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Braga, terça-feira

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Um Ronaldo dourado

O que importa é apoiar a juventude

Escreve quem sabe

2022-11-21 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva Álvaro Moreira da Silva

Sempre ouvi dizer que aos olhos de uma criança o mundo e a imaginação se projetam de mãos dadas. Já o dizia Jostein Gaarder, quando explanava a Sofia toda a moral por detrás da imaginária história do pai que voava à mesa. É verdade, a minha Margarida também é assim. Por um lado, é incrivelmente mágica e imprevisível nas suas fantasiosas ideias. Por outro, não menos fascinante, é a diária capacidade de persuasão que ela possui na interação com os seus pais.
Na estrada paralela à igreja de São Martinho de Dume, o trânsito atropela-se ao som da chuva. São tantas as buzinadelas quanto a descrença dos que lá vivem ou atravessam diariamente. No adro, diante da torre sineira, o mundo da Margarida parece desconectado de quaisquer ruídos. Saltita radiante por entre as poças de água. Essa sin- geleza basta-lhe para ser feliz.

Tenho por hábito perguntar à minha filha o que fez durante o dia, o que aprendeu nas aulas do colégio, na escola de música ou, porventura, na escola de dança. Talvez o faça, porque me possibilita abraçar a diária evolução da sua personalidade, ou melhor entender as suas dificuldades e até aptidões. Hoje mencionou estar entusiasmada com a troca de cromos de futebol realizada durante o dia. Por incrível que pareça, presumo que anda meia cidade fidelizada com as atuais coleções de cromos relacionados com o mundial de futebol no Catar. Pediu-me, delicadamente, para ir às compras, talvez na esperança de amealhar algumas saquetas extra ou, tal como os amigos, conquistar uma caderneta para colar os conservados autocolantes. Inconscientemente, respondi-lhe que sim.

Dada a coleção ser resultado de uma inteligente estratégia de um particular retalhista, não existiam quaisquer hipóteses de optar por outra organização. Aproveitei então, com a mãe, para visitar uma loja bem perto da nossa residência. O resultado das compras materializou-se, de facto, em mais algumas saquetas de cromos e na ansiada caderneta. Não obstante a carteira dos pais ter ficado mais leve, o encantamento da criança sorridente superou qualquer réstia de arrependimento. No regresso a casa, entusiasmada, a Margarida apressou-se a abrir as saquetas. No meio de tantos repetidos, eclodiu o almejado cromo do Ronaldo! Extasiada, gritou: “Mãe, pai, saiu-me o Ronaldo dourado!”.

No retalho, as equipas de Marketing têm o desafiante papel de manter os clientes interessados ??e motivados a visitar e comprar numa determinada loja, quando os mesmos produtos se podem adquirir numa loja concorrente. A ideia de “oferecer” certos brindes não é recente tática, especialmente quando se pretende que esse efeito resulte em posteriores visitas. Como o Marketing e a Psicologia caminham lado a lado, as crianças e a sua singela inocência são apetecíveis alvos para catapultar as visitas às lojas. Isto resulta na plenitude, porque atualmente as crianças já não têm um papel tão passivo no processo de decisão familiar como antigamente. No quotidiano, as nossas “margaridas” e os nossos “celestinos” já têm voto em qualquer matéria. Já decidem onde será o jantar, onde será o passeio e até, incrivelmente, quando deverá ser reposto o stock do frigorífico. Este poder persuasivo que as crianças e os jovens, em geral, exercem sobre os pais roça o limiar de importunação. Se outrora todas as táticas de venda dos retalhistas se focavam nos adultos, atualmente tenho notado que os mais pequenos são apetecíveis alvos para este tipo de organizações. Dada a tremenda competitividade, procura-se, com maior ou menor originalidade, captar e reter consu- midores através de vínculos psicológicos exercidos sobre as nossas crianças.

Amanhã almeja-se um dia idêntico. Exultante, mas menos chuvoso. Para além das buzinadelas na rua paralela ao colégio João Paulo II, deverá continuar o fenómeno da troca de autocolantes repetidos. Que continue também a esperança de que o nosso Ronaldo dourado brilhe como o ouro no mundial do Catar, tal como a alegria das nossas crianças. Assim é o ciclo da vida, tal como Nietzsche e Kundera nos tentaram descrever.

*com JMS

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