Correio do Minho

Braga, quinta-feira

- +

Um desafio de grande dimensão

A Árvore da Vida

Um desafio de grande dimensão

Ideias

2022-10-06 às 06h00

Pedro Tinoco Fraga Pedro Tinoco Fraga

Costumo dizer que gerir empresas é algo relativamente fácil, sendo que o maior desafio está na gestão das pessoas, sendo óbvio que são elas que formam as empresas. E, em momentos como os que começamos a atravessar (infelizmente acho que o pior ainda está para chegar), a maior dificuldade para as empresas está na gestão das expectativas das pessoas, dos seus colaboradores.
Assim, o início de 2023 representará para as empresas um dos maiores desafios de sempre, pois conjugam-se uma série de factores que não podemos ignorar : valor de inflação em 2022 a rondar os 8% tendo havido por parte de vários colaboradores uma efectiva perda de poder de compra; brutal aumento de custos em algumas actividades empresariais, nomeadamente as de uso intensivo de energia e de matérias primas importadas; forte pressão governamental para uma forte subida de salários sem haver a preocupação em criar condições para esse aumento poder acontecer; existência de uma situação (pelo menos no presente) de quase pleno emprego o que pressiona os salários; retracção global no consumo em inúmeros sectores, em todo o mundo; opção dos bancos centrais (BCE e FED) por uma subida agressiva das taxas de juros como (única ?) forma de restringir o consumo e baixar a inflação; entrada em “derrapagem” do motor europeu (Alemanha) com o natural efeito de arrastamento; instabilidade politica em alguns gigantes da Europa (Inglaterra, Itália) e mesmo em países como a Suécia; manutenção de todo o efeito negativo da invasão da Ucrânia por parte da ditadura russa havendo ainda a potencial suavização da posição de alguns países europeus com a eleição de lideres que sempre tiveram uma relação cordial com o ditador que governa a Rússia (a Itália é disso um bom exemplo), etc, etc. Em resumo, há inúmeros factores negativos e sem querer ser o pessimista de serviço reconheço que estes factores não deixam às empresas grande margem de manobra para, em 2023, conseguir cumprir as expectativas (legitimas ou não) dos seus colaboradores.
Considerando uma taxa de inflação a rondar os 8% em 2022, é evidente que a maioria dos colaboradores em Portugal perdeu poder de compra, sendo que nos sectores de consultoria/serviços e Tecnologias de informação essa foi uma situação muito menos expressiva, pois o nível de aumentos salariais é, em média, bastante superior aos aumentos no sectores do comércio, indústria e administração pública. Mas, aceitemos todos que houve perda de poder de compra dos colaboradores que, em alguns sectores, chegou aos 5%, 6%.
A perspectiva de inflação para 2023 situa-se nos 5,4% e admito que será legítimo que a maioria dos colaboradores pense em aumentos (líquidos, note-se) de 5%, para não perder mais poder de compra. A minha pergunta é : mas temos país e temos empresas para suportar isto ? É evidente que não e só quem nunca geriu empresas e/ou nunca saiu dos corredores do poder para o mundo real é que tem ideia que temos empresas que aguentem esta situação.
Temos um desafio maior do que o dos anos da troika, pois há 10 anos atrás não vivíamos um cenário inflacionista como o de hoje e no momento em que passámos por uma terrível crise de liquidez, vivíamos com uma inflação que atingiu o máximo de 3,7% em 2011, com taxas de juro mais baixas do que aquelas que temos hoje. Resumindo, se nos reportarmos aos anos de 2010 a 2013 a pressão sobre as empresas em termos salariais era consideravelmente menor do que a que hoje existe e vai existir a curto prazo e por isso eu reputo este desafio como sendo de uma dimensão colossal para todas as empresas. Cumulativamente a pandemia mudou a forma como em muitos sectores se olha para o emprego e, em muitas empresas, a competição por pessoas deixou de ser com o vizinho do lado ou do Porto, mas sim com o actual vizinho de Berlim ou do Dubai ou de San Francisco.
Mas onde fica o estado, esse ente não definido que a todos tutela, em maior ou menor grau ? Pessoalmente não defendo a injecção massiva de mais empréstimos nas empresas e mesmo admitindo a quase obrigatoriedade (embora não ache que o actual poder tenha coragem para isso – mais do que margem de manobra é preciso coragem) de redução em alguns impostos que penalizam empresários e trabalhadores (IRS e SS, por exemplo) continuo a ser algo ingénuo e a defender que o que necessitávamos todos neste momento era de um estado que não … atrapalhasse. Ainda sobre a questão da descida de impostos, no mundo empresarial falamos em demasia da descida do IRC e isso é um falso problema pois a esmagadora maioria das empresas não apresenta resultados líquidos positivos.
Precisamos mais do que nunca de um estado que facilite a vida às empresas, que seja célere a tomar decisões, que seja claro no caminho a seguir e que, fundamentalmente, perceba o que é a vida de uma empresa. Urge que quem transitoriamente detém as rédeas do poder não tome a nuvem por Juno e aligeire a pressão sobre as empresas em momentos como este, simplificando processos.
Exige-se celeridade na administração fiscal, exige-se paridade na relação com a administração fiscal e com a segurança social, exige-se que não se ande à procura de uma agulha num palheiro em algumas das melhores empresas para trabalhar e se faça vista grossa a verdadeiros desmandos públicos que existem (o estado forte com os fracos e fraco com os fortes) e, mais do que nunca, exige-se realismo aos colaboradores das empresas e aos dirigentes sindicais. Para estes dois últimos grupos... não temos empresas para aguentar aquilo que está a ser pedido e eu acho que muitos empresários vão (e bem) assumir que preferem perder colaboradores e salvar as empresas, do que ser populares em Janeiro/2023 e impopulares antes de 2024 ! Sim, temos um país em que o Salário Mínimo é uma vergonha e admito que ninguém consiga viver com esse valor. Mas não pensemos também que as empresas aguentam tudo e que os empresários são um bando de malfeitores com lucros e vidas milionárias. Esse é um dos problemas de muitos dos governantes que ao longo dos anos passaram pelo poder : nunca tiveram a responsabilidade de pagar um salário, nunca tiveram a preocupação de perceber que um salário de 1.000€ líquidos mensais em Portugal custa à empresa cerca de 2.300 em cada um dos 11 meses de trabalho do colaborador. É assim fácil, sem mexer na morosidade e nos bloqueios da máquina do estado, vir fazer anúncios gongóricos de necessidade de aumentar 20 ou 30% os salários em 4 ou 5 anos. Todos estamos de acordo, mas pergunto: o que é que o estado, essa entidade que como atrás disse nos tutela a todos, faz de substancialmente visível para melhorar a competitividade e o ambien- te económico em que as empresas operam?

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

06 Dezembro 2022

Presépio Vivo de Priscos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login Seta perfil

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a Seta menu

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho