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Um livro para Abril. De Olivier Reboul “O que é aprender”

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Um livro para Abril. De Olivier Reboul “O que é aprender”

Escreve quem sabe

2019-03-26 às 06h00

Cristina Palhares Cristina Palhares

“Aprender a ser é a própria fórmula de sageza, cujo fim não é tornarmo-nos mais sábios, mas sim felizes e livres”. Assim introduz Reboul o seu livro “O que é aprender”.
A primeira tese, exposta nos primeiros capítulos trata de uma forma clara e esclarecedora, como se de um romance se tratasse, os valores da informação, da aprendizagem e da compreensão. Partilho plenamente com o autor: reduzir o ensino ao saber é apostar na passividade, a aprender sem compreender. Daí que a informação tenha valor se: não constituir um fim em si; se utilizar a informação de maneira crítica (proporcionar aos alunos todos os meios de a questionar, desenvolvendo o espírito de análise, a ideia de confrontar as informações entre si e de procurar provas); se ensinar as pessoas a informarem-se (que cada pessoa seja capaz de recolher, de interpretar e de classificar todas as informações disponíveis sobre qualquer problema que lhe diga respeito.)

A aprendizagem é uma construção pessoal, porque se entende como um processo, como um percurso, e não como um acúmulo de saberes que apenas perspetivam mudanças de comportamento.
Relembramos Aristóteles: “As coisas que temos de aprender para as fazermos, é fazendo-as que as aprendemos”. Uma aprendizagem humana é aquela em que se aprende a aprender e, por isso mesmo, a ser.” Encerra em si tudo aquilo que entendo por “ensinar”: formar a competência geral dos alunos, num ensino que ultrapasse o estádio da informação e não caia na doutrinação, em que o aluno deve aprender a aprender. Ensina-se com a intenção de levar a aprender. “E levar a aprender pode significar: levar a conhecer, a agir, a compreender; nunca pode significar levar a acreditar”. E a partir daqui Reboul faz um paralelismo inquietante entre o “mestre” e o livro. E, ao definir o seu mestre ”… é preciso que o mestre tenha competência para ensinar o que não se encontra nos livros”, Reboul põe em questão todos os professores e educadores, que deixaram de ser mestres a partir do momento que o conteúdo e o método do seu ensino estão impressos em qualquer parte.

“O “livro do mestre” aboliu o mestre. Esta é uma ideia curiosa que nos urge reflectir: quantas vezes o manual é o pilar de todo o nosso trabalho dentro de uma sala de aula? Quantas vezes o manual se sobrepõe ao processo de ensino-aprendizagem, levando o professor a lutar contra o tempo? Quantas vezes o manual, único na sala, “uniformiza” os nossos alunos dando a “todos diferentes”, “tudo igual”?
Enfim… o professor será “mestre rebouliano” pelo menos, por tudo quanto acrescenta ao livro : “senão um saber novo, pelo menos uma forma nova de transmitir o saber; pelos exemplos que inventa, pelas perguntas que faz ou que leva os alunos a formular; pelas respostas que dá aos pedidos mais insólitos.

Este professor-mestre faz lembrar também o pensamento humanista que referencia a diferença entre os professores não no que eles “sabem” sobre a educação, mas no que “fazem”, na maneira como “agem”, quando estão com os seus alunos.
É um grande desafio humanista e que cada vez mais, hoje, deveria ser reclamado para a formação de professores. Não há lugar em educação para se ser mau professor ou professor “assim-assim”. Um professor tem que necessariamente ser um bom professor: os riscos que se correm em educação são grandes.
“O professor dispõe do poder de encorajar ou desencorajar, de estimular ou de bloquear, de suscitar as perguntas ou de as abafar. É ele, primeiro, que pode fazer do ensino coisa diferente da de uma seleção contínua.”
Reboul deixa-nos um legado: a consciência de quão poderosos somos! Saibamos honrá-lo!

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