Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Um Rio de trapalhadas

Sinais de pontuação

Ideias

2013-06-25 às 06h00

Jorge Cruz

Estamos a menos de cem dias das autárquicas, umas eleições que em Braga vão marcar o início de um novo ciclo, menos virado para a construção e mais direccionado para investimentos imateriais.

Creio que será consensual considerar que a fase das grandes infraestruturas estará ultrapassada. A relevância das empreitadas executadas para corrigir quer as gritantes assimetrias que se verificavam no concelho quer o grande atraso deste é indiscutível. Mas, como disse, essa é uma etapa superada pelas sucessivas equipas de Mesquita Machado.

O tempo que se segue às eleições de 29 de Setembro será, necessariamente, de novos paradigmas, de desafios diversos, enfim, uma fase para dar resposta a um vasto conjunto de problemas que preocupam as sociedades modernas e que afinal mais não são do que questões basilares de uma vivência harmoniosa, com qualidade e, tanto quanto possível, feliz.

Acontece que na pré-campanha em curso têm sobrado críticas ao passado e faltado propostas concretas para o futuro. Pouco se conhece, em concreto, de propostas para a gestão do concelho nos próximos quatro anos. E, no entanto, todos sabemos que há um imenso rol de tarefas a desenvolver. Creio, portanto, que é chegada a altura de não perder mais tempo, de abandonar a política das frases de belo efeito mediático mas sem significado, e de avançar com discussões mais profícuas, com estratégias de desenvolvimento e propostas de combate à crise que o governo da coligação PSD/CDS agravou drasticamente. É tempo de conhecermos os argumentos de cada um para as diversas áreas de intervenção municipal.

Esclarecer os eleitores deveria ser, nesta fase, a preocupação dominante dos candidatos mas, infelizmente, nem sempre é assim.

Veja-se o (mau) exemplo de Ricardo Rio, que dá mostras de grande incoerência política ao garantir agora que sob a sua gestão nada será privatizado. Este discurso colide frontalmente com palavras e actos anteriores e, nessa medida, confunde os eleitores. Se não, vejamos alguns exemplos demonstrativos das suas incongruências: foi (também) com os votos da coligação liderada pelo PSD que foi alienado 49 por cento do capital da Agere.

E também foi Ricardo Rio e os vereadores da coligação PSD/CDS que votaram favoravelmente a venda da Escola Profissional de Braga a um grupo privado. Por outro lado, são bem conhecidas as suas posições públicas quer sobre o Parque de Exposições (privatização da gestão) quer sobre os TUB (entrada de capital privado). Curiosamente, em relação a esta última empresa municipal, Rio defendeu muito recentemente duas soluções contraditórias entre si, com a agravante de uma delas desmentir o seu discurso mais recente sobre o mesmo assunto.

Com efeito, no debate promovido pelo Instituto de Formação do Comércio e Serviços, Rio disse que os investimentos de que os TUB carecem podem ser assegurados pelos próprios utentes dos transportes ou, em alternativa, por privados. Ou seja, em bom português, o que Ricardo Rio propôs foi o aumento de tarifas nos transportes urbanos de Braga, presume-se que um acréscimo substancial tendo em conta as necessidades de financiamento da empresa. A alternativa avançada, injecção de capital privado, tem um nome e não há que ter medo das palavras.

Dêem-se as voltas que se derem, use-se de toda a habilidade para escolher a terminologia a utilizar, a verdade é que estamos a falar de privatização. Uma opção que no PSD e em Rio até nem é novidade por-quanto defende, pelo menos desde 2005, a possibilidade de alienar “capital da Agere e/ou de outras empresas municipais”, conforme se pode ler na edição n.º 1394 do Povo Livre.

Outro acontecimento bizarro registou-se na última reunião do executivo camarário. Primeiro, o episódio de Ricardo Rio não ter subscrito a proposta de redução do IMI para o próximo ano apresentada pela coligação de direita que ele próprio lidera. Depois, a sua ausência da reunião do executivo, bem como do vereador social-democrata Serafim Rebelo, reunião para a qual estava agendada a discussão de matéria tão importante e que apregoa insistentemente que lhe é tão cara. Ignoro se a estranha atitude de Ricardo Rio, ao não apor a sua assinatura no documento, tem que ver com o facto de ele próprio já ter afirmado que este executivo municipal não deveria tomar decisões que venham a comprometer os futuros eleitos.

Se foi esse o caso, laborou num equívoco, pois a decisão da passada semana só será ratificada pela nova Assembleia Municipal, portanto no próximo mandato autárquico, embora com aplicabilidade em 2014.

Já a questão da misteriosa falta de comparência de dois dos nomes mais conhecidos da coligação, parece-me, sinceramente, de mais difícil interpretação. E a dificuldade advém, também, da surpresa, que é tanto maior quanto é certo que as circunstâncias ou a vontade política, nunca o saberemos, ditaram que a representação do PSD ficasse entregue a Filomena Bordalo e aos “suplentes”. É que não nos podemos esquecer que Américo Afonso e Hugo Soares suspenderam os seus mandatos, pelo que as ausências dos dois dirigentes tiveram que ser colmatadas pelos elementos que se seguem na lista. Claro que existem interpretações diversas para o sucedido. Enquanto uns dizem tratar-se de demarcação política face às matérias em discussão, outros alvitram que se estará perante uma rebelião de alguns dos eleitos, alegadamente descontentes por se verem afastados da próxima lista.

Qualquer que seja a verdadeira razão, a atitude tem tanto de extraordinária como de desrespeitosa para os eleitores. Mas obviamente, cada um sabe de si.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.