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Um 25 de Abril nunca visto!

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Um 25 de Abril nunca visto!

Ideias

2020-04-19 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

Estamos à porta de mais uma evocação do glorioso 25 de Abril, esse “dia inicial inteiro e limpo”, no luminoso dizer da mítica poetisa Sophia.
Um dia histórico, que anualmente se relembra, homenageia e comemora, dentro do espírito de valorização das conquistas proporcionadas pela “Revolução dos Cravos” e que se traduziram na reconquista da Liberdade, na institucionalização da Democracia e no Desenvolvimento do país que, não atingindo certamente os patamares de excelência e justiça que todos desejaríamos, até por carência de recursos e opções políticas menos ajustadas, constituindo sempre e em cada momento um processo em curso, está a um nível que em nada se compara com o que acontecia em 1974. Um país muitíssimo mais desenvolvido, a todos os níveis, apesar das entorses.

Contudo, este ano a data história mais relevante do último meio século vai ser celebrada em pleno estado de emergência, sem o fulgor comemorativo dos outros anos. Não vai haver desfiles pelas ruas, espectáculos, alegria, cravos vermelhos, festas um pouco por todo o país, devido às contingências da pandemia que por estes dias ensombra as nossas vidas individuais e o viver colectivo. O Parlamento prevê a realização de uma sessão solene, decisão que está a provocar imensa polémica nesse areópago onde todos os caretas se exprimem, com ou sem razão, com ou sem conhecimento, que são as redes sociais, exactamente devido ao período que se atravessa.
Consideram os contestatários que se as famílias não se podem reunir e se a Páscoa foi cancelada, e muito bem, pelas razões por demais conhecidas, porque é que a Assembleia da República há-de comemorar o 25 de Abril, sem que isso contrarie o ambiente de confinamento e distância social que é imposto a todos os portugueses? Um argumento com alguma consistência, sem dúvida, num assunto que se antevê nada consensual.

Um 25 de Abril de 2020, num tempo absolutamente estranho, sombrio e inquietante para cada um de nós, num Portugal em estado de emergência, marcado pelo isolamento, pelo distanciamento social, pelas medidas de protecção individual e colectiva, tendentes a conter e a prevenir a disseminação da epidemia pelo novo Coronavírus. Enfim, pela tristeza por uma situação nunca antes vivenciada pelas gerações actuais.
Esta semana, o Presidente da República renovou pela segunda vez o estado de emergência, que abrange assim mês e meio da vida individual e laboral dos portugueses e foi aprovado pela grande maioria dos deputados no Parlamento, não revelando grandes diferenças nas medidas restritivas em relação às duas quinzenas anteriores.

Três razões essenciais estiveram na base da renovação da medida. Por um lado, para permitir acorrer à situação dos lares, onde a tarefa "precisa de mais tempo", como adverte Marcelo Rebelo de Sousa.  Um segundo ponto, tem a ver com a necessidade de continuar a estabilizar o número diário de internamentos no geral e nos Cuidados Intensivos em particular para assegurar que o Serviço Nacional de Saúde se encontrará "em condições de responder à evolução do surto em resultado do aumento de contactos sociais".

Por último, a renovação dá tempo ao Governo para preparar "a abertura gradual da sociedade e da economia" depois do final de Abril, atendendo a "tempo, modo, territórios, áreas e setores". A "preocupação essencial" é "criar segurança e confiança nos portugueses para que possam sair de casa e retomar paulatinamente as sua vidas", como sublinhou o Presidente da República.
O propósito é que o Governo use estas duas semanas de poderes aumentados para preparar a estratégia tendente à saída do regime excecional em que temos vivido desde meados de Março. E que os portugueses se continuem a comportar bem, como até aqui, naquele que é considerado um “milagre português”, mas que tem sido o somatório de um sacrifício colectivo de milhões de cidadãos.

A questão fundamental por estes dias é compatibilizar saúde e economia. Para já, o discurso dos principais responsáveis do país, o primeiro-ministro e o Chefe do Estado, vai no sentido de insuflar doses de esperança aos portugueses. O que não é fácil numa altura em que 1 milhão de trabalhadores estão na situação de lay-off (esquema aproveitado claramente por algumas empresas para angariarem receitas, numa altura em que os negócios estão em baixa) e muitos já no desemprego, num custo adicional para o Orçamento de Estado de cerca de 1000 milhões de euros. No total, as medidas de apoios sociais e económicos tomadas pelo Governo até agora deverão custar à volta de 20 mil milhões de euros no final do ano. Uma enormidade, convenhamos, e que seguramente vai ter reflexos no futuro próximo, até porque “despesa do Estado agora, são impostos amanhã”, como clarificou magistralmente o ministro da Economia, Siza Vieira. Para que não haja ilusões.

De todo o modo, António Costa promete começar a olhar para o futuro, abrindo paulatina e gradualmente alguns sectores económicos, porventura já em Maio, de modo a retomar o impulso da economia. Ultrapassada a fase de "conter a pandemia sem matar a economia", agora é tempo de "reanimar a economia sem deixar descontrolar a pandemia". Essa a quadratura do círculo que se avizinha.
Para já, o país está dependurado no Estado, das empresas aos cidadãos, da economia à cultura e à comunicação social, porque o país está paralisado, as empresas praticamente pararam e o comércio encerrou portas, por ordem governamental. Tudo em nome da saúde e da vida dos portugueses. Um país estatizado, por estes dias, com o apoio dos liberais de meia tigela, que passam a vida a encher a boca de iniciativa privada, mas nos momentos de crise e quando lhes dá jeito, recorrem sem engulhos à teta do Estado.

A ânsia de sair do isolamento é enorme, mas a precaução também dita as suas leis, o que significa que vamos ter de continuar nos próximos dias o esforço de contenção e confinamento do último mês. Ou seja, temos de fazer esforços para “ganhar em Abril a liberdade que se quer em Maio”, como reiterou o Presidente da República.
Numa altura em que assistimos ao exacerbar do egoísmo de líderes internacionais, da União Europeia aos Estados Unidos, que não revelam a tolerância, o apoio e a solidariedade que o momento impõe, salvam-se os heróis que quotidianamente, nos mais diversos sectores, vão mantendo o país a funcionar e com alguma vida económica e social. Sobretudo, os profissionais de saúde que, neste momento e nas palavras judiciosas de Manuel Alegre, são, simbolicamente, os “capitães de Abril”.
E ajunta: “O 25 de Abril celebra-se, sobretudo, lutando contra o Coronavírus”.
O 25 de Abril de 2020, com as suas polémicas, as suas estranhezas, a sua emergência, é sobretudo marcado por esse combate interminável e singular dos actuais “capitães de Abril” contra a pandemia que ameaça Portugal e o mundo!

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