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Uma conversa sobre inflação (2)

Mercados, salários e outras coisas

Uma conversa sobre inflação (2)

Escreve quem sabe

2022-11-29 às 06h00

Vítor Esperança Vítor Esperança

A Economia vai piorar?
- A inflação alimenta-se a si própria, uma vez que as tentativas de reequilíbrio de preços para manter as margens, faz com que os fornecedores a montante façam o mesmo. É o consumidor final que acaba por pagar tudo. Estes, por sua vez, reclamam o aumento das suas retribuições de maneira a, no mínimo, continuarem com as suas aquisições, mesmo a preços mais altos.
- E, quando é que isso acaba?
- A inflação é como a guerra, não se sabe quando acaba, apesar de todos o desejarem. Só quando se registam quebras significativas no consumo e os fornecedores verificam que as quebras das suas vendas não permitem manter níveis programados de produção, se inicia a tendência de redução, ou estagnação, dos preços.
- Mas, continuo por não entender porque é se aumentam os juros quando tudo parece piorar?
- Tecnicamente os preços aumentarão sempre enquanto houver quem compre, mas, para isso é necessário dinheiro, mesmo que emprestado. O aumento dos juros pretende acelerar o processo de diminuição do recurso ao crédito, porque fica mais caro, e, retirar a quem já deve mais dinheiro, fazendo com que se prescindam de outras compras, porque o dinheiro que resta acaba por ser bastante menos.
- Mas isto para os portugueses é muito mau, pois quase todas as famílias têm empréstimos à habitação.
- Verdade. Para além de ficarem com menos dinheiro porque os preços de quase tudo sobe, ficam com as prestações de crédito mais altas, ou seja, quem não ganha para superar tudo isto, vai deixar de viver como vivia. Quem já vivia no limite do seu esforço financeiro e não tendo capacidade de maior endividamento, prescinde de muita das suas compras, até ao limite da sobrevivência. -
- Triste! O Governo não poderia ajudar nestas alturas de crise?
- Não duvido que o Governo o queira fazer, o problema é saber se tem capacidade financeira para tal. Os dinheiros do Governo provêm maioritariamente dos impostos que cobra, dinheiro que geralmente nunca chega porque os nossos Governos não resistem aos pedidos das suas clientelas eleitorais. O tal défice que todos falam é o resultado negativo dessas contas. Infelizmente, a maioria dos Governos pensam a “curto prazo”. Apesar de todos saberem que se deve poupar em “tempos de vacas gordas” não é isso que vem acontecendo. Existe uma mentalidade que favorece politicamente quem mais promete dar. Não se governa para melhorar o futuro, mas para se ser eleito na próxima oportunidade.
- Mas agora é diferente, as pessoas necessitam, a pobreza está a aumentar e dizem que o Governo tem mais dinheiro.
- É certo que a inflação faz subir o montante recebido dos impostos já que as mesmas taxas são aplicadas sobre valores de negócios que subiram de preço, mas o Estado não deve gastar logo tudo, pois pode precisar dele para gastos obrigatórios, como os juros da dívida. O problema da pobreza é estrutural e está mais ligado ao baixo salário médio pago em Portugal. Por muito que se tenha apostado na educação e formação, continuamos a ser um País de baixos salários, com os melhores preparados a sair para países que lhes pagam melhor. O Governo deveria apostar em fazer crescer a economia, fomentando o investindo, mas o PRR aponta, mais uma vez, para os gastos públicos, adiando a esperança de renovação económica. O apoio Comunitário era para dinamizar a economia e não para modernizar o Estado e fazer novas infraestruras, necessárias mas não prioritárias Agora veio a Guerra e com ela as trancas para alterar o modelo da globalização económica e de liderança das suas potências regionais, piorando tudo.
- Então temos que ser nós a aguentar?
- Como sempre. Vamos ser obrigados a fazer escolhas, por isso temos que iniciar a mudança de comportamentos de modos de vida baseados no consumo frenético de tudo, das práticas do “uso e deita fora”, do uso excessivo do transporte individual e de outros hábitos que reconhecemos serem de modas ou de aparência social, muitos deles facilmente prescindíveis. Os próximos tempos vão ser duros, sobretudo para quem vive no limite da sobrevivência. Todos sairemos a perder Ninguém gosta de abdicar do seu conforto e rotinas, mas não vamos ter alternativa.

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