Correio do Minho

Braga,

- +

Um mundo novo pós-pandemia será possível?

Rolha na boca

Um mundo novo  pós-pandemia será possível?

Ideias

2021-01-02 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Os factos estão aí e são muito preocupantes, a desigualdade entre ricos e pobres no mundo tem vindo a aumentar a um ritmo crescente. Ora, segundo o Relatório Mundial da Desigualdade-2018, apenas 1% da população mundial possuiu 27% da riqueza produzida à escala global nos últimos 35 anos. Sendo assim pode-se colocar com toda a oportunidade a seguinte questão: Como estimular a iniciativa criadora de riqueza e, ao mesmo tempo, fazer com que essa riqueza criada permita reduzir a desigualdade económica e social no mundo? Desde logo, os riscos que a tecnologia e o capitalismo neoliberal implicam para a democracia representativa encontram-se bem delineados na obra “O Fim da Era do Humanismo” do filósofo e teórico político camaronês A. Mbembe (2016). Na verdade, as falsas notícias “fake news”, o controlo de informações pelo setor de tecnologia, a robotização e outros instrumentos tecnológicos estão cada vez mais a afetar todos os mercados e os resultados eleitorais em geral. Porém, para o autor esses riscos podem, por sua vez, ser sempre associados a uma nova oportunidade de “mudança” no mundo, o que seria positivo. Ou seja, são precisamente os novos instrumentos de tecnologia que possibilitam, por um lado, uma gestão pública mais participativa, com mais controlo das contas públicas e da qualidade da despesa realizada pelo Estado e, por outro, uma mais elevada participação pública na definição de metas a serem prosseguidas, na elaboração de leis e na consideração pelos legisladores sobre como os seus eleitores votariam em determinados assuntos.
Quer dizer, o capital financeiro e o setor da tecnologia, ao invés, do sucedido até agora, deveria canalizar os seus esforços para o alcance do objetivo central de uma maior prosperidade mundial, de um mundo mais justo, igualitário e verde. Mas porque o capital financeiro e o setor da tecnologia o fariam? Sim, tendo em conta a consciencialização por eles assumida dos riscos que a concentração da riqueza, o aumento da desigualdade social e a deterioração do meio ambiental resultante de um capitalismo altamente predatório representam para todo o sistema. Em concreto, uma maior preocupação por uma economia mais verde poderia passar, entre outras medidas, pela criação de incentivos fiscais, de apoios diversos e demais formas de obrigatoriedade impostas pelo Estado (mas também de forma voluntária), por interesse na construção de um mundo mais justo e com qualidade de vida das cidades. Parece uma ingenuidade perspetivar tal cenário, quando estamos perante sociedades que se desintegram, contudo, é uma verdade absoluta que a ideia prevalecente no século XX de que a felicidade é sinónimo de dinheiro, acarretou sobretudo o aparecimento de sociedades de doentes e infelizes. Ora, a atitude da maioria dos jovens nos dias de hoje tem mostrado que a transição da sociedade de consumo para a sociedade de bem-estar implica a criação de outros tipos de relações de trabalho e modos de viver em sociedade, sem a necessidade de acumulação de riqueza, mas sim, com a existência de mais prosperidade económica, social e ambiental. São, sem dúvida, sinais de esperança quanto ao futuro da sociedade a nível planetário.
Nesse processo terão um papel fundamental os jovens. Mas porquê os jovens? Dada a desregulamentação do mercado de trabalho “imposto” pelo neoliberalismo e o consequente aumento da desigualdade e precariedade laboral na população jovem, tanto no caso de jovens qualificados como dos menos escolarizados (OIT, 2018). Por sua vez, constata-se uma cada vez maior tendência para os jovens auferirem baixos salários e para o crescimento da proporção de jovens que não estão desempregados nem estão a estudar ou em formação. Ora, a incerteza crescente que afeta parte considerável das gerações mais novas tem implicações no decorrer das suas vidas sociais e pessoais, retirando-lhes capacidade de projetar o futuro. Assim, em Portugal, segundo o INE em 2020 a taxa de desemprego juvenil (dos 15 aos 24 anos) atingiu o expressivo valor de 25,6% (contra 17% na média da zona Euro e 16,8% na média da União Europeia), agravado pela atual crise sanitária, económica e social em curso à escala global. Aliás, o valor do desemprego “real” seria bem maior caso se considere a taxa de subutilização do trabalho que engloba a população desempregada “oficial”, o subemprego (trabalhadores desempregados involuntários a tempo parcial), os inativos à procura de emprego mas não disponíveis para trabalhar e os inativos disponíveis para trabalhar mas que não procuraram emprego (“desencorajados”) Em suma, um cenário nada favorável à população jovem mundial, mas que não deixa de poder ser um indutor de tomada de consciência dos elevados desequilíbrios sociais e de vontade de “mudar o mundo”.
Concluímos, deixando algumas sugestões de políticas públicas visando reduzir a desigualdade económica e social no mundo: (1) Existência de um sistema fiscal (mais) progressivo; (2) Existência de um registo financeiro global de ativos tornando-o num instrumento de redução da fraude e evasão fiscal, como sucede nas operações financeiras em paraísos fiscais “offshores” que representam já cerca de 10% do PIB mundial; (3) Maior investimento público em áreas estruturantes como sejam a educação, a saúde e a proteção ambiental.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho