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Um alerta no início do 3.º milénio: a Declaração de Amesterdão sobre Mudança Global

A recuperação das aprendizagens

Um alerta no início do 3.º milénio: a Declaração de Amesterdão sobre Mudança Global

Ideias

2021-06-27 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Há vinte anos, o Programa Mundial de Pesquisa do Clima (WRCP; desde 1980), o Programa Internacional Geosfera-Biosfera (IGBP; 1986-2015), o Programa Internacional de Dimensões Humanas sobre Mudança Ambiental Global (IHDP; 1990-2014), e o DIVERSITAS-Programa Internacional de Ciência da Biodiversidade (1991-2014), convergi- ram para criar a chamada Parceria da Ciência do Sistema Terrestre (ESSP).
Esse consórcio, como o próprio nome deixa perceber, foi estabelecido com o objetivo de estudar de forma multidisciplinar e integrada o Sistema Terrestre, particularmente a dinâmica das suas alterações e o respetivo impacto na sustentabilidade global e regional. Ele surgiu num contexto de uma percebida crescente necessidade de atuação enérgica em face da transição acelerada do Sistema Terrestre para um estado não-análogo na sua história, ou seja, um estado em que as condições climáticas e ambientais transcenderam a variabilidade natural conhecida desde início do Éon do Fanerozoico, há cerca de quinhentos milhões de anos, aumentando a probabilidade de mudanças imprevisíveis com consequências potencialmente prejudiciais nele ocorrerem. Embora a ESSP tenha terminado em 2014, um número significativo das pesquisas levado a cabo no âmbito dos seus Programas transitou nessa altura para o programa de investigação internacional Future Earth (2012-2022).

A EESP foi oficialmente instituída através da Declaração de Amesterdão sobre Mudança Global assinada no encerramento do encontro científico aberto “Desafios de uma Terra em Mudança: Mudança Global”, com a participação de cerca de 1400 cientistas de 105 países, ocorrido a 13 de julho de 2001 nessa cidade holandesa. Na Declaração se lê, logo no seu início, que os referidos quatro programas científicos independentes pretenderam aproveitar as suas experiências de pesquisa acumuladas ao longo de décadas como base para a edificação de uma ciência ambiental global de novo tipo capaz de, por um lado, assumir o facto da crescente interdependência dos processos naturais e dos processos sociais no Sistema Terrestre e de como eles se influenciam reciprocamente de modos complexos, dinâmicos e a várias escalas, e, por outro lado, construir conhecimento a seu respeito suscetível de ser usado para responder com eficácia e rapidez aos grandes desafios colocados pelas flagrantes alterações planetárias.

A acumulação de evidências de progressivo maior impacto da ação humana no funcionamento dos Sistema Terrestre é salientada na Declaração por intermédio de um discurso já claramente alarmista, mas ainda distante da retórica catastrofista que não tardará a impor-se. Nela se assevera, a esse respeito, que: «As atividades humanas estão a influenciar significativamente o meio ambiente da Terra de distintas maneiras, não se reduzindo às emissões de gases de efeito de estufa e às alterações climáticas. As mudanças antropogénicas na superfície terrestre, nos oceanos, nas costas e na atmosfera da Terra, assim como na diversidade biológica, no ciclo da água e nos ciclos biogeoquímicos ocorrem claramente além da respetiva variabilidade natural. Elas afiguram-se iguais a algumas das grandes forças da Natureza no que concerne à sua extensão e impacto. Muitos estão a acelerar. A mudança global é real e está acontecendo agora».
Relida a duas décadas de distância, o que impressiona é este enfático “agora”, porquanto depois desse alerta o estado do planeta não cessou de piorar, apesar do conhecimento que temos sobre a mesma ser muito maior. Como vamos continuar a lidar com tamanha (ir)responsabilidade moral?

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