Correio do Minho

Braga,

Um Feliz Regresso às Origens

Antecedentes… (parte II)

Conta o Leitor

2015-09-01 às 06h00

Escritor

Carlos Alberto Rodrigues

Já tinha algum tempo este desejo de um reencontro com as minhas origens, com o meu Ser, como e onde tudo começou, algures entre Braga e o Gerês. Abandonei a cidade que me abraçou desde os três anos, para fazer uma espécie de viagem no tempo. Tempo em que acordava ao som dos passarinhos ou ao som da chuva a cair lá fora enquanto no conforto do lar de meus avós aquecia alma e corpo junto à lareira, enquanto a conversa entre adultos fluía sempre de forma saudável.

Fazer uma viagem às minhas origens, aos meus amigos de há muito tempo atrás, das faces dos anciães, sim, para além da idade avançada sobretudo o respeito por eles falavam mais alto. Sempre tiveram por mim um carinho invulgar, quiçá ajudado pela boa educação e cordialidade com que eu, mesmo quando pequeno, sempre os tratei. E isso, meus senhores e minhas senhoras, para muita gente é a verdadeira riqueza desta vida. Saber ocupar o seu devido lugar, sem atropelos, traições ou ratoeiras com o objetivo de conseguir algo, que de outra forma seria impossível.

Rever as pessoas cujas faces envelhecidas pelo tempo permaneciam naquele lugar, com saudações ou cumprimentos e às vezes um beijo que tocava aquelas faces enrugadas, mas que me traziam de novo a minha infância; ou quando os mais “esquecidos” a quem os anos já apagara algumas recordações, admirados, sussurravam quem eu era, seguia-se um sorriso capaz de iluminar o mundo todo.

-“ É o neto do velho Zé do Rita, o mesmo que muitas vezes nos acudiu quando enfermos tínhamos de levar daquelas injeções de penicilina. Valha-nos Deus e, verdade seja aqui reclamada, graças ao seu bom desempenho com agulhas e seringas. Eu fui muitas vezes seu “cliente” e nunca tive razões de queixa, e olha que quando se trata de maleitas do corpo sou o primeiro a reclamar, assim…

Bom homem, o teu avô. Se há céu está lá a guardar um lugar para ti, pois muitas vezes da boca dele ouvi os melhores adjetivos sobre ti. Então, Depois de elucidados, do sorriso e das palavras de circunstância, vinha de lá aquele abraço sempre cordial e que cheirava a saudade.
- “O neto do velho Zé do Rita. Já passaram uns bons tempos, mas olha só, parece que por ele os anos não passam.
Ainda me lembro de quando tu corrias desenfreado por esta ruela atrás dos teus amigos de infância e no entanto parece que ainda foi ontem”.

É verdade, prezava aquela amizade pelas pessoas da aldeia que me viram crescer e me sabiam neto de uma pessoa exemplar, disciplinador o qual não admitia qualquer tipo de falta de respeito para quem fosse. Recordo-o sempre pronto a ajudar quando o socorro era necessário, daí a fama de meu avô.

Nas faldas daquela serra serpenteada pelo rio Cávado cujas águas formam um belo espelho na Caniçada, num vale encravado entre duas vertentes montanhosas e que servem de miradouros sobre o casario tão típico daquela região, cujas águas refrescam as suas margens dando um toque idílico apenas ao alcance de pinceladas de grandes mestres da pintura, ganhei amizades que perduram nos tempos até hoje, provei os primeiros encantos que a paixão na infância oferece e a amizade que só aqueles tempos conseguem ter para oferecer e que tantas vezes trazem até nós amigos até ao fim dos nossos dias.

Depois havia a minha velha casinha, onde nasci e permaneci os primeiros anos de vida. Mas a casa onde nasci, apesar de não ser tão velha como alguns exemplares centenários ou de Brasão, não deixava de ser um simples, mas talvez por isso, belo e aconchegante casario carregado de granito onde se realçavam as janelas em madeira maciça.

Aliás era das duas janelas que se via lá no fundo do quadro inspirador mas ao mesmo tempo sobranceiras ao casario que era avistado lá em baixo na aldeia. A casa encontrava-se à sombra de um frondoso pomar onde se colhiam as melhores frutas que tanto me deliciavam.
Podia-se sentir mil e um aromas diferentes todos os dias todos os minutos: hoje podia ser a pinho ou eucalipto.

Aromas que eram trazidos pelo vento lá do alto da montanha, amanhã podia ser a alfazema, urze brava, limão ou a cravos e rosas, que apareciam em cada jardim das casas que me levava até ao “nosso” campinho de futebol, onde começou a minha paixão pelo desporto, o futebol, em particular.
Um lugar onde as árvores, os campos, as veigas, veredas, várzeas e os caminhos de pedra calçados comungavam da harmonia do canto matinal das aves que me faziam despertar alegremente para mais uma jornada.

Quando se é crescido tempos existem que ficam para sempre na nossa recordação, sobretudo de criança, quando o tempo não tem… tempo nem medida, quando tudo pode esperar e lembramos episódios que jamais se repetirão, porque crescemos e esse tempo fica num cantinho da nossa memória. No meu caso essas memórias foram para os tempos de criança passados na aldeia onde os campos se vestem de verde cor do Minho, um Minho fascinador, com vales e montes, com sol e sombras sempre com a vegetação colorida e encantadora da aurora ao crepúsculo de cada jornada. Como escrevera Júlio Dinis “Nestes dias assim sente-se palpitar de vida a natureza inteira.

Por toda a parte se realiza uma génese. No solo é o grão que germina; nos troncos as novas folhas que brotam; nos ramos as flores que desabrocham; nas águas, nas florestas, nos vergéis, nos ares, entre a folhagem dos pomares, uma jovem e inquieta geração de aves e de insectos que surge, animando tudo com seus magníficos concertos, com suas valsas incessantes e rápidas, iluminadas por um sol vivificador.

É contagiosa esta alegria da natureza. O coração recebe o influxo dela”.
Longe de mim pensar ver-me privado daquele quadro naturalista, que em boa hora decidi revisitar. Sempre foi um desejo constantemente adiado pelas correrias e atropelos do dia a dia da cidade, mas em nome dos que já partiram, prometi, amiúde, voltar àquele lugar, que foi onde, tudo começou para mim, e onde, consigo uma paz jamais experimentada…

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