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Um fraudador na caixa

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Um fraudador na caixa

Ideias

2023-10-09 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva Álvaro Moreira da Silva

O retalho enfrenta inúmeros desafios que resultam em impactos financeiros negativos consideráveis, nomeadamente a «fraude». Tal como é apresentada em diversos artigos e opiniões de diferentes especialidades, a fraude pode ser classificada como «organizacional», quando funcionários de uma empresa a cometem em benefício da sua organização, ou então «ocupacional», quando a cometem em benefício próprio e contra a sua organização. Na sequência de uma reunião sobre variados tipos de fraudes perpetrados nos terminais de venda e o comportamento, nem sempre ético, de alguns operadores, aproveitei para aprofundar o tema, consultando o relatório datado de 2020, da ACFE (Association of Certified Fraud  Examiners).
Esta associação providencia, de dois em dois anos, um relatório denominado por «Relatório para as nações – Estudo global sobre fraude ocupacional e abuso», debruçando-se desde 1996, sobre o estudo do fenómeno de fraude ocupacional. O relatório de 2020 não é exceção. De forma bastante esclarecedora, aborda não só os diversos tipos de fraude encontrados em inúmeras organizações espalhadas pelo mundo, como também algumas sugestões para a sua mitigação.
O conceito de fraude ocupacional é formalmente definido como o aproveitamento da profissão para enriquecimento pessoal, através do uso indevido ou aplicação indevida e deliberada dos recursos ou ativos da organização empregadora (ACFE, 2020, p.6). Distinguem-se, ainda, três categorias deste tipo de fraude: a apropriação indevida de ativos (a mais praticada em todo o mundo), esquemas nas demonstrações financeiras e corrupção. No topo dos três maiores grupos perpetradores encontramos as equipas das operações (15%), a contabilidade (14%) e as equipas executivas (12%). Curiosamente, o sexo masculino apresenta-se como o género de maior perpretação na organização ao nível executivo e, ao nível não executivo, apresenta-se como equiparável ao sexo feminino.
Relativamente ao retalho, em particular, existem imensos casos de potenciais fraude, nomeadamente nas operações de caixa, onde os cenários são variadíssimos. Recordo-me de um caso antigo, mas ainda bastante atual: o funcionário registava as vendas, normalmente, cobrando o respetivo valor ao cliente. De tempos em tempos, anulava a transação na sua totalidade, ou então anulava apenas um produto e retirava o dinheiro equivalente da caixa. O produto saía fisicamente do stock da loja, mas a respetiva transação/linha da transação ficava anulada no sistema. Como aquele produto era anulado (conceito de void), existiria sempre um balanceamento entre o dinheiro que entrava e os registos apresentados pelo sistema no fecho de caixa/diário. Para que isto tudo funcionasse plenamente, o funcionário precisaria apenas de um fiel cliente, um familiar ou amigo de preferência, que pagasse em dinheiro, e que não se preocupasse muito em pedir o recibo no final. De seguida, sem a presença desse mesmo cliente, anulava sorrateiramente a venda/transação.
Situações idênticas ocorrem ainda com alguma regularidade, em negócios retalhísticos onde existe um grande número de transações de baixo valor e numerosos operadores. Vejam-se, por exemplo, os supermercados, expostos a milhares de produtos, centenas de lojas e funcionários de caixa, registando milhões de transações/produtos diariamente. Nestas circunstâncias, a fraude torna-se relativamente mais complexa de detetar, mitigar e até investigar.
Regressando ao exemplo do fraudador de caixa, de facto detetaram-se volumes significativos de transações e linhas anuladas por ele. Infelizmente para o operador, soaram alguns alarmes na central, sugerindo padrões e indicadores de um presumível comportamento duvidoso, algo que foi devidamente investigado e confirmado à posteriori. Este caso de fraude ocupacional retrata apenas algumas das artimanhas usadas pelo ser humano, quando o dinheiro se sobrepõe ao caráter. Felizmente, o retalho tem procurado modernizar-se e evoluir tecnologicamente para lidar mais eficazmente com este desafio.
*com JMS

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