Correio do Minho

Braga, terça-feira

Um ensaio sobre a cegueira: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”

O seu a seu dono!

Voz às Escolas

2012-04-23 às 06h00

Hortense Lopes dos Santos

“Verde. Amarelo. Vermelho. Verde. Amarelo. Vermelho. Uma mulher fica cega na passadeira de uma rua de uma cidade sem nome. A epidemia - uma cegueira branca - alastra-se. Os infetados são isolados e colocados em quarentena numas camaratas onde os instintos primários vêm ao de cima. Torna-se difícil controlar as emoções. ‘Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara’. E o que o espetador é chamado a ver é a desagregação da decência humana em que deixa de haver distinção entre homens e animais…”.

Esta é a sinopse da peça apresentada pelo grupo de teatro da ESCA, OutrArte, no Theatro Circo, no passado dia 18 de abril, no âmbito da Mostra de Teatro Escolar.
O sucesso desta apresentação foi o culminar do trabalho realizado desde o início do ano letivo, pelos alunos e pela professora Deolinda Mendes, que a propósito registou:

“Outubro - Nos primeiros encontros semanais deste projeto, as sessões destinaram-se ao estabelecimento de laços afetivos entre os muitos elementos que constituíam o grupo. Fizeram de damas antigas, descobriram quantos ‘a’ habitavam o ‘a’, sentaram-se numa cadeira possuída, imaginaram objetos desenhados com as mãos, foram escultores, pintores, descobriram-se e tocaram-se. Foi tempo de afetos.

Novembro - Certo dia chegou a Cátia; sim, a aluna de bengala branca cujas gargalhadas contagiam tudo e todos à sua volta. A perspicácia da formadora colocou-os a todos no mesmo patamar: todos passaram a invisuais e a venda foi material obrigatório. Lutou-se por comida, seguiu-se a voz de quem abria caminho. Escolheu-se o texto. Foi tempo de decisões. E de afetos.

Dezembro - Alguns saíram, alguns entraram. A coesão, porém, manteve-se. Foram distribuídas as tarefas: cenografia, figurinos, adereços, fotografia, vídeo, facebook, música, gráfica, adereços. Os laços fortaleceram-se. Foi tempo de partilha. E de afetos.

Janeiro - O Facebook quis fazer das dele? Pois quis. Contudo, os valores sobrepuseram-se. Frontalidade, sinceridade e humildade não foram palavras vãs. O problema, colocado no seio do grupo, morreu ali, sem causar vítimas, sem ressentimentos. Foi tempo de aprendizagem. E de afetos.

Fevereiro - O texto surgia e havia que o decorar. De sessão para sessão, a música contribuía para a marcação dos tempos; os adereços para a organização do espaço. Muitas brancas depois, o espetáculo tomava forma. Foi tempo de afinação e ainda de afetos.

Março - Ai, que falta tão pouco tempo! São poucas as sessões? Não seja por isso: encontrámo-nos nas férias da Páscoa. Já o fizéramos no Natal e no Carnaval. Quem corre por gosto não cansa. Tempo de afetos e mais afetos.

Abril - Últimos ensaios. Limar arestas. Acertar pormenores. Conjugar tempos. Afinar vozes. Ajustar marcações. Onde é que eu ia? Dá-lhe a deixa. Do princípio? Do princípio.

18 de abril de 2012 - Apagaram-se as luzes e o silêncio encheu a sala. A pouco e pouco, os pequenos atores “outraram-se”, transfiguraram-se, despindo-se das suas vestes para dar corpo às personagens. A luz, a música, a emoção¸ a força da voz da narradora impuseram-se e tocaram fundo no coração de todos. Não será esta a magia do teatro?”
Sim, foi mágico. O público emocionado aplaudiu de pé, reconhecendo a qualidade do espetáculo a que tinham assistido.

A todas as pessoas envolvidas no projeto o nosso muito obrigado.

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