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Uma data que é de todos nós

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Uma data que é de todos nós

Ideias

2024-04-19 às 06h00

Pedro Tinoco Fraga Pedro Tinoco Fraga

Esta minha reflexão será incluída na edição de 19 de Abril do Correio do Minho, cerca de uma semana antes de se cumprirem 50 anos sobre o dia 25 de Abril de 1974.
É um dia que é nosso, de todos os portugueses, mesmo daqueles que são saudosistas do regime de Salazar, Caetano e Tomás. O 25 de Abril de 1974 não é de nenhum partido político, não é da esquerda ou da direita, é mesmo um dia de júbilo para todos os portugueses, mesmo aqueles que já nasceram neste século ou os que na casa dos 40 nasceram já depois do 25 de Abril de 1974.
Como sempre refiro, tenho uma enorme admiração pelos homens e mulheres que revelando uma incrível coragem psicológica e física avançaram para o derrube de um regime bafiento, profundamente corrupto (uma coisa é a corrupção e a outra a percepção da corrupção …), profundamente amoral, com um pensamento estratégico nulo e que tinha do mundo a ideia de um rectângulo que ia do Minho ao Algarve, limitado pela Espanha e pelo Oceano Atlântico. Pois, mas além deste rectângulo havia o … império em África e a ele retornarei mais à frente, de forma breve.
Falamos (e bem) muitas vezes sobre a censura, sobre a tortura, sobre a existência de presos políticos e tudo isso é factual, antes de 1974. Mas tão mau como isso era o condicionamento da mente, o Deus, Pátria e Família, a “minha alegre casinha tão modesta quanto eu”, o homem trabalhador fora de casa e a mulher doméstica fada do lar, a ausência de ensino superior acessível para todos, a ausência de relações com outros países, o condicionamento industrial sobre a actividade empresarial, etc, etc, tudo mau, tudo muito mau e muito pequenino.
Tendo 10 anos no 25 de Abril (ou seja não era um adulto com opinião formada) e considerando este um dos períodos mais fascinantes da história de Portugal, não consigo hoje, como empresário, olhar para o desenvolvimento económico antes de 1974 e não sentir um sentimento que é, admito, horrível : sinto pena da pequenez de quem nos governava, da tacanhez daquelas mentes e de como seria um país governado mais 10, 15, 20 anos por pessoas com tão pouca visão do mundo, tão orgulhosamente isolacionistas e tão insensíveis em relação ao sofrimento de milhares e milhares de famílias que viram os seus filhos e netos com 20 anos morrer numa África longínqua, à conta do ridículo desejo de um império, que todos os outros países tinham vindo a (com excepções) dignamente saber perder.

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Desejo ao governo recentemente empossado que tudo corra bem e que dure todo o período da legislatura pois os cidadãos e as empresas precisam de estabilidade (diria exactamente o mesmo se o governo fosse liderado por Pedro Nuno Santos). Não posso deixar passar esta oportunidade de enviar um grande abraço de “boa sorte” ao Fernando Alexandre e ao José Manuel Fernandes, colegas que conheço há muitos, muitos anos e que não tenho dúvidas que irão dar o seu melhor em prol da causa pública como sempre têm feito nos diversos fóruns em que têm estado presentes.
50 anos depois de 1974 estou convicto que em Portugal nunca assistiremos à reabilitação do antigo regime. As vozes de café/redes sociais que por vezes clamam por um novo Salazar e que exaltam a probidade desta figura não serão com certeza mais do que meia dúzia de pessoas que por profunda ignorância histórica e mesmo pequenez intelectual, ignoram ou pretendem ignorar que a total ausência de liberdade de opinião/expressão ate 1974 impediria esses heróis do teclado de se expressarem da forma que hoje o fazem, situação só existente actualmente em países como a Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, Irão, Arábia Saudita e monarquias do Golfo, Rússia, Bielorrússia e tendencialmente Hungria.
Saltando desse dia radioso de 1974 para a data de hoje, gostava de deixar umas breves notas sobre uma obra literária apresentada há 2 semanas, numa cerimónia que contou com a presença de um vasto conjunto de personalidades, incluindo ex-ministros, um líder partidário, um ex-primeiro ministro, etc. O livro aborda as questões de “Identidade e Família” e tendo lido alguns dos artigos dos pensadores com que já sabia à partida que não concordaria, faço a corelação com a primeira parte desta minha reflexão e afirmo que a apresentação deste livro é mais uma vitória do 25 de Abril de 1974, pois é perfeitamente possível haver uma apresentação pública e uma ampla discussão que parte de algumas posições que são um absoluto retrocesso civilizacional e que, em alguns casos, são cavernícolas. Sendo óbvio que dentro da própria obra literária há autores com posições diferentes e isso é saudável, aquilo que se realça mais e que me fez sorrir (a velha expressão portuguesa rir para não chorar) é o retorno à expressão … dona de casa ! Alguém em 2024 voltar ao uso da expressão dona de casa (a fada do lar do regime salazarista) é, como acabei de dizer, uma enorme vitória do 25 de Abril de 1974, pois permite que alguém a escreva e que depois a reafirme publicamente sem qualquer receio de represálias. Sim, é isso que deve acontecer, pois há mais de 50 anos, aqueles que contestavam a expressão “donas de casa” e o seu simbolismo eram duramente reprimidos pelos “donos DA casa”, a PIDE, Salazar, Caetano & Co.
É assim para mim uma enorme vitória desse fantástico dia que foi o 25 de Abril de 1974 ver que sem problema algum, pessoas com uma visão retrograda e passadista do mundo, possam exprimir o que pensam e haja eco dessas posições. Se no 25 de Abril de 2024 me faz sorrir ouvir falar em família tradicional, funções de mulheres e funções de homens, combate à ideologia de género, sovietização do ensino, etc ? Sim faz e neste casso não sorrio para não chorar mas sim sorrio para não rir à gargalhada. Mas sim, pela enésima vez, é bom que estas opiniões possam ser apresentadas em livro e em público, como contraponto ao que se passava há 50 anos. Como cidadão que está satisfeito com muitos dos avanços civilizacionais a que pude assistir em vida, desde a queda do apartheid até à igualdade entre homens e mulheres, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, à adopção de crianças por casais do mesmo sexo, etc, etc, limito-me a discordar com a maior parte das componentes do livro que tive oportunidade de ler e não me revejo numa única das palavras proferidas pelo anterior primeiro ministro na apresentação do livro a não ser …. Boa tarde. Mas reconheço aos autores todo o direito de expressarem a sua opinião, já que foi para isso mesmo que Salgueiro Maia se dispôs a dar a sua vida.
Termino referindo que desejo ao governo recentemente empossado que tudo corra bem e que dure todo o período da legislatura pois os cidadãos e as empresas precisam de estabilidade (diria exactamente o mesmo se o governo fosse liderado por Pedro Nuno Santos). Não posso deixar passar esta oportunidade de enviar um grande abraço de “boa sorte” ao Fernando Alexandre e ao José Manuel Fernandes, colegas que conheço há muitos, muitos anos e que não tenho dúvidas que irão dar o seu melhor em prol da causa pública como sempre têm feito nos diversos fóruns em que têm estado presentes.

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