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Um apelo à memória para que a história não se repita*

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Um apelo à memória para que a história não se repita*

Ideias Políticas

2019-06-25 às 06h00

Carlos Almeida Carlos Almeida

A Guerra Civil de Espanha não é, definitivamente, um capítulo encerrado na sociedade espanhola, mantendo-se ainda bem visíveis as marcas desse período sangrento.
Recentemente, tive a oportunidade de assistir ao “O Silêncio dos Outros”, um filme documental espanhol realizado por Almudena Carracedo e Robert Bahar, com produção de Pedro Almodóvar, já premiado com o Goya de Melhor Documentário e o Prémio do Público da secção Panorama no Festival de Berlim.
A sua estreia ocorreu em Espanha, em novembro passado, num momento em que permanece aceso o debate na sociedade e no campo político sobre a ditadura franquista. Espanha vive atualmente um período crítico de intenso debate político em torno da procura dos responsáveis e da sua condenação pelos crimes cometidos, o que tem provocado a reação e o reaparecimento de posições extremas das forças saudosistas do regime de Franco, que até aqui conviviam bem à luz do Pacto do Esquecimento e da Lei da Amnistia, que têm impedido, de facto, que se investiguem os crimes de perseguição, tortura, assassinato e roubo de crianças cometidos nesse período. Os responsáveis por esses crimes não só gozam de liberdade, como em muitos casos vieram a assumir funções políticas ou responsabilidades em serviços públicos de diversas instituições espanholas. No centro da discussão, mantém-se (ainda) a Lei da Memória Histórica, que inclui entre outras demandas a remoção de topónimos, símbolos e monumentos franquistas dos espaços públicos, bem como a mais recente decisão do governo espanhol de exumação e trasladação dos restos mortais de Franco do Vale dos Caídos.
É neste contexto que nos é apresentado “O Silêncio dos Outros”. Numa Espanha divida entre os que preferem, convenientemente, esquecer o passado e seguir em frente e os que reclamam justiça e dignidade para poderem seguir em frente. Carracedo e Bahar escolheram o seu lado e tomaram partido pelo segundo grupo, acompanhando durante seis anos, tempo de duração das gravações, um conjunto de vítimas do franquismo que deram início ao chamado “Processo Argentino” na tentativa de levar a julga- mento naquele país os responsáveis pelos crimes ocorridos durante e após a Guerra Civil.
O uso da arte enquanto instrumento de intervenção social é uma característica recorrente no género documental e “O Silêncio dos Outros” é a prova viva disso mesmo. É precisamente nesse sentido que o que nos é oferecido neste documentário, pela desocultação dos testemunhos das vítimas e informações partilhadas, assume particular relevância, não só estética, como social. Mais ainda, porque tais testemunhos reflectem a realidade social de dois momentos, fazendo a ponte entre passado e presente, enquanto último reduto da memória, que urge recolher, documentar e mostrar ao mundo.
“O Silêncio dos Outros” tem, entre outras virtudes, esse dom extraordinário: não dá lugar à indiferença na relação com o observador, por analogia, quiçá, com a própria causa que inspira os participantes do denominado “Processo Argentino”, envolvendo-o no enredo de uma maneira intensa, expondo ao máximo os sentimentos de revolta, (in)justiça e dignidade, perante a violência que não morreu, apenas se reconfigurou, com o derrube do regime de Franco, num processo de transição de regime que mais não representou senão uma operação de branqueamento dos crimes cometidos.
Para contrariar a verdade oficial, as memórias individuais trazidas à luz pelo documentário, como corpos que se querem resgatar da vala comum do esquecimento, cumprem esse papel subversivo, irrompendo do silêncio num momento de grande agitação e controvérsia política que atravessa a Espanha de hoje.
O “Silêncio dos Outros” é, pois, um forte estimulo à tomada da palavra, para que se lhe somem outras memórias individuais no processo de construção da memória coletiva de um povo em torno de um fatídico momento histórico que continua à espera de justiça.
*texto adaptado a partir de um ensaio crítico elaborado em contexto académico, que, pela pertinência do tema, entendi partilhar com os leitores convidando-os a assistirem ao filme.

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