Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Traição, dizem eles!

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2018-09-25 às 06h00

Jorge Cruz

“O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta”.
(Maquiavel)

A mais recente postura do presidente da Câmara de Braga relativamente ao edifício da antiga Fábrica Confiança configura uma autêntica traição aos seus eleitores mas constitui também, para muitos daqueles que lhe têm sido politicamente mais próximos, uma desprezível atitude de despotismo que poderá vir a custar-lhe caro.
É certo que para a votação no executivo municipal Ricardo Rio ainda conseguiu arrebanhar quatro dos seus mais fiéis companheiros de percurso o que, somando ao seu próprio voto, foi suficiente para fazer pender a votação a favor da sua proposta. Contudo, e a julgar por algumas posições públicas que o nebuloso processo deu a conhecer, o rebanho começa a mostrar-se inquieto.
Afirmar que “não será possível utilizar o edifício para construção habitacional ou centro comercial, por fruto das condicionantes urbanísticas”, como o fez Ricardo Rio, ou tentar convencer os munícipes de que “esta é a solução que melhor defende o interesse público”, é uma manobra mediática que apenas serve para desviar as atenções da questão essencial.

O problema fundamental, toda a gente o sabe, prende-se com os compromissos que a candidatura da coligação de direita assumiu com os bracarenses, ou seja, com a “criação do Museu da Cidade (a integrar na Fábrica Confiança)” e com os “espaços museológicos específicos nos domínios etnográfico, teatral e da arte sacra”. Agora, porém, a narrativa de Ricardo Rio passa ao lado da prometida “recuperação do património edificado para a instalação de valências culturais e sociais de usufruto público”, na qual incluía expressamente o “projecto para a Fábrica Confiança”.
Convenhamos que o plano de intenções/promessas sofreu alterações tão profundas que hoje não se identifica com aquilo que era defendido há anos atrás, quer pelo então candidato Ricardo Rio, quer por Firmino Marques, à época presidente da Junta de Freguesia de S. Víctor, quer ainda pelo dirigente da ASPA Miguel Bandeira.

As reacções a esta inflexão opinativa, que naturalmente correspondem a uma alteração política de fundo, não se fizeram esperar e, ao contrário do que seria expectável para Ricardo Rio, não partiram apenas dos partidos da oposição. Aliás, pode até dizer-se que as críticas mais contundentes, aquelas que podem ser consideradas mais agressivas e desgastantes, tiveram origem em instituições cujos responsáveis sempre foram considerados bastante próximos de Ricardo Rio e da coligação de direita.
De facto, a Junta de Freguesia de S. Víctor e a Associação Braga Mais saíram a terreiro a questionar o edil quanto à mudança de opinião, manifestando desde logo total oposição à alienação do imóvel. O autarca de S. Victor, Ricardo Silva, eleito como independente numa lista da coligação de direita, e que já tinha discordado publicamente da requalificação da Rua Nova de Santa Cruz, promoveu um debate que lotou a sede da autarquia e do qual saiu um abaixo-assinado e uma petição pública contra a venda da Confiança. Por seu turno a associação fundada por Rui Ferreira, actual presidente da Comissão de Festas de S. João e assessor da vereadora da Cultura, questiona a mudança de atitude de Ricardo Rio em relação ao uso daquele espaço como local público.

Ricardo Rio “mudou de opinião uma vez que na altura da compra [2012] também não havia garantia de fundos comunitários para a sua recuperação”, sublinha a associação em resposta à desculpa agora dada pelo presidente da Câmara de que os fundos comunitários não contemplavam aquele espaço e que esse seria o motivo da alienação a privados.
Ou seja, Rio invoca uma situação que não é nova, veste-a com uma roupagem actual para tentar iludir os incautos, e prepara-se para atirar a toalha ao chão, isto é, prepara-se para entregar a privados um património que, como memória de uma época, deveria manter-se na esfera pública.

E aproveitar a onda da enorme carência de alojamento para estudantes, cavalgando uma ideia pouco feliz de uma juventude partidária, também não é politicamente sério. E não é porque Ricardo Rio sabe – ou deveria saber – que as residências universitárias privadas não resolvem o problema dos milhares de estudantes que carecem de alojamento a preços acessíveis, conforme se prova com os exemplos de outras cidades.
À antiga fábrica Confiança está destinado um papel de relevo, quer na aproximação da cidade à universidade, quer em termos de contributo para a socialização dos bracarenses e entre estes e a população académica. Não me parece, francamente, que uma entidade privada, que naturalmente visa o lucro, possa substituir-se aos poderes públicos nessas tarefas.

O concurso de ideias lançado pelo município apontou soluções interessantes, sempre com a premissa de se tratar de um espaço multiusos que preservaria a memória industrial de Braga a qual, pelos vistos, Ricardo Rio agora quer apagar. E para o tentar fazer, não hesita em utilizar argumentos falaciosos, como aquele da inexistência de fundos comunitários ou aqueloutro de míngua de recursos financeiros.
São argumentos muito frágeis que, por essa razão, em sede de contraditório caem pela base. O primeiro, como a própria Braga Mais demonstrou, porque não houve qualquer alteração em relação a essa matéria; no segundo, bastará talvez lembrar, entre outros gastos discutíveis, os mais de quatro milhões de euros que a Câmara vai “queimar” nas obras de recuperação de um edifício propriedade da Igreja. Com a agravante de, como inquilino, ainda ficar a pagar muitas dezenas de milhares de euros anuais. Mas, pelo que Ricardo Rio proclama, estas operações inserem-se na política de “extremo rigor e controlo" na gestão pública que ele afirma perseguir. Vá-se lá entender estas teorias de gestão…?

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