Correio do Minho

Braga, terça-feira

Um estado intra-uterino

O conceito de Natal

Conta o Leitor

2013-09-25 às 06h00

Escritor

Anamar

Numa das regressões em que participei, há alguns anos atrás, tive a oportunidade de assistir ao estado intra-uterino de uma criança. Essa regressão ocorreu no ventre da mãe, antes do nascimento.
A jovem nessa altura com cerca de quarenta anos, sentiu emoções que até então pensava que eram dela. Ela podia sentir e estar consciente de tudo, tanto de dentro como de fora do ventre da mãe.

Mais tarde a mãe confirmou tudo o que a criança dentro do ventre, sentiu.
Lá fora, era este o mundo que a esperava:
Estávamos no início dos anos sessenta. Numa aldeia nos arredores da cidade.
A mãe com 26 anos de idade, para ganhar a vida trabalha como jornaleira.
O pai com 24 anos, trabalha na cidade.
Ambos trabalham, para alimentar os quatro filhos, 3 raparigas e um rapaz.
Que vida poderia haver para esses jovens pais, já com tanta responsabilidade, com tantos filhos para criar? Com tanta juventude perdida?

O objectivo era trabalhar para que nada faltasse, que ninguém tivesse fome, a fome que ela, a mãe, passou e teve.
“Puxando o filme” uns anos atrás, não seria fácil para esta mãe que começou a saber muito cedo o que era a vida, a vida de trabalho.
Logo aos 8, 9 anos de idade, senão mais cedo e para ajudar a mãe, faltava à escola para levar a comida aos irmãos um pouco mais velhos que já trabalhavam. Não era raro o dia que levava um safanão deles, por ter atravessado a cidade a correr os 10 ou 15 Km a pé, muitas vezes descalça, fizesse chuva ou sol, a comida quase fria e obrigando-os a comer apressadamente. Ela regressava a casa comendo as duas batatas cozidas que levara dentro dos bolsos do vestido, enganando assim a sua fome.

Deles, nunca recebia um obrigado. (Também eles ficaram sem infância).
No dia seguinte, quando chegava à escola, a professora chamava-a e depois de dizer o porquê de ter faltado no dia anterior, recebia os “bolos” nas mãos como prémio. Como não lhe chegava isso, à noite, em casa, o pai ex-emigrante na França e combatente da primeira grande guerra, mais para a alertar e chamar a atenção do que para a magoar, “sacudia-lhe o pó” pois sabia que os estudos iam ser importantes no seu futuro.
Pobre criança, pobre mulher.

Viu o marido partir para a tropa, para a India e ela, sem saber, com mais um filho na barriga.
Dois longos anos, só ela sabe o que passou para alimentar esses 4 filhos.
Só ela sabe as lágrimas que chorou. Lágrimas, dor, mas ao mesmo tempo sempre alegre, com muito amor e confiante que amanhã será sempre melhor do que hoje.
Sempre acreditou que quando olhava lá para cima (para o céu) e pedia, recebia o que queria. Sabia que Ele velava por ela.

Voltando ao estado intra-uterino, o marido regressa da India depois de ter ficado 2 anos a cumprir o serviço militar. Dois longos anos para ela. Pobre mulher, sofreu saudades imensas, sofreu, e passou muito sozinha.
Voltava agora a ter consigo o seu grande e único amor.
Finalmente tem o marido a seu lado, o seu grande amor. Os filhos estão crescidos, a mais velha com sete anos e o rapaz, o mais novo, já tem quase 2 anos.
Agora, já podem fazer projectos a dois. Já podem estabilizar a vida. Foi por tudo isso que tanto esperou.

A felicidade era tanta… que volta a ficar grávida.
Mais um filho.
Essa mulher mais uma vez tem a consciência e a noção da vida difícil que continuará a ter para alimentar mais um filho.
Mais um.
A criança, ouve, sente todas essas emoções e vibrações da mãe.
É um estado intra-uterino cheio de emoções.
A mãe aceita ter essa criança, e chega a hora de nascer.

A criança quer nasce. Escolheu logo o dia em que o pai está de folga. Nos dias de folga era hábito o pai dormir até mais tarde. Ela “grita” de lá de dentro “ponham-se a pé”.- ” Vamos lá”. Mas nada...-“Quero sair daqui”… Volta ela a dizer.
E é travada, impedida de nascer. O pai ainda está na cama. A mãe não quer que o pai assista ao parto. Pudor? Vergonha? O querer avançar e ser travada por algo e por alguém, a criança sente como sendo suas todas essas emoções que lhe farão companhia até tomar consciência delas e absorve-as como uma esponja.

Após muita insistência da mãe, o pai lá resolve ir pedir ajuda.
Chega a parteira e a criança já esta quase cá fora. A bebé é tratada com muito carinho pela parteira. Esta fala com ela, sorri-lhe, e embrulha-a no cobertor. A criança sente o calor e o aconchego do colo da mulher que a ajudou a vir a este mundo e sente-se a ser colocada num cantinho da cama. E lá fica sozinha, silenciosa, pois ela não chora. Não fica ninguém ali com ela. ” Para onde foram todos? ” pensa ela.
A mãe está cansada. O dia começou e tem muito que fazer.

Ao interagirmos quer como mães, quer como pais, bem como familiares da criança enquanto feto, devemos ter atenção que elas apercebem-se e assimilam todas as emoções que as rodeiam.
A jovem sabe que todos os acontecimentos que ocorreram no ventre, no período intra-uterino, até ao nascimento são importantes na sua vida.
Toma consciência deles e todas as emoções que carrega até aí, todas as “amarras” e obstáculos começam a desfazer-se e transformam-se em compreensão e amor. Ela torna-se num ser mais consciente de quem é.

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