Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Uma (des)Confiança irrespirável

Portugueses reciclam cada vez menos? Não, na área da Braval reciclam cada vez mais!

Ideias Políticas

2018-10-09 às 06h00

Pedro Sousa

Na madrugada da última sexta-feira, 5 de Outubro, a Assembleia Municipal de Braga viveu uma das noites mais tristes da sua história.
Os eleitos do PSD, CDS e PPM, bem como os Presidentes de Junta eleitos pela Coligação Juntos por Braga, a que se somaram alguns “ditos” independentes, seguindo as superiores instruções de Ricardo Rio e seus pares do Executivo Municipal, votaram a favor da venda da Fábrica Confiança, abrindo-se, desta forma, o processo que levará à saída da esfera municipal daquele que é o último grande edifício industrial da cidade e do concelho.
A Confiança, mais do que pelo que é actualmente, tinha uma importância estratégica pelo que foi e, sobretudo, pelo que, com um projecto de reabilitação e de utilização adequado, poderia significar para a cidade.

Convenhamos que a ideia, peregrina, de alienar a Confiança, numa cidade cujo Presidente da Câmara diz querer ser Capital Europeia da Cultura em 2027, sobretudo pelo tanto que esta poderia significar como âncora, como motor, como casa da criatividade, da arte, do talento e da livre criação, numa cidade e num concelho que, neste segmento, alberga já bastantes associações, movimentos informais e independentes que carecem de um espaço comum, de um espaço de partilha, de troca de experiências e de estabelecimento de sinergias, é um absoluto disparate.
Mas mais do que deter-me, uma vez mais, no quão mal Ricardo Rio, Firmino Marques, Miguel Bandeira, especialmente estes, na exacta medida que contrariaram, em absoluto, tudo aquilo que, ao longo de muitos anos e em muitas intervenções públicas, defenderam sobre esta matéria, há um outro facto, igualmente grave, que importa destacar.
Esse facto, maior, prende-se com o exercício verdadeiramente democrático dos poderes públicos.

Durante muitos anos, Ricardo Rio reclamou uma cidade mais aberta, com um ambiente mais respirável, onde a relação entre eleitores e eleitos fosse mais próxima, mais fácil, mais franca. Defendia a necessidade de por fim a certos tiques autoritários e que, em certas e determinadas decisões, aquelas que pela importância que têm para o nosso futuro colectivo, enquanto cidade e enquanto comunidade, deveria a Câmara, antes de decidir, ouvir os cidadãos, as associações e instituições do sector, especialistas e académicos com especial conhecimento e sensibilidade para as matérias em questão, procurando, assim, amplos consensos e terreno comum nas matérias estruturantes.
A verdade é que no processo da Confiança, tal como já vinha acontecendo noutros, caiu a máscara a Ricardo Rio.

Ricardo Rio não discutiu a alienação, a venda da Confiança com ninguém. Deixando, inclusive, de fora da decisão o Presidente da Junta de São Victor, Ricardo Silva, numa actuação vergonhosamente autocrática; tendo este sido chamado apenas à posteriori e para dar contributos para o caderno de encargos da venda.
A verdade, por difícil que seja de acreditar, é que Ricardo Rio e a coligação Juntos por Braga fizeram ainda pior. Muito pior.
Ignoraram as associações do sector, os movimentos e grupos culturais independentes, demitiram-se de ouvir e de auscultar especialistas e académicos renomados nesta área e fizeram ouvidos moucos ao clamor dos cidadãos, ao clamor da cidade que, na passada Sexta-Feira, encheu o Auditório do Fórum Braga e, pela voz de dezenas de cidadãos, manifestou a sua mágoa e o seu repúdio por tão abjecta decisão.

Pelo meio, e também na Assembleia Municipal de Braga, no período antes da ordem do dia, os eleitos do PSD, CDS e do PPM rejeitaram uma recomendação dos Grupos Municipais do BE, da CDU e do PS a apelar para que o ponto da alienação da Confiança fosse retirado da Ordem de Trabalhos, propondo que mesmo baixasse à Comissão Especializada de Educação e Cultura e, aí, em sede privilegiada para o fazermos, poderíamos, assim houvesse interesse, chamar e ouvir as associações, as instituições, os especialistas, os académicos, os cidadãos preocupados com o assunto, para, em conjunto, procurar soluções para a Confiança.
Se esta tivesse sido a forma de tratar do assunto Confiança, ouvindo, dialogando, procurando alternativas, o PS, de forma séria, não se oporia à sua venda, desde que ficasse comprovado que se tinham esgotado todas as alternativas e que a venda era, de facto, a última “ratio”.
Infelizmente nada disto foi feito, nada disto foi discutido, ponderado ou sopesado.

Num tempo em que são já muitos os cidadãos que denunciam que os comentários críticos, em que denunciam situações que, na sua opinião, estão mal na cidade e no concelho e que, de forma ordeira e educada, dirigem à Câmara Municipal através da página oficial do Município de Braga no “Facebook” são apagados, fica tudo dito sobre a cultura democrática do “nouvel” poder municipal.
Podem comunicar melhor, vender uma imagem mais moderna e arejada, mas, na verdade, a actual Câmara Municipal de Braga é muito pouco democrática e tem, não raras vezes, práticas e decisões que exalam o cheiro bafiento da dita- dura.

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