Correio do Minho

Braga, sábado

Uma noite de temporal na minha aldeia, por Maria Costa

Mercado de Trabalho em Portugal, uma visão crítica

Conta o Leitor

2010-08-28 às 06h00

Escritor

A tarde ia a meio, o sol do último dia de Maio batia a prumo nos telhados da casa e da capela, situada para lá do quinteiro no lado oposto. O boneco, o cata-vento, estava com a seta virada para o lado do bom tempo e, mais tarde tivemos de concordar que ele nos enganou. Convencida que iria aguentar uma tarde de calor, abalei para debaixo das frondosas árvores de fruto que faziam a alegria dos meus pais. Eu só tinha uma ideia, refrescar-me nas águas frescas e límpidas do tanque, mas não foi isso que aconteceu ao sentir a frescura da relva nos pés descalços e a sombra maravilhosa que se projectava pelo extenso quintal. Nem o piar de um pássaro, o voltejar duma borboleta, ou o zumbido duma mosca se ouvia, o silêncio era total.

Deitada na relva de olhos fechados, os meus pensamentos estavam com toda a certeza muito longe do lugar onde me encontrava, de repente abro os olhos e sento-me assustada. Que foi aquele barulho? Ponho-me à escuta e… nada, continua tudo no mais profundo silêncio. Estaria a sonhar? Nesse mesmo momento, chega-me aos ouvidos o ruído assustador do ribombar dum trovão. Espreitei por entre as árvores do quintal e o que me foi dado observar deixou-me temerosa. Uma nuvem cinzento azulada ia-se avolumando do lado sul, do lado de Guimarães, escurecendo a nossa aldeia. Sempre ouvi dizer que as grandes trovoadas vinham do lado do rio Ave, ou seja do lado sul. Ao longo do tempo verifiquei que isso era verdade.

Fugi para casa gritando «Avó, venha ver, vem aí uma grande trovoada». A minha avó com a grande calma que a caracterizava pegou-me na mão e disse para me não assustar. Se Deus quiser, o temporal passará e nada de mal acontecerá, mas não deixou de ir à janela observar o tempo. A tarde ia avançando, o temporal aproximava-se, já se viam os clarões dos relâmpagos e o barulho dos trovões cada vez mais próximos. Entretanto a noite chegou, ceamos e rezamos o costumado terço em família. Quando o temporal estava no auge, provocando estragos por onde passava, a chuva, o vento, e o estampido dos trovões sobre as nossas cabeças, nos ensurdecia, alguém apavorado, começou a rezar «S. Jerónimo, Santa Bárbara virgem acomodai as trovoadas que andam muito desacomodadas, levai-as ao monte maninho onde não haja pão nem vinho nem bafo de menino». Não conhecia esta oração, o que me levou a olhar para a pessoa que a acabava de rezar, pois tencionava pedir-lhe para me ensinar o que tinha ouvido da sua boca.

Ouve-se um estrondo bastante forte, seguido de um restolhar que nos deixou apavorados. Aquilo foi tão perto de nós que alguém mais afoito, apesar do perigo, saiu para o quintal, pois desconfiou que teria sido por ali o barulho que se fez ouvir. Mais tarde quando entrou na cozinha onde toda a família estava reunida, a minha avó, ansiosa, perguntou: «O que foi que aconteceu?» ao que o criado meio assustado e encharcado respondeu: «caiu a macieira das maçãs da Santa Marta». Ao recebermos esta notícia ficamos ainda mais alarmados.

Mal dormimos nessa noite e para alguns dos meus familiares, foi uma vigília completa, pois temiam o pior.
Depois daquela borrasca, na manhã seguinte, acordamos com um sol radioso e abrasador fazendo-nos esquecer por momentos o temporal por que passamos. Se não fossem alguns estragos mais visíveis e a grande macieira estendida no chão, carregada de maçãs ainda pequeninas e verdes, nem dávamos por nada. O vento tinha-a vergado e ela já com muitos anos de vida não resistiu à investida, como ela outras árvores de menor porte não sobreviveram. Esta macieira nunca mais saiu do meu pensamento, pois na tarde do temporal eu tinha usufruído da sua maravilhosa sombra.

As novidades chegaram depressa à quinta. O riacho de Riamontes que atravessa a minha aldeia subiu, saiu do leito e galgando os muros espraiou-se pelos campos mais próximos. O povo já estava acostumado com as enxurradas, mas não com tanta violência, como desta vez.

Mal saímos o portão da quinta, deparamos com o caminho que nos levaria ao rio, atolado de lama e pedras, resultante da noite de temporal que tinha ocorrido. Devido aos muros altos que cercam a quinta, não nos apercebemos de tão grande tragédia vivida pelo povo da minha aldeia.
As águas das serras do Carvalho e dos Picos, desceram tumultuosamente pelas encostas nascentes, formando riachos que se precipitaram na ribeira de Riamontes, engrossando-a de tal maneira e provocando uma enxurrada. A água desta ribeira com um enorme caudal, levou tudo à sua frente, não poupando a terra dos campos, onde nos fins de Maio já estavam feitas as sementeiras. Os lavradores queixavam-se «que vou fazer à minha vida sem o meu milho, que é o sustento da minha família?». Um deles exclamava admirado «onde está o meu moinho? O sítio dele era por aqui, mas nem uma pedra encontro».

O rio tudo arrastou, galgando muros, pontes e tudo o que lhe aparecia pela frente. Mais tarde soubemos do destino da mó do moinho, que levada pela força da corrente, apareceu alguns quilómetros mais abaixo, junto da vila, em cima de uma ponte que faz ligação com outras freguesias e a vila das Taipas.

Assim a Póvoa de Lanhoso era invadida pelas águas dos riachos mais próximos e que a circundavam, provocando ainda mais o aumento das águas do ribeiro do Pontido, que atravessa aquela vila. Estes dois riachos unidos vão despejar as suas águas no rio Ave.

O povo uniu-se e decidiu que as sementeiras deviam ser novamente feitas, (naqueles tempos ainda havia o espírito de entreajuda) e foram transportados para aqueles campos carros e carros de terra, puxados por bois que era o meio de transporte daquele tempo, nas nossas aldeias.
Depois de a borrasca passar e do rio ter voltado para o seu leito, os lavradores auxiliando-se uns aos outros, cultivaram de novo os seus campos, incentivados a não ficarem de braços caídos, diante de tamanha tragédia.

Os factos relatados ocorreram até aos anos cinquenta do século passado. A vila desenvolveu-se, as estradas foram alargadas, as águas dos riachos diminuíram e já não há, felizmente, temporais como antigamente, pelo menos na minha aldeia.

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