Correio do Minho

Braga, terça-feira

Um passeio ao Castelo de Lanhoso

O conceito de Natal

Conta o Leitor

2011-08-23 às 06h00

Escritor

Por Maria Augusta A. Costa
 
A noite desceu sobre a aldeia e ao longe, a nascente, as luzes da vila brilhavam na escuridão.
Sentados no terraço, não nos cansávamos de olhar para o firmamento e entusiasmados íamos descobrindo por entre milhares de estrelas, a ursa maior, a ursa menor, a tão conhecida via láctea ou estrada de Santiago.
Eu encontrava-me sentada junto de familiares e dou por mim a olhar, por entre as árvores, as luzes que assinalavam o Castelo de Lanhoso. No entusiasmo da conversa apercebi-me que estou a falar em tom mais alto: -Vamos amanhã subir ao Castelo e fazer um piquenique?
-Mas que fixe, responderam os mais pequenos todos entusiasmados, e sendo por todos aceite a sugestão. Imediatamente se fizeram vários itinerários, com uma certeza, o passeio seria a pé. O dia seguinte surgiu com nevoeiro que nem as uvas da ramada conseguíamos avistar. Ainda a pequenada estava no sossego dos lençóis e já o sol tentava rasgar o denso cortinado que se assemelhava a algodão em rama.
Estávamos em Agosto e o sol de verão não se fez esperar. Deu-se assim início ao passeio e o lanche não podia ser esquecido. De vez em quando conseguíamos perceber uma ou outra palavra mais gritada. Os caminhos por onde habitualmente passavam os carros puxados pelos bois, eram naquele momento pisados por dezenas de ténis e sapatilhas, e ao mesmo tempo os respectivos donos se divertiam a comer amoras que entretanto iam apanhando. Os gritos de dor provocados pelos espinhos eram motivo para grandes gargalhadas dos restantes companheiros de viagem.
A alegria era enorme no grupo que, nem o pó acumulado nas silvas e nos respectivos frutos os faziam parar.
Os lugares da igreja, fonte de rei, aldeia, toural e o da poça, todos iam ficando parar trás. A juventude na frente, de tão animada que ia, não nos dava tempo para um pouco de descanso. Em fim, chegamos à capela do Horto, e veio a pergunta sacramental: -Por onde preferem subir? A resposta foi rápida e unânime -pela estrada romana.
-Olhem que vamos ter de subir muito.
Ladeados pelas mimosas que contornavam o caminho, íamos subindo a calçada. Chegados junto a uma pedra que, segundo dizia o povo, ao encostar a cabeça, se ouvia o ruído das ondas do mar, os mais afoitos quiseram ser os primeiros a experimentar. Quando o primeiro, alegremente encostou a cabeça à pedra, uma cabeçada finalizou a brincadeira, para desencanto de quem caiu na esparrela.
Subimos mais devagar pois os adultos já não possuíam a agilidade dos mais novos. Os mais destemidos tentavam subir o penedo pelas antigas escadas cavadas na pedra o que os divertia imenso. Eu própria subi muitas vezes por lá. Com muito cuidado sempre se conseguiu chegar ao cimo e entrar pela antiga porta das muralhas. Seria esta, antigamente, a única entrada do castelo, no tempo dos primeiros reis?
Ainda sem gradeamento à volta da capelinha, lá estavam as imagens da Samaritana dando de beber a Jesus, muito maltratados pelo tempo. Pois foi mesmo aqui que uma voz de homem se ouviu cantar a Samaritana e, apesar de tudo, todos nós gostamos de ouvir esta canção. Isto provocou em nós um emudecimento perante o cenário que se vislumbra do alto daquele monólito, considerado o maior da Península Ibérica e cujo cume mede 260m de comprimento por 100m de largura. Até a voz dos mais jovens se desvaneceu no ar mediante tamanha beleza. O encantamento foi geral, mas a juventude não deixou gozar totalmente o momento de silêncio gritando: -temos fome. Os segundos dos últimos acordes desvaneceram-se no ar e lentamente fomos despertando daquele torpor.
Mas os mais velhos acharam que primeiro seriam visitados a igreja e o castelo e só depois é que viria o lanche. Todos obedeceram, alguns com custo e a resmungar, mas não lhes valeu de nada. De repente lembro-me de uma das façanhas que fazia em garota,  dava a volta ao castelo, que nem o penedo escorregadio me assustava. O tempo foi passando e talvez já não exista a árvore onde me agarrava.
Rodeada pela juventude contei-lhes a tragédia que ali se deu e da qual nunca ouviram falar. Então vou contar-vos. -Vivia neste castelo, no século XIII, um alcaide chamado D. Rodrigo que tinha casado com uma linda mulher de nome Inês Sanches. O alcaide gastava a maior parte do tempo a caçar, mas Inês não se conformava ficar sozinha e chamou o seu confessor, um frade do mosteiro de Bouro. Quando o marido soube deu-se a tragédia. Ele cheio de ciúmes e considerando que a sua honra havia sido manchada, mandou fechar as portas do castelo e chegar fogo a tudo que estivesse lá dentro. E isto só pelo facto de ninguém o ter informado de que a sua bonita Inês estava acompanhada.
Seu bisneto D. Gonçalo Pereira foi arcebispo de Braga e foi tetravô de D. Nuno Álvares Pereira.
No século XVII André da Silva Machado, emigrado no Brasil, natural do lugar de Valdemil, que fica localizado perto do castelo, prometeu quando vinha no alto mar, que se chegasse com vida à sua terra mandaria construir uma igreja no alto do penedo, o que veio a acontecer, utilizando as pedras das muralhas e passando a chamar-se Igreja de Nossa Senhora do Pilar, acompanhada de 5 capelas, pela estrada romana, até ao lugar do Horto.
Descobrimos então um sítio sossegado e sentados num muro virado para a vila, o nosso suculento merendeiro desapareceu num ápice, ou não fosse aquela grande caminhada suficiente para nos abrir o apetite.
A vila da Póvoa de Lanhoso, situada lá no fundo, faz-nos recordar a terra da heroína Maria da Fonte e da sua revolta em 1846, que ficou gravada na nossa história.
Lá em cima a torre do castelo iniciada no último século AC, foi concluída no ano 75 da nossa era. Sendo anterior à nacionalidade, foi um grande baluarte de defesa dos romanos e considerado um dos melhores e maiores centros militares do país até ao século XIII. Será que o polémico tratado de Lanhoso em 1121 entre as duas irmãs Teresa e Urraca, nos salvou de sermos anexados à coroa de Castela?
São Mamede, o Sameiro e a Penha avistam-se ao longe. As aldeias à volta do castelo são atravessadas pelos rios Cávado a norte e Ave a sul, nascidos tão próximos de nós, aqui mesmo ao lado nas serras do Larouco e Cabreira. Até podemos dizer com satisfação que o Cávado e o Ave, são rios portugueses de “gema”.
Pensativa, a juventude depois de ter ouvido a narração destas histórias, deu início à descida visitando todos os calvários por onde passamos. O caminho de regresso foi feito com bastante dificuldade e os mais novatos já se encostavam aos adultos com a esperança de uma ajuda. Estávamos ansiosos por chegar a casa e já caminhavam tão devagar que, alguns do grupo, comentavam não aguentar mais pois o passeio foi longo.
A chegada a casa foi festejada com alegria, sentindo-nos felizes pelo enorme elo familiar que nos aproximava, admirando a alegria e felicidade naqueles corações tão jovens.

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