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Um mundo de muros

Dois pesos e duas medidas

Um mundo de muros

Ideias Políticas

2019-01-15 às 06h00

Pedro Sousa Pedro Sousa

Que Donald Trump mente todos nós sabemos, mesmo os seus mais indefectíveis apoiantes e seguidores. Mas, na verdade, isso pouco importa. Facto é que, alicerça-do na sua turba de apoiantes, Trump alavancou a mensagem que lançou desde o início: “eu sou o líder de um movimento”, “...um movimento como o mundo nunca conheceu”.
A máxima, apesar de exagerada, era muito clara e sabia, muito esclarecidamente, os objectivos que se propunha atingir.

Trump leu e compreendeu muito bem a natureza e a identidade dos movimentos com tiques autoritários, nomeadamente a lealdade inexplicável que geram nos seus seguidores, ao ponto, assustador, de lhes eles próprios negarem, recusarem as evidências mais elementares, os dados mais puros, como é sublime exemplo aquela sessão de tomada de posse falsamente mais numerosa que a de Barack Obama.
Aqui, impõe-se perguntar se há algum truque!? E a resposta é óbvia. Há, claro que há. O que gera esse apoio cego, indefectível e irrenunciável não são as mentiras, mas o recorte de uma determinada visão do mundo com uma coerência que vem do âmago dos valores e princípios que preconizam.

De nada importa que esta visão do mundo se alimente de fantasias, falsidades ou delírios porque, apesar não ter adesão à realidade, tem coerência interna. A verdade é que Trump é capaz de unir os seus seguidores, os seus apoiantes, oferecendo-lhes uma explicação para a sua raiva, para o seu descontentamento, para o seu desencanto, ao mesmo tempo que ele próprio se assume como o salvador desse mundo terrível em que vivemos. Toda esta realidade alternativa é construída com muitas camadas e disso são exemplos os muitos “tweets” que, um por um” afirmam a sua famosa máxima: America First, A América Primeiro.

Mas o que significa, de facto, que a América vem em primeiro lugar? A resposta é como que um jogo de soma zero! Se alguém fora das suas fronteiras ganha, triunfa, a América perde. Esta mensagem atravessa a lógica das relações internacionais e chega até à economia, baseada na ideia de competição, em detrimento da de cooperação. Esta mensagem explica, também, a sua política de migração e a sua doentia fixação pelo famigerado muro.
O muro é a condição para todos aqueles que estão dentro compartilhem uma identidade total que constrói a sua ideia, a sua identidade de comunidade, de país, mas, ao mesmo tempo, o muro irradia uma odiosa mensagem para fora, uma mensagem de exclusão e de violência para todos aqueles que, agachados, esperam na fronteira. Trump não cede, Trump acredita e reforça: se eles vencerem, a América perde.
No entanto, há algo que falha na equação do Presidente Trump.

Não, o engulho, o obstáculo não está no seu Twitter, onde o mundo continua a girar sobre a ideia de A América Primeiro, mas na nova Câmara dos Representantes, que parou o seu projecto de “um muro mais alto”, desafiando-o com argumentos.
Encontramo-nos, assim, diante de um interminável bloqueio do governo, que lhe vê opor-se um autêntico símbolo de resistência; uma contraparte institucional que se recusa a desperdiçar tanto dinheiro em um projeto tão absurdo, quanto inaceitável.

Sucede que o poder que se opõe a Trump e ao Governo é tão legítimo quanto o do presidente, porque resulta, igualmente, de uma expressão da vontade popular, que se conforma como outro elemento nuclear do sistema, no caso, aquele que permite resiliência e resistência.
Esta oposição, esta resistência, é uma resistência política, uma oposição saída, legitimamente, das urnas e esta é, sem sombra de dúvidas, uma das maiores forças das democracias liberais.

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