Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Uma coisa chamada ‘boas maneiras’

Diplomas em tempo de 130.º aniversário

Ideias

2015-02-23 às 06h00

Carlos Pires

Defendi, em anterior crónica publicada neste espaço de opinião, que, mercê dos movimentos instalados em alguns países europeus (Grécia e em Espanha), o momento atual é porventura a última oportunidade para que a União Europeia (UE) repense o caminho a seguir, uma vez que as políticas adotadas nos últimos anos não serviram para contrariar a debilidade das economias. Hoje, infelizmente, concluo que a história dos últimos dias revela uma realidade mais sombria do que esperançosa. A irracionalidade e a politiquice bacocas parecem imperar, à margem da responsabilidade e do critério.

Senão, vejamos:
1. Na passada 6.ª feira, após vários dias de negociações, foi comunicada a solução (provisória!) que os 19 ministros das Finanças da UE definiram para a Grécia: 4 meses de financiamento assegurado (adiando para Julho a celebração de um novo acordo, de mais longa duração). O governo grego comprometeu-se, para já, a não adotar certas medidas que reivindicava, tais como: gastar este ano mais 12 mil milhões de euros do que o previsto, recontratar funcionários públicos, dar eletricidade grátis aos mais pobres, reabrir a estação de televisão pública ou aumentar o salário mínimo dos atuais 550 euros (impostos pela troika), para os antigos 750 euros. E terá, até ao dia de hoje, de entregar aos parceiros europeus a lista das reformas que pretende implementar.
Bem vistas as coisas, o entendimento alcançado está muito longe das promessas eleitorais do primeiro-ministro helénico, Tsipras. Difícil pois entender a forma entusiasta com que o ministro das finanças, Varoufakis, anunciou o acordo. E, talvez por antever a deceção dos seus conterrâneos gregos, decidiu fazer “política”. Como? Veiculando aos jornalistas que foram os países mais pobres - Portugal e Espanha - os que mais se opuseram à proposta grega, afirmando, de forma evasiva, que 'também há uma coisa chamada boas maneiras'. Sem dúvidas, uma conveniente vitimização (desmentida pelos visados), que certamente alimentará os ânimos do eleitorado grego.
Não posso apoiar certas personalidades portuguesas que, muitas delas também eivadas de interesses políticos, optaram por criticar o governo português, por alegadamente não ser ter mostrado bonzinho para os gregos… Parecem esquecer que, mesmo no meio de uma crise económica avassaladora, em 2010, Portugal emprestou dinheiro (1100 milhões de euros) à Grécia e é pois imoral defender que devemos perdoar esse dinheiro, sacrificando ainda mais os contribuintes portugueses. Já agora, a propósito de solidariedade, importante será recordar que, há exatamente 3 décadas atrás (Março de 1985), a Grécia ameaçou vetar a entrada de Portugal e Espanha na CEE se não recebesse mais dinheiro! Na altura, a ameaça deu resultado: os gregos receberam um cheque adicional de 1,7 mil milhões de euros.

2. O presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, reconheceu finalmente que houve erros graves nas imposições colocadas aos países sobre assistência financeira. “Pecámos contra a dignidade dos cidadãos da Grécia, de Portugal e muitas vezes também da Irlanda”, referiu. De imediato, o nosso primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, veio rejeitar tais afirmações, defendendo que a dignidade dos portugueses nunca esteve em causa durante o processo de ajustamento. A par, o ministro das Finanças alemão, Schäuble, elogiava Portugal..
Caro(a) leitor(a), que lhe parece tudo isto? Estranho, confuso e até divergente?
É a política. É a política que leva o Senhor Schäuble a enaltecer o exemplo do bom aluno português (a desejada prova de que os programas funcionam e que as posições alemãs estavam certas). É também a política que desencadeia em Passos Coelho uma tão firme reação às palavras de Juncker (quando todos sabemos que as políticas de austeridade pura e dura agravaram o empobrecimento). E certamente será a política que levou ao manifesto de “mea culpa” do Senhor Juncker, pelo que não me mereceu especial comoção.
A solidariedade europeia é um nome bonito, uma coisa chamada “boas maneiras”, tal e qual reclama o ministro grego das finanças. Na prática tudo se resume a acordos que satisfazem os interesses económicos e políticos dos diferentes estados-membros e dos seus protagonistas. E nada mais, não haja ilusões.
O problema é político. Apenas, e só, político. Os políticos tresandam a falsa moralidade e abdicaram dos princípios que nortearam a construção europeia. E com isso fomentam a sua decadência.

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