Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Uma campânula no coração

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Conta o Leitor

2014-07-04 às 06h00

Escritor

Marta Peixoto


Pesam mundos dentro do meu mundo. Pesam toneladas de ar nos meus pulmões. O que conta uma vida quando nada tem para ser contada? O que conta ser alguém quando somos iguais a tantos nenhuns. A soma das partes todas dá zero, não é um erro matemático, não é uma filosofia barata, é a realidade a apontar o dedo.

Quantas vezes pensas na morte, digamos, num dia? Sabes que és mortal. Sabes que, ela está sempre à espreita, e mesmo assim não pensas.
O que sobra de um corpo que já não tem alma e a quem a carne foi morrendo nos ossos? Sobram as lembranças. Sobra a certeza da não existência que fere como gume cintilante ao sol.
Não te sei aqui. Não te vejo por aqui, por lá, nem por além. Mentira pegada a de que somos estrelas depois de morrer. Ou mentira sem ser pegada, mas inventada por alguém de muito bom humor. O facto é que, se olhares para o céu de dia não vês estrelas, mas elas estão lá.
Sabes contar os dias quando não distingues a lua do sol? Não, não sabes. Mas eu digo-te o que sabes, falo por ti, como consciência cancerosa, que a única tendência é crescer, até ocupar o teu copo todo como parasita esfomeado.

Sabes apenas que és mais um. Sabes apenas que nada podes fazer.
Sabes que um dia também vais morrer.

Imagens, ao início fragmentadas e depois em catapulta, invadem-me o espírito. Fotos esbatidas por um eclipse solar passam nas membranas dos olhos.
Breves recordações, fiapos de conversas. Nada que chegue para construi um puzzle com muitas peças, fico-me por um mais pequeno, daqueles mais baratos que fazem na mesma a alegria depois de montados.

Olhar por cima do ombro, olhar por baixo das pernas, olhar para trás para um passado que já ficou na outra esquina, oculto da visão periférica.
Quantas vezes já desejaste não relembrar? Contas pelos dedos e estes não chegam.
É triste viver apenas com certezas do passado quando o futuro clama por argumentos. Ficas num empasse, num limbo onírico poderoso. Queres caminhar em frente, olhar as ruas tortas a direito. Queres construir um presente sem pensar em linhas de vida, também sem pensar em chuvas passadas. Mas o exercício tem de ser feito, ninguém ergue o dedo para o fazer por ti.
Colocas na linha da frente o teu corpo, fechas os olhos, respiras e é como se tudo voltasse a ser “ontem”.

O coração não sossega o trote de galope avassalado, como belo cavalo potente assustado pelo disparo de uma arma de plástico barato. Já estou na linha de partida, avanço sem medos. Ligo a televisão interior da minha mente e, recordo.

A lembrança de uma entoação tem um efeito hipnótico calmante e enquanto ouço versos líricos o coração volta a bater com a mesma cadência de um relógio de parede.

Em dias como este, quando as nuvens teimam em chorar todas as angústias e o vento vem justificar como juiz supremo as penas das mesmas, colando as frias lágrimas em todos os corpos que se aventuram na busca de mais um dia, sei que a tua ausência dói com a ferocidade de uma mandíbula de tubarão a entrar na pele quente e lisa. Disseste-me tantas coisas; cem, duzentas, quinhentas, duas mil, um milhão e meio… uma imensidão que nem todos os livros que já percorri podiam conter. Como é possível haver dias em que não me lembro de nenhuma?
Contesto a memória, espezinho-a. Chamo-lhe todos os nomes que conheço e invento outros tantos para nunca me faltarem palavras. Deito-me a meio da tarde para sonhar com os sonhos que possa não ter à noite. Procuro-te aí.

Conhecíamos a música ao primeiro acorde.
Brincávamos as adivinhas com cantores.
O nosso silêncio, nunca foi silêncio, eram pautas musicais contínuas.
A filosofia que preenchia e antecedia muitos jantares, esses sim silenciosos, era acompanhada de ritmos, sons.
Achava que o que ouvíamos e os gostos que partilhávamos, não eram para todos. Ignorância era o que me habitava.
Agora habita-me a certeza.
A universalidade do som bate-me em cheio na cara, como soco desferido por mão forte.

Perdi-me uma vez de ti, no meio de uma massa humana onde se gritavam gritos de ordem e revolta.
Alguém me deu a mão, não sei quem, não importa, aceitei o calor daquela mão estranha com medo de poder não sentir mais nenhuma.
Vejo-te a caminhar no sentido contrário, contra a multidão, tens a cara cinzenta, certamente também pensaste que tinhas perdido a leveza da minha mão. “Estás aqui! Vamos para casa. Já chega de sopros no coração por hoje.”

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.