Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Um 25 de Abril sem Robin dos Bosques

Reflexões abertas à sociedade portuguesa

Ideias

2010-04-24 às 06h00

Ricardo Miguel Vasconcelos Ricardo Miguel Vasconcelos

Para muitos, a essência do 25 de Abril é desconhecida. Vive-se o feriado nacional, mas não se celebra a conquista da liberdade para o povo português oprimido durante décadas. Um golpe de Estado militar derrubou a ditadura de Oliveira Salazar. Jovens oficiais de quadros intermédios (Movimento de Forças Armadas), na sua maior parte capitães que viveram a Guerra Colonial, juntaram a sua força a estudantes recrutados, muitos deles universitários, e concretizaram a revolta das forças armadas.
Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho, considerado o estratega do 25 de Abril, esteve no passado dia 15 na Escola Básica do 1º Ciclo da Sé, em Braga. Segundo os relatos do jornalista do ‘Correio do Minho’, José Paulo Silva, o capitão deu uma lição sobre a ‘Revolução dos Cravos’ e recordou, durante cerca de uma hora, factos e emoções vividos há 36 anos com a preparação e concretização da operação militar que pôs fim a um longo período de ditadura.
Que sentimentos vividos naquele dia? De que maneira os seus heróis preferidos, Robin dos Bosques e Sandokan, influenciaram a sua vida? A estas perguntas, Otelo surpreendeu ao dizer que nos tempos que correm, em Portugal, faz falta um Robin dos Bosques que, tal como o personagem medieval, roube aos ricos para dar aos pobres. “Alguém que vai tirar aos ricos aquilo que eles têm a mais diz-me sempre muito”, considerou. Aludindo aos prémios chorudos atribuídos aos altos qua-dros da EDP, disse que “Robin dos Bosques tiraria, à força de espada, 500 mil dos 3,1 milhões de euros que António Mexia ganhou”. O herói português afirmou ainda que, tal como o homem mítico da Inglaterra, considerado por muitos um fora-da-lei, também Sandokan “assacava tesouros às grandes riquezas para os distribuir pelos mais necessitados”. Otelo considerou que uma redistribuição mais justa da riqueza não se verificou em Portugal com a revolução de 25 de Abril. “Neste pequeno país que não tem recursos naturais, a verdade é que há grandes fortunas que o 25 de Abril não afectou demasiadamente”, desabafou. “Os grandes banqueiros que saíram do país em consequência do 25 de Abril, voltaram mais tarde e reinstalaram-se. Hoje têm muito mais dinheiro do que tinham antes da revolução”, constatou Otelo Saraiva de Carvalho, em contraste com os “dois milhões de portugueses a viver no limiar da pobreza”.
Como seria de esperar, o operacional criticou os partidos políticos que na sua luta pela ascensão ao poder tenham criado uma ‘partidocracia’ em vez de solucionarem os problemas gritantes que existem. Lamentou a corrupção da classe política e os favores entre partidos.
Em suma, “o 25 de Abril não se fez para o que está a acontecer em Portugal”, disse.
No século XVIII, Robin Hood (Robin dos Bosques em Portugal), roubava aos ricos para dar aos pobres. Reinava Ricardo Coração de Leão. Era hábil no arco e flecha e vivia na floresta de Sherwood. Os amigos ‘João Pequeno’ e ‘Frei Tuck’ eram o seu braço direito. Se os relatos que falam deste ‘Príncipe dos Ladrões’ forem fiéis ao que realmente fez, concluo que em Portugal há heróis parecidos, menos na forma de actuar. Há uma espécie de ‘Robins’ do contraditório. Para os habitantes de Nottingham, cidade do centro de Inglaterra, Robin continua a existir. Infelizmente, para nós também. No nosso país, muitos governantes também têm amigos que os ajudam na concretização das suas metas (só eles sabem porque não ficam em casa). Também se rouba a uns para dar a outros, neste caso tira-se aos pobres para dar não sei bem a quem. Não dominam arco nem flecha mas mandam cada tiro certeiro que, se não nos ‘matam’, deixam-nos, no mínimo, boquiabertos. Não vivem na floresta de Sherwood nem se vestem com retalhos em bico de cor verde. Normalmente, o fato assenta-lhes bem, a gravata também. Não caminham pé ante pé. Viajam num belo carro e decidem o rumo do país.
Para a maioria dos portugueses o 25 de Abril continua a ser uma efeméride fantástica. Para muitos políticos justos e trabalhadores também. Mas temo que as gerações futuras possam concluir que, por exemplo 50 ou 60 anos depois, a liberdade e glória nacionais conquistadas continuem a ser regadas por sentimentos de frustração, pura pobreza, falta de valores e revolta por um país sem rumo, sem sustentabilidade, sem programas de apoio ao emprego, na ausência de criação de riqueza, sem respostas para as suas imensas dúvidas.
Se podíamos viver sem o 25 de Abril? Podíamos, mas não seria a mesma coisa.

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