Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Trilhos, pausa e outros silêncios

Pecado Original

Conta o Leitor

2015-07-13 às 06h00

Escritor

Alexandra Pinto

Não podia prever o que me estava a acontecer. Eu sempre vira com antecipação os acontecimentos que haveriam de tocar-me. Tinha já uma ideia firme das paisagens que por mim passariam. Seguia todos os dias o mesmo caminho. Sempre o mesmo recato. Os velhos movimentos, conduzindo-me aos outros de um modo egoisticamente útil. Eu não perseguia grandes explosões emocionais, vivências de euforia momentânea. Seguia e desejava o caminho do silêncio. Vivia fixa no meu espaço de quietude e aguardava.

Olhei-me ao espelho e pude perceber como me adiantava num futuro que ainda não tinha chegado. Treinava já uma velhice antecipada e via no meu corpo as linhas do tempo, algumas mais fictícias do que reais. Eu podia vê-las com absoluta clareza, deformando-me a percepção. Reproduzia, invisível e obstinadamente, as primeiras impressões que me haviam sido passadas pela inicial fascinação: “Os olhos da nossa mãe são o primeiro rosto”, diz Pascual Quignard.

Os movimentos da minha vida estavam de tal forma impregnados desse fluxo primordial que eu não conseguia viver senão desse modo, conduzindo-me ao triste lugar dos que me precederam. Eu cumpria o meu destino, seguindo as tendências e inclinações que me eram cegas, totalitárias, desconhecidas. Dentro dos limites que essa sorte de inevitabilidade me impunha, aprendi a voltar-me para dentro, a procurar o lugar ermo da minha queixa silenciosa e, sem saber, encontrava o aconchego que me vencia, assombrando-me aprazivelmente. Do seu exílio a alegria raramente saía e desse modo eu correspondia com a herança da minha triste mãe. Suspeitei da implacável subjugação à genética e compreendi que me castrava. Abri então as portas da minha sensibilidade e saí. Atrevi-me.

A expectativa de um amor tardio, depois de um solitário caminho em que me aventurara na intimidade breve e fugaz com alguns amantes, era um território de bruma, que existia na imaginação. Era, por isso, uma ideia. Pura ficção. Não era um mundo sólido, tangível. Fazia parte de um universo fluido e existia à luz dos meus anseios secretos. Eu podia imaginar e desejar em liberdade. Podia criar cenários em torno desse amor que não chegaria nunca.

Nessa dimensão ele era real. Existia como um acontecimento possível. Não dizia a mim mesma que era incapaz de voltar a amar. Mas essa ideia não encontrava nos dias materiais correspondência. Nunca me sentira impulsionada a investir de forma a realizar tal anseio, que pulsava no meu calado recato. Eu acolhia os homens de um modo brando, mas distante. Atribuía-lhes um lugar que os mantinha longe da minha mais profunda intimidade.

Não podia prever que ao conhecer este homem, tão inverosímil e de improvável convívio, partiria numa viagem que me assustava mas que me resgatava da solitária reclusão a que me devotara. Não sabia o que podia acontecer. Não quis saber. Procurei apenas o espaço novo que ele me abria e segui com medo para me poder reinventar. Respirei fundo, defrontei os meus fantasmas e avancei. Interessava-me mais a mulher em que me converteria do que aquele amor que me acenava com um pavor insuperável.

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