Correio do Minho

Braga, terça-feira

Turismo de negócios e a falta de visão

Tancos: falta saber quase tudo

Ideias

2011-05-31 às 06h00

Jorge Cruz

Incluo-me no conjunto de pessoas que acredita que o turismo e, dentro desta fileira, o subsector do turismo de negócios pode desempenhar um papel de grande relevância na promoção e no relançamento das economias de algumas cidades e regiões. E é por estar plenamente convicto disso e por assistir a alguma passividade nesta área que me proponho abordar o tema.

Antes, porém, não quero deixar de me congratular com o estrondoso sucesso da “Braga Romana - reviver o passado na Bracara Augusta”, uma feliz iniciativa da Câmara Municipal que a vereadora Ilda Carneiro anualmente promove. Pese embora o registo de alguns desvios à pureza dos objectivos centrais - o mercado romano apresentou mesclas inadmissíveis sob o ponto de vista do respeito pelas épocas, pelas actividades, pelos produtos e pelos participantes -, a verdade é que o regresso temporário ao tempo da Gallaecia se transformou numa aula viva de história, bem aproveitada por milhares de crianças do concelho. Como se não bastasse, o evento também colocou em relevo os vestígios arqueológicos relacionados com a Brácara Augusta, numa acção de sensibilização para a salvaguarda e valorização desse património. Mas o objectivo provavelmente mais bem conseguido por Ilda Carneiro nesta acção prende-se com a promoção turístico-cultural e, quanto a esta, os muitos milhares de visitantes são a prova provada do sucesso do evento.

Como o é de igual modo a excelente adesão do comércio e da própria associação de classe que, em conjunto com a Câmara, a comunidade escolar e outros actores, transformaram esta iniciativa num evento que já ultrapassou fronteiras e pode vir a constituir-se como mais um produto-âncora de um futuro programa de promoção da cidade.
Mas entrando no tema nuclear desta crónica, quero começar por reafirmar que o turismo de negócios assume particular relevância no desenvolvimento das economias regionais constituindo, para alguns dos agentes económicos, um factor determinante da sua sobrevivência institucional.

Para a cidade ou região de acolhimento de tais eventos as vantagens de ordem económico-financeira não são desprezíveis. É a hotelaria e a restauração, os estabelecimentos de diversão, o comércio, entre outros, que vêem a sua actividade incrementada durante o período de realização dos acontecimentos.

Na hotelaria, por exemplo, os eventos de turismo de negócios, como as feiras e congressos, podem contribuir decisivamente para elevar a taxa média de ocupação e promover uma certa regularização da sazonalidade. Mas existem ainda os inúmeros benefícios para a cidade e a região em que esta se insere, as quais naturalmente ganham com o grande afluxo de visitantes, ganhos que podem ser contabilizados também ao nível da visibilidade, do emprego e dos rendimentos.

Mesmo sem entrar em certos pormenores de ordem técnica, mais apropriados para serem explanados noutros espaços e para audiências mais específicas, sempre poderei adiantar alguns argumentos em favor da tese que defendo.

De facto, os grandes eventos, onde se incluem feiras, congressos, manifestações desportivas e realizações de cariz cultural, podem transformar-se, em certos casos, em autênticas galinhas de ovos de ouro. E isso porque os benefícios secundários tangíveis e intangíveis são consideráveis, embora tanto mais volumosos quanto maior for a dimensão do evento.

Se no caso dos benefícios económicos, os tangíveis, não será muito difícil fazer uma avaliação muito aproximada (há métodos científicos para isso - modelos de multiplicador baseados em Keynes e Leontief, por exemplo), já nos de ordem social, cultural e política, os intangíveis, o grau de dificuldade de quantificação é bastante superior. Em todo o caso, o acréscimo de visibilidade e de reputação da cidade e da região são alguns factores que comprovam que há um retorno apreciável.

O impacto económico observa-se principalmente nas actividades dentro da “esfera de influência” do evento, tais como alojamento, restaurantes, transportes e comércio e lazer. Esse efeito de cascata, que constitui a base dos efeitos multiplicadores dos benefícios, é frequentemente responsável pela criação de emprego mas, seguramente, pela criação de riqueza.

Como quer que seja, mesmo considerando a natural variação das bases de valor, fica perfeitamente claro que os grandes eventos contribuem de uma forma relevante para as economias regionais. No momento presente, em que as dificuldades têm que aguçar o engenho, creio que pode ser a oportunidade e quiçá a derradeira ocasião de Braga avançar para uma estrutura que potencie as inúmeras riquezas naturais e patrimoniais não só do concelho mas também da região envolvente.

Braga cidade de feiras, congressos e grandes eventos pode e deve ser muito mais do que um mero slogan eleitoralista ou de mera circunstância. Mas para que o projecto tenha a desejada e necessária sustentabilidade é imperioso deixar de lado as capelinhas, alargar horizontes e pensar para além do nosso quintal, enfim, unir esforços e envolver todos os principais interessados. E nem se trata de inventar o que quer que seja até porque sobram exemplos de boas práticas nesta matéria, mesmo em Portugal, como serão os casos das associações de turismo de Lisboa e do Porto. Tem faltado é visão e vontade política.

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