Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Um brinde ao início de uma nova etapa no ensino superior: Uma carta aos caloiros (e, possivelmente, não só)

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Ensino

2018-09-12 às 06h00

Filipe Clemente

Setembro marca uma nova etapa para milhares de estudantes que iniciam o seu percurso na academia. Muitos afastando-se pela primeira vez de casa. Todos enfrentando novos desafios na antecâmara do mercado profissional. Projetando alguns desafios e reflexões que este período merece, endereço esta carta numa lógica de contracorrente face ao que vão ser as tradicionais e massivas “palmadinhas nas costas”, e os “aproveita em grande”.
A entrada no curso pressupõe um conjunto de aprendizagens técnico/científicas, mas não só! Espera-se que do início ao término do curso o candidato se desenvolva pessoalmente e eticamente, apreendendo um conjunto de princípios profissionais e sociais que o tornem, mais que um operacional qualificado, um Homem de plena consciência e responsabilidade. É da confluência de fatores técnicos, pessoais e profissionais que resultará a sua maior ou menor possibilidade de singrar no mercado de trabalho e de alcançar o tão famoso chavão “trabalha no que te faz feliz”. É pois, neste ponto, ou mais precisamente, no início da formação que começa a trabalhar o “crivo dos sonhos”.

O “crivo dos sonhos” é uma máquina imaginária que diferencia aqueles “que gostavam”, “dos que querem” e dos “que fazem por acontecer”. Sabemos que a nossa maquinaria biológica nos diferencia no que ao talento, aptidão, capacidade e performance diz respeito. No entanto, também sabemos que uma correta compensação por via do planeamento, trabalho eficaz e dedicação poderá aumentar as possibilidades dos menos dotados de alcançar feitos próximos da elite. Por outro lado, mesmo nos mais dotados, a ausência de trabalho contínuo, consistente e eficaz acarreta um sério risco de não concretização dos feitos que seriam expectáveis. O mesmo se passa na nossa vida académica que é, exatamente, o “treino” para a vida profissional (que é a “competição”).

Todos conhecemos casos de diplomados que não se encontram a trabalhar na sua área de formação, ou que trabalham em circunstâncias precárias ou que emigraram por ausência de oportunidades. Todos também conhecemos casos de estudantes brilhantes que não alcançaram o estrelato enquanto profissionais. Todos estes casos podem ocorrer por inúmeras razões, certamente. Possivelmente a esmagadora maioria quando terminar o curso, ou mesmo durante, vai trabalhar precariamente e no limiar da exploração.
Apesar das dificuldades, não nos podemos conformar e apregoar que “é por isso que devemos fazer o mínimo no curso”, dizer que “é indiferente a nota desde que passe” ou “deixa-me andar a ver o que dá”. Se o mercado profissional é desafiador para os mais aptos, quanto mais será para os que fizeram os serviços mínimos no seu percurso académico? Será que uma aprendizagem sólida, um trabalho constante, uma motivação ávida e uma dedicação inquebrável não auxiliarão a chegar mais perto dos “sonhos”?

Infelizmente os jovens são inundados de expressões como “alcança os sonhos”, “sê feliz” ou “aproveita agora”, mas são escassas as frases que dizem que tudo isso apenas pode ser alcançado por um trabalho ininterrupto, por sofrimento e por dedicação. O período no ensino superior é o momento de fazer a diferença e de sofrer (mesmo) para ser melhor. Se continuarmos a pensar que existem sempre mais oportunidades talvez um dia elas não apareçam e nos tornemos amargos com os que conseguiram, pelo fruto do investimento maior do que nós, a dada altura das vidas, alcançar aqueles que eram “os nossos sonhos”. De facto, muitas vezes o “crivo dos sonhos” começa a trabalhar mais cedo do que possamos pensar e a minha sensação é que começa a trabalhar desde o momento em que assumimos um objetivo final. Não basta querer, desejar ou merecer. Apenas (ou mais provavelmente) os que forçam um bocadinho mais todos os dias, vão ser escolhidos pelo crivo no momento final!

Por isso a minha mensagem de boas-vindas é uma mensagem de trabalho, esforço e vontade de sofrer. Estuda mais horas do que sais à noite. Trabalha mais horas do que passas nas redes sociais. Investiga mais horas do que as que passas nos jantares de convívio. Existe tempo para tudo, mas não te esqueças, o dia ainda só tem 24 horas! E se te disserem, “aproveita a vida que ela é curta” pensa: como queres aproveitar a vida? A divertir-te ou a criar condições para um legado? Ambas são possibilidades aceitáveis e plausíveis, mas tens de assumir que não podes almejar ambas! Escolhe e assume uma!

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