Correio do Minho

Braga,

Um esterco chamado Banca

Amigos não são amiguinhos

Ideias

2014-11-10 às 06h00

Carlos Pires

Se há algo na nossa sociedade que nos últimos anos entrou numa espiral de decadência, sem fim à vista, esse algo chama-se “Banca”. Sendo que, por mera cautela, mas também são realismo, faço questão de utilizar o vocábulo indiciador de coletivo - “Banca”. Não me refiro pois ao Banco X ou ao Banco Z, a um qualquer Banco antigo ou a um Banco novo. Não. Prefiro meter tudo no mesmo saco. Um saco que analistas e empresas de rating internacionais já apelidaram de (saco do) lixo.

Em jeito de analepse da atividade bancária em Portugal, podemos concluir que, até há meia dúzia de anos atrás, a “Banca” assumira o papel de arauto do dinheiro fácil e da boa vida. Distribuiu dinheiro, sem critério ou exigências, contribuindo para um endividamento excessivo das famílias e das empresas, o que viria a revelar-se ruinoso e tornar-se o colapso de muitos. Soubemos depois que muito desse dinheiro que jorrava abundantemente tinha afinal a sua fonte em esquemas fraudulentos, criados pela dita “Banca”, através dos quais aliciava investidores, crédulos e confiantes.

O primeiro grande escândalo surgiu logo no início dos anos de crise, em 2008, com o BPN envolvido num escândalo de crimes de fraude fiscal e branqueamento de capitais. Com a falta de liquidez, o banco foi nacionalizado, passando a incorporar o universo da Caixa Geral de Depósitos, com custos elevadíssimos para todos os contribuintes.

A partir daí, todos os podres da “Banca” foram expostos, as solvabilidades postas em causa, as respetivas ações em queda atingiram negativamente a Bolsa de Valores. Houve necessidade de refinanciamento pelo Estado e pela União Europeia. Não a tempo de evitar, contudo, em início de Agosto deste ano, a queda de um dos maiores bancos privados - o BES da família Salgado - tais eram as graves imparidades, contingências e prejuízos que revelava, de resto objeto de Comissão Parlamentar de Inquérito que está a dias de arrancar. Há duas semanas, soubemos, o BES perdeu o controlo do BESA (Angola) numa Assembleia a que chegou atrasada a respetiva representante, por causa de uma alegada operação stop… Daria para rir, não fora a seriedade do assunto em questão.

(Maior) stresse foi o que resultou ainda, nos últimos dias do mês passado, do chumbo do BCP nos resultados do exame ao setor bancário da zona euro. Convenhamos: mesmo sabendo da reclamação que o Banco fez - por o terem avaliado relativamente ao ano de 2013, sem ter em linha de conta os rácios trazidos com o aumento de capital social realizado este ano - certo é que a fotografia da “Banca” portuguesa fica ainda mais distorcida.

A “Banca”, com pequenas exceções, é duvidosa. Duvidosas têm sido, ainda, quer a atuação do supervisor, Banco de Portugal, quer ainda a relação da política com a “Banca”, transformada esta em albergue para políticos encostados. A este título, veja-se a recente notícia sobre a redução do (generoso) vencimento que auferia o ex-ministro da economia, Manuel Pinho, enquanto administrador de qualquer coisa no Grupo Espírito Santo, de 37.000 euros mensais (sim, caro leitor, eu não me enganei, eram mesmo 37.000 euros mês!) para uns míseros 2.000 euros… Mas se perguntarem a qualquer empresário português se pode contar com o apoio da “Banca” para a sua atividade, potencialmente geradora de emprego e riqueza, a resposta será um inequívoco “não!”. Da “Banca” surgem ainda reptos moralistas e censuráveis: 'ai aguenta, aguenta!' - Fernando Ulrich, BPI, sobre se o povo suporta ainda mais austeridade.

A “Banca” cheira mal. Foi e ameaça ser, no futuro, causa de muitos males. Não me arrogo a dar lições aos banqueiros. Nem esta crónica é o resultado de birra ou de maledicência gratuita. Apenas me custa que a falta de rigor e ética imperem naquele reino dos senhores de gravata e nariz empinado, tudo à custa dos bolsos de todos nós.
Não há pachorra!

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