Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Um último sorriso cruel...

A saúde dos que cuidam da nossa saúde

Conta o Leitor

2019-08-01 às 06h00

Escritor Escritor

Carlos Alberto Rodrigues

O adianto da noite. Arrebata a clara ideia do sorver das sensações ocultas. Suspenso…o corpo metafísico deambulando inútil no corredor sensorial.
Preso às primeiras insinuações da mente (por vezes perigosa) regurgita o âmago das ideias encarceradas há milénios… de imagens perdidas e desfocadas.
Este rodopio atroz de quimeras e incessantes buscas do graal da existência, ofuscam o discernimento macilento, rude e grotesco que nos é livre ou imposto.
Escavado nas doutrinas inócuas da vivência humana sinto a minha alma a querer libertar-se.
Precisamente quando a primavera estava em pleno e eu amava demais este jogo da vida o mais importante, agora, precisamente agora, não queria perder: Para além desse jogo da vida em jogo estava o amor, a paixão, a família, e a paz, porém tarde, creio eu!

Tinha sucumbido, caindo quase falecido nos braços do meu porto de abrigo. O meu leito, uns quantos livros, velhos discos de vinil de outros tempos que trazem travo a saudade e uns cadernos de apontamentos que jaziam sobre a escrivaninha eram a minha única companhia no meu quarto.
Devia ser proibido morrer quando estamos na Primavera...
Quando a vida devia ser um sonho e torna-se o maior pesadelo por via desse modo de viver intensamente, mesmo com regras, desregrado com a saúde essa Senhora que nos pede sempre a cada dia a devida atenção. Ignorá-la é meio passo para o abismo.

Virei pensamento para as coisas boas de minha vida. Num ápice vi a minha bola vermelha de plástico que estourava ao fim de meia dúzia de pontapés. Os meus amores e amigos. Minhas BD religiosamente guardadas até ao momento em que um empréstimo deitava tudo a perder acontecendo o mesmo a livros e muitos discos de vinil que também rapidamente desapareciam por querer agradar ao amigo. Perdoei-lhes esse esquecimento.
Mas lembrei ainda e também as minhas crónicas escritas com amor pela música, pelas letras, pela minha infância e pelos encantos do Gerês, dos amores e desamores. Os livros arrumados nas estantes, os carros, aviões e as motos “vespa” em miniatura. Traziam-me ao mesmo tempo um suavizar do coração e a tentação daquela lágrima. Que queria descer por minha face ossuda e desfigurada pela enfermidade. Horas boas que são quase nenhumas. A minha sorte e fortuna eram palavras ou frases recordadas do passado, como que roubadas para que não voltasse a esse espírito.

Então revisitei os meus companheiros de cabeceira: Júlio Dinis, Altino Tojal (fez dia 15 de julho um ano que nos deixou) Mário Sá Carneiro, Camilo ou Eça.
Aspirar a um último desejo, que não crítico e todos esses pensamentos se desvaneceram, ao voltar à minha condição naquele momento.
Recordo uma espécie de epitáfio de minha autoria que dá algum sentido ao meu sofrimento mas que quero evitar: chamei todos que queria para ultima companhia sem esquecer que a todos tinha amado de igual modo, que foram a minha razão de viver para que não fiquem muito tempo tristes pois quero que pensem sempre no futuro de cada e que eu estarei sempre vigilante a cuidar de cada como sempre cuidei: com amor e muito carinho:
“As lágrimas mais cruéis derramadas sobre o caixão são pelas palavras que nunca foram ditas e pelos atos que se deviam ter praticado e não o fizemos, apenas porque pensamos que a partida, a última não vai ser hoje e ainda há tempo. Esse senhor que já não há para dar. Mas ele esgota-se e foge-nos como areia por entre os dedos”

Acompanhado do marasmo e da dor que se intensificara, sentia-me uma caveira envolta numa mortalha, pronto para a despedida. De certo modo seria um alívio.
Levar-me para um sítio que sempre julguei melhor do que qualquer bela paisagem que tive o prazer de conhecer. Prazer: Outra palavra sem sentido. Sem lugar no auge do sofrimento, despido. E porque sempre achei o mundo um lugar estranho para se viver, achava que o nirvana seria a minha salvação. Sabia sem ter de recorrer a videntes, que lá seria feliz. Voltaria a encontrar aqueles cuja presença só existe nas lápides de cada túmulo, acompanhado de fotografias e alguns epitáfios célebres que não o meu apesar do reclamar pesaroso para aquele conjunto de frases sentidas desde o âmago até ao arrepio mais arreliante que me atacava de vez enquanto.
Já perdera a noção dos dias dos segundos e dos minutos.

A dor mantinha-me num turbilhão do qual era agora impossível sair.
Render-me. Era o que me restava.
E Hoje era um bom dia para uma partida em grande.
Todos sabiam ser essa a minha intenção, a dor já tomara conta de todo o meu corpo e pior, da minha alma...
Desmoronava o sonho acalentado pelos anos de viver.
Tentei fazer-me forte impávido e sereno, mesmo sem querer.

Fim. Já agora, meus amigos, cantai, cantai e que as vossas vozes subam às alturas como oração plena de amor pela alma do que hoje aqui repousa. Aqui, onde a partir de agora sabeis que mora uma alma que foi justa. Agora quero ficar para todo o sempre envolto na celestial luz da vossa música sagrada, com ares de «requiem» agora que da mortalha me libertei.
Agora lá estarei para rever alguns, receber outros que devem ter medo de não voltar a sentir.
Aqueles que foram apanhados de surpresa, perdidos na imensidão do novo.

Quero tons violáceos, ambiente perfumado, a vossa música e presenças que tornem a morte um acontecimento banal a até aceitável, como ir ao cinema ou a uma peça de ópera.
Que sejam fortes e ao leito de vossa morte chama quem deve ouvir palavras que nunca ousaste dizer: Abraça-o, beija-o pede-lhe perdão diz-lhe que sempre foi amado, apesar de nunca ter ouvido dizer tais palavras mágicas.
Mas que seja magia este gesto de nobreza de coragem a que se pode resumir o meu epitáfio.
Tempo para dizer a alguém "que te amei, amo e amarei sempre”.
Mas ele, o tempo, esse senhor sem idade, esgota-se e foge-nos num piscar de olhos.

Por isso dá hoje aquele abraço desejado, ou o beijo arrebatado ou a conversa que nunca existiu.
Sentirás uma leveza tal que corpo e alma se separarão sem rancor.
Mesmo sabendo que só os tenho a eles, aos meus pensamentos, prefiro-os a estes dias tão quentes e distantes daqueles que me fizeram um dia sonhar....
De repente uma vontade incontrolável de voltar a ser criança novamente. Começar tudo de novo.

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