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Um Ninho na Ucrânia

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Um Ninho na Ucrânia

Voz aos Escritores

2022-04-08 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Todos os meses o desalento, a tristeza de não conceber, os sangues delatores a comprovarem a minha incapacidade reprodutora. Por que não posso ser Mãe? Há vinte anos este martírio, eu e o meu marido na luta inglória da paternidade. Pior quando abortei a primeira vez, a esperança esvaída num rio vermelho, a morte de um sonho que não chegou a nascer. Muito pior quando abortei a segunda vez, a prova definitiva da inferioridade das minhas entranhas. Sim, sentia-me diminuída, uma árvore seca que não dá flores nem frutos. Sei que ser Mulher não é ser Mãe. Sei que ser Mulher é muito mais do que ser Mãe. Mas eu queria a maternidade. Eu queria-a desde menina, brincava com os bonecos, vestia-os e despia-os, mudava-lhes as fraldas, dava-lhes os biberons mágicos cujo leite aparecia e desaparecia ao virá-los, encostava-os ao meu peito liso e fingia que os amamentava, metia almofadas entre a barriga esticada e as camisolas e fantasiava que trazia um bebé no ventre. Sempre que me perguntavam o que queria ser quando fosse grande, respondia, Quero ser Mãe.
Quero ser Mãe, quero ser Mãe, quero ser Mãe, são as palavras que me acompanham desde que guardo memória de mim. O pior dia da minha vida? Os médicos a atestarem a minha lacuna, Nunca gerará um ser, minha senhora, esgotamos as possibilidades médico-científicas, minha senhora, conforme-se com a realidade e a sua idade, os quarenta anos, acenam-lhe o finar do ciclo reprodutor, minha senhora.
Não. Não me conformei. Dinheiro. Precisamos de dinheiro, pedimos emprestado, o Estado Português não nos faculta outra fecundação in vitro, o Estado Português esbanja milhões por ano em abortos nos hospitais públicos, dinheiro dos portugueses, e limita, vergonhosamente, os apoios aos casais em idade fértil com dificuldades de procriar, com dificuldades financeiras, uma ironia num país que envelhece de ano para ano, um país cuja taxa de nascimentos é baixíssima, um país que não salvaguarda o seu futuro, um país que será de velhos e de diminuta população activa, quem cuidará dos idosos, quem os sustentará?
Não. Não me conformei. Dinheiro. Precisamos do dinheiro que familiares e amigos nos emprestaram, recorrermos a uma clínica de fertilização na Ucrânia, procuramos uma barriga de aluguer, um ninho ucraniano que acolheria o nosso filho, Portugal ainda não permite o recurso à gestação de substituição, na Ucrânia há trinta clínicas que ajudam casais a terem filhos, um país que nos dá esse direito, a naturalidade da propagação, poucos países o fazem, a Ucrânia tem preços mais vantajosos e fica na Europa. Eu e o meu marido somos um dos milhares de casais de todo o Mundo que vão à Ucrânia na busca do seu sonho, que iam à Ucrânia…
O nosso filho é um menino. O dia mais feliz da minha vida? Quando recebemos a notícia da gravidez da Mulher que nos quis ajudar, Mulher bem-aventurada, o meu filho crescia no seu ninho ucraniano, conversávamos com ela por Skype, notávamos-lhe o avolumar do ventre, o nosso filho a arredondar, o nosso mundo naquele mundo amniótico, o coração do meu filho a latejar, a irmanar o ritmo do meu, o meu marido e eu chorávamos nas ecografias 3d, tão reais, tão próximas, Tem o teu nariz, dizia eu, É parecido com o teu Pai, dizia ele, E tem a tua boca, acrescentava, Terá os olhos azuis como os teus, perguntava-lhe, questões secundárias face à saúde do nosso bebé, questões dos Pais que desejam os filhos, os seus filhos nos sagrados ninhos ucranianos. O quarto azul vazio do nosso bebé, azul é a metade da bandeira da Ucrânia, país de ninhos que tão bem nos acolheu nas duas vezes que lá fomos, azul é a minha espiritualidade, a cor que via no Mundo.
O Mundo que num ápice perdeu a cor azul, a invasão, a guerra, a maldade, as bestialidades pintaram a Ucrânia de vermelho-sangue, o cinzento dos escombros, o negro dos bombardeamentos, o pardo das terras esventradas, terras ébrias de lágrimas, suor e sangue.
O nosso filho nasceu há vinte dias. A alegria da sua chegada foi ofuscada pelos uivos da guerra que nos impediu de assistir à sua entrada no Mundo, que nos impede de ir buscá-lo, que nos impede de comunicar com o berçário improvisado, um bunker onde se acoitam vinte bebés de ninhos ucranianos, cuidados vinte e quatro horas por amas e enfermeiras que se recusam a abandoná-los, abençoadas sejam para todo o sempre, os choros neonatais sincronizados no explodir dos armamentos, o embalar dos berços sincopado na tremura das paredes, as tenras vidas que se acavaleiram à Morte. Guerra e Morte e Vida. Há mais de cem ninhos ucranianos a desabrochar passarinhos. Libertarão o grito inaugural da vida? Serão silenciados pela Morte?
E eu e nós, teremos algum dia o nosso filho nos braços, vivo e com saúde? Vinte anos a desejá-lo, vinte dias a amargurá-lo. Quem começa uma guerra por certo não será Pai, nem Mãe. Se o é, não é um bom Pai, nem uma boa Mãe.
Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus. Rezo pela Paz. Rezo pelo Mundo. Slava Ukrayina.

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