Correio do Minho

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Ideias

2015-04-14 às 06h00

Jorge Cruz

“Sou capaz de dizer que Pedro Passos Coelho veio mais vezes a Braga no último ano e meio do que qualquer outro chefe de Governo nos últimos oito anos”.

A afirmação que agora trago à colacção pertence ao deputado Hugo Soares e está contida na crónica publicada a semana passada neste jornal. O também presidente da Comissão Política concelhia de Braga do partido do Primeiro-ministro relaciona as visitas com uma alegada campanha de “dar Braga ao Mundo” e também com um pretenso “reconhecimento pelo trabalho feito”. Nesse sentido Hugo Soares evoca uma frase que terá sido proferida por Passos Coelho - “que os outros municípios consigam aguentar a pedalada de Braga!”.

Debrucemo-nos então sobre estas afirmações: em primeiro lugar, creio que as sucessivas presenças de Passos Coelho na capital do Minho, nem sempre em funções de Estado, deve dizer-se, são absolutamente normais se tivermos em conta a relevância eleitoral de Braga para o PSD. É que não nos podemos esquecer que estamos a referir-nos à mais importante câmara que o partido do Primeiro-ministro governa. Olvidar isto é não perceber o que está em causa ou, talvez pior ainda, traduz-se numa gritante falta de honestidade intelectual. Mas adiante.

Falar de reconhecimento pelo serviço prestado e reforçar a ideia com uma alegada declaração primo-ministeriável em forma de desafio aos restantes municípios parece-me, francamente, excessivo e uma afirmação de muito mau gosto, enfim, um momento infeliz do deputado.

Passo a explicar:
A serem verdadeiras as asserções em causa, estaríamos perante um inqualificável acto discriminatório do Primeiro-ministro, que distinguiria municípios por critérios desconhecidos, classificando-os segundo interesses partidários e sem qualquer correspondência com a realidade. Ora um chefe de Governo tem que ser isento e imparcial, não pode pactuar com jogadas deste tipo. E pur si muove! (E, no entanto, ela move-se - Galileo Galilei).

Fico sem saber, entretanto, se o desafio aos municípios portugueses para “aguentar a pedalada de Braga” tem a ver com a realidade no concelho ao nível da investigação e da pujança empresarial ou, como dá a entender Hugo Soares, com a actividade da própria câmara. É que são coisas muito distintas e confundi-las é o mesmo que baralhar-se entre obra-prima do mestre e prima do mestre-de-obras.

E a verdade é que, apesar de tudo, custa-me a acreditar que com aquela frase Passos Coelho tenha pretendido incitar os municípios portugueses a seguir o exemplo do de Braga. Não quero crêr que ele pretenda ver todas as autarquias a copiar Ricardo Rio e a apostar na propaganda como forma de governação. Que pretenda que os municípios sigam o péssimo exemplo de mascarar factos e situações para os apresentar da forma que melhor convém aos interesses do respectivo presidente. Se era a isto que se referia, então estamos a falar de alargar a todos os municípios a política que, nesse âmbito, já vem sendo praticada pelo Governo e da qual a Câmara de Braga tem sido uma fiel seguidora.

Nem de propósito, na última “Praça do Município”, programa semanal da Rádio Universitária do Minho, Carlos Almeida denunciou uma vez mais a falta de correspondência entre o discurso de Ricardo Rio e a realidade.

O jovem vereador comunista pôs em confronto declarações proferidas por Rio há um ano dando conta de que a capacidade de endividamento da Câmara estaria muito próxima da linha vermelha, altura em que acenou com um cenário catastrofista de intervenção da Administração Central, e as mais recentes, que apontam para uma “folga” superior a 20 milhões de euros.

Este contencioso com a verdade é compreensível à luz de um exercício político que privilegia os sound-bytes como forma de esconder as incapacidades, que usa e abusa da comunicação e da propaganda para tentar fazer passar uma imagem mais favorável mas que pouco ou nada tem a ver com a realidade.

Acontece que a realidade não mente nem é passível de ser mascarada, por muito que Rio e os seus conselheiros o tentem. Como o azeite, também a verdade virá à superfície e, pelo menos nessa altura, comprovar-se-á que, não obstante ter lançado algumas medidas a merecerem aplauso e ter posto em prática certas promessas eleitorais, uma boa parte do programa apresentado aos eleitores ainda está por cumprir. Ou seja, e como diria Assunção Esteves, mais um inconseguimento de Ricardo Rio.

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