Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Um pouco de fé

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2013-05-19 às 06h00

Carlos Pires

1. “Um pouco de fé. Um pouco de fé. Um pouco de fé” - é o repto que nos atinge, com a força da voz de Tim, após lembrar-nos que: “é uma escolha que se faz / O passado foi lá atrás / E nasce de novo o dia / Nesta nave de Noé / Um pouco de fé”.
Vem a referência a esta música (“Contentores”) dos Xutos e Pontapés a propósito do grande e crescente défice que o meu país vive. E não me refiro ao tão apregoado défice das contas públicas. Falo sim do défice da esperança e da confiança.
O atual Governo tem sido criticado por duas ordens de razão: pelo alinhamento (cego!) com as políticas de austeridade (reveladoras de insucesso!) impostas pela Troika e por comunicar deficientemente as suas decisões. Assim, por um lado, já toda a gente minimamente responsável e honesta percebeu que a sustentabilidade do Estado depende do crescimento económico e do emprego. Escusam pois de continuar a cortar porquanto não há forma de equilibrar contas públicas com 20% de desempregados e com recessão. Por outro lado, o Governo revela precipitação e amadorismo, não sendo poucas as vezes que revela divergências internas (Passos Coelho versus Paulo Portas), optando pelo confronto em praça pública (veja-se a recente divergência a propósito do anúncio da taxa sobre pensões).
Todos anunciam uma coisa e o seu contrário. A comunicação, caótica, confunde a opinião pública - que nunca sabe se o que lhe é anunciado é verdadeiro ou não - e lança o pânico e a incerteza sobre os portugueses, o que, convenhamos, não prossegue o interesse nacional. Desde logo pelo efeito psicológico que acarreta, materializado numa retração do consumo.
Portugal é hoje um país tolhido pelo medo - o medo de perder o emprego, o medo de ficar sem rendimentos, o medo de ficar sem a reforma. E enterrados no medo, sem iniciarmos um caminho de esperança, acreditem, não chegaremos a lado algum.

2. D. Manuel Clemente, figura muito respeitada pelos meios intelectuais, culturais e políticos - vencedor, em Dezembro de 2009, do Prémio Pessoa, um dos mais respeitados galardões em Portugal - acaba de ser nomeado Patriarca de Lisboa pelo Papa Francisco.
Não posso pois deixar de manifestar junto dos meus estimados leitores a imensa alegria que tal boa nova me trouxe. E passo a explicar o porquê: tive o privilégio de conhecer pessoalmente D. Manuel Clemente quando este era bispo auxiliar de Lisboa, pouco tempo antes da sua nomeação como (atual) bispo do Porto. Foi no início do ano 2007, no contexto de uma viagem à Terra Santa, organizada pela ACEJE - Associação Cristã de Empresários e Gestores, na qual participei, tendo ainda, como companheiros de viagem, a par da minha mãe (testemunhando como muita felicidade a concretização de um sonho que esta acalentava há muito tempo), alguns empresários, bem como alguns protagonistas da cena política nacional.
Confesso-me perante vós, estimados leitores, como um católico da consciência individual, avesso a qualquer prática do cristianismo como instituição burguesa, como norma social. Sou fiel discípulo dos tratados de ética concreta do grande filósofo Kierkegaard, com os quais me identifico. Posto isto, arrisco ainda a confessar que, a par de um natural interesse por conhecer os palcos da vida de Jesus Cristo, de igual forma eu olhara para essa viagem como uma oportunidade de conhecer, no território, a realidade social e política de Israel e a relação (tensa) com os territórios vizinhos, incluindo a Palestina, atuais palcos de infeliz e interminável guerrilha e sofrimento. Um irresistível “pack” de interesses que eu julgara me iria consumir as principais atenções.
Ainda no aeroporto de Lisboa, prestes a embarcar, fui apresentado a D. Manuel Clemente, ficando a saber que este iria fazer parte do grupo de viagem e que, em alguns locais que visitaríamos, iria mesmo partilhar connosco as suas reflexões. Pareceu-me, na altura, uma pessoa afável, simpática e muito simples. Não mais do que isso, o que já parecia muito. Até esse muito tornar-se em algo sublime e superior, o que viria a confirmar-se sempre que aquele homem, em lugares como o Monte das Bem Aventuranças, Cafarnaum, ou no Getsêmani, tomava a palavra e tocava o coração de todos, de uma forma por mim nunca outrora testemunhada e sentida. Parecia que adivinhava as mais profundas dúvidas e inquietações de cada um dos que atentamente o escutavam…
O discurso lúcido de D. Manuel Clemente, revelador de profundo e genuíno sentido social e humanista, constituíra para mim afinal a grande surpresa, ganho e “retorno” da viagem realizada, que para sempre marcará as minhas melhores memórias. Sem ele nada seria o mesmo. Arrisco afirmar e confidenciar-vos que D. Manuel Clemente foi a pessoa que na minha vida conheci cuja forma de ser e de comunicar, revestida de especial auréola, mais próxima está daquilo que posso conotar como exemplo vivo de santidade, enquanto homem de plenitude ética. Atributos tão necessários no momento de grande exigência que o país atravessa e que não deixarão de influir e inspirar todos os decisores políticos. É essa a minha esperança. É essa a minha fé.

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