ciúme. Os dados são esmagadoramente bárbaros: em menos de um mês, nove mulheres morreram vítimas do ciúme e da brutalidade criminosa dos seus ex-companheiros em Portugal. Nove mulheres e, que se saiba, nenhum homem.

“E a Rosa Grilo? Era traiçoeira ou não era, professor?”, pergunta um jovem perante o gáudio generalizado dos colegas. Quase todos a conhecem. A Rosa Grilo entrou-lhes em casa pelo Correio da Manhã e pelas parangonas sensacionalistas dos outros noticiários a que ingenuamente não chamamos populistas. Ficou-lhes gravada na memória como nenhum dos femicídios do mês anterior, ganhando no imaginário de cada um destes jovens o estatuto de confirmação de todos os preconceitos prévios: as mulheres são ciumentas e traiçoeiras, seres humanos em quem não se pode confiar. Esta memória seletiva exibe certamente o medo e a insegurança próprios de uma adolescência demasiado pautada por afirmações tóxicas da masculinidade.
A cena mediática está alinhada com a perpetuação dos estereótipos e dos preconceitos: enquanto o femicídio passional é normalizado, a diabolização de uma mulher alegadamente assassina tem destaque verdadeiramente desproporcionado.

Desde há vários anos que diversas instituições internacionais delinearam políticas públicas de combate à violência de género. Em Portugal, está quase tudo por fazer: do sistema educativo aos serviços de saúde, do sistema judicial aos sistemas de proteção social, dos órgãos de comunicação social às forças de segurança, as desigualdades entre mulheres e homens perpetuam-se ano após ano e os números da violência de género não dão sinais de abrandamento.

Os consensos internacionais afirmam que a forma mais eficaz de combater a violência contra as mulheres é promover a mudança da narrativa machista que ainda domina o espaço mediático dos nossos dias.
A mudança faz-se nas escolas, nas igrejas, nas televisões, nas rádios, nos festivais de verão, nos relvados de futebol e nos ringues de boxe. A mudança faz-se quando deixarmos de chamar “Manuela” ao avançado que falha golos; quando deixarmos de chamar maricas ao homem que não bebe; quando deixarmos de ridicularizar o homem que aspira a casa; quando deixarmos de chamar menina ao rapaz que é franzino e tem cabelo comprido;  quando deixarmos de olhar para a homossexualidade masculina como um horror e para a feminina como uma excitação; ou quando deixarmos de chamar galdéria à mulher que gosta de sair.

Os exemplos de expressões, normas e atitudes que reforçam as desigualdades de género são intermináveis. Sem qualquer descortesia para as flores que todos gostamos de receber como gesto de generosidade e afetividade, neste Dia da Mulher guardemos as flores para as campas das vítimas do machismo e lutemos civicamente para garantir que todas as mulheres e todos os homens do nosso tempo têm garantidos os seus direitos cívicos e sociais em condições de verdadeira igualdade.

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