Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Uma noite para recordar

‘Tu decides’ e o AE Maximinos move-se pela cidadania

Conta o Leitor

2015-07-30 às 06h00

Escritor

Carlos Alberto Rodrigues


Estávamos os três, eu e mais dois amigos de infância, a passar pela ponte sobre o rio Este a escassos metros de distância do Estádio 1º de Maio que naquela noite do ano de 1984 ia ser palco da 1.ª eliminatória da taça UEFA dessa época tendo como opositores os ingleses do Tottenham, nada menos que o detentor do troféu ganho em Maio desse ano, ao Anderlecht na final por 4-3 nas penalidades, depois de 120 minutos com o resultado em 2-2.

Metia respeito, aliado a este precioso facto, o colosso que era aquela equipa, a riqueza coletiva e individual do plantel e muito importante, como de resto sempre aconteceu: a sua falange de apoio.

É neste aspeto que vou versar estas próximas linhas pois naquele local, à beira-rio, um grupo destacava-se dos demais por cantarem enquanto caminhavam rumo ao palco do espetáculo com sorrisos e alta cavaqueira se fazia ouvir na língua de Shakespeare.

Um rapaz e três moçoilas bem-parecidas e bem ao estilo inglês; pele, cabelos e olhos claros à exceção da terceira com ar mais latino. Recordo ainda a sua silhueta e belezas.
Ele dirigiu-se a mim e em inglês pediu-me se o podia ajudar com oferta de sugestões para depois do jogo. O que Braga tinha para oferecer a quem quisesse ficar umas horas notívagas a vaguear pelas ruas e pelos jardins sempre como objetivo um bar ou discoteca.

Infelizmente, em relação aos dias que correm, naquela altura o leque de escolhas era mais vasto e de melhor qualidade e diversidade.
Pelo menos para um público mais underground, mais rock e menos pop (ular) adeptos do som alternativo por isso menos comercial e nesse aspeto tínhamos o Bar “Deslize” e por aí ficávamos se assim o desejássemos pois era uma boa oferta até aos primeiros raios de sol, como muitas vezes aconteceu na companhia do bom do Zé.

Como tínhamos cerca de meia hora até ao início do encontro, todos com o bilhete mágico nas mãos, ficamos a conversar como podíamos então fazer daquela noite algo de diferente e nunca antes gozado para aqueles estranhos para que saíssem da cidade com boa impressão fosse qual fosse o resultado do jogo jogado pois futebol também é isso: adquirir experiências que enriqueçam a nossa cultura e conhecimento, tirar partido do que de posi- tivo o futebol pode trazer. E traz. Fomos de encontro ao mítico palco do jogo, tendo optado por ficar perto do grupo para mais fácil sairmos logo que terminasse a contenda. Depois de assistir sôfrego à derrota por 3x0, saímos do estádio à procura do amanhã que teria de passar por uma longa madrugada.
Charlton estava encantado com o roteiro que assim “em cima dos joelhos” já mostrava que podia dar bons resultados. A espaços falava com Anne, sua namorada que depois transmitia as ideias às amigas: Claire, Frances e a morena Donna.

Incluía uma passagem obrigatória pela “Brasileira” para beberem o famoso café de saco ou antecâmara de soluções etílicas que a noite oferece. Considere-se uma pausa. Sublime. Afirmaram todos. Primeiro teste aprovado. Pasmados com as ruas e suas calçadas, o seu casario e a arquitetura duma cidade bimilenária, fixavam o olhar sobre os azulejos que vestiam alguns prédios da Rua do Souto e Largo do Paço.

Descíamos até à zona da Sé e como que abençoado pela sua proximidade com aquele ícone religioso da cidade, ali mesmo ao lado o distinto “Deslize”. Uma porta e uma pequena janela vermelhas, assinalavam a entrada para um mundo à parte do resto da noite bracarense. Tinha sido referência, recentemente, num jornal de tiragem nacional como um local a incluir no roteiro noturno da cidade. Um bom cartão de visitas.

Aquele local foi tantas vezes o meu porto de abrigo. Pequeno mas acolhedor, naquele espaço podíamos estar horas seguidas a ouvir John Cale, Nick Cave a solo ou versões Birthday Party ou Bad Seeds, ou ainda Velvet Underground, Lou Reed, podiam ser seguidos perfeitamente por Miles Davies ou Armstrong, B.B. King ou Bowie até Stooges e o “seu” Iggy Pop. Grande som!

Fazia vibrar as almas mais quietas e inquietavam aqueles que se deixavam levar por mais um golo de cerveja ou uma qualquer bebida espirituosa, que convidava muitas vezes a ficar ali junto ao balcão a falar com o amigo do outro lado do balcão, enquanto no estreito corredor se amontoavam corpos livres e acomodados a um suporte de madeira que servia de apoio, as pesadas e belas mesas e cadeiras férreas de um verde musgo e as paredes nunca se apresentavam verdadeiramente nuas no seu amarelo pálido. Podia-se ler um manifesto sobre este ou aquele assunto que era noticia, quadros de um artista ao qual o Zé sempre sorridente teimava em querer divulgar e apresentar ao seu público e aqui ou ali um concerto sempre intimista, onde, entre outros, ouvi os “Mão Morta”.

A tudo isto o “meu” grupo apreciava com um sorriso nos lábios, cúmplice da sua satisfação, por naquela noite, terem conhecido esta pérola num ambiente desconhecido.
Aquele Bar já era uma pequena maravilha. Reparei nos muitos olhares aguçados de prazer sobre os corpos suados daquelas inglesas que chamavam a atenção pela beleza e alegria que contagiavam os demais...

Tudo correu como desejado. Aguentámos as mentes bem despertas e depois de sairmos do bar e de mais umas voltas sempre à descoberta de tesouros que a cidade oferece à noite e que de dia passam despercebidos, optamos por tomar um pequeno-almoço reforçado a meio da manhã oferecido pelos nossos novos amigos como agradecimento pela noite que lhes tínhamos oferecido.

Qual a minha surpresa quando a morena do grupo e à qual era difícil desviar os olhos dos seus, de um tom verde azeitona, tirou da sua pequena mala uma camisola do Tottenham e disse: “Because your sympathy, hospitality because your friendship and good person with a friendly smile and calm voice” all my love and admiration for someone who will not forget a night without end” Thanks Carlitos! Foi mais ou menos assim!

Epa! Com aquilo é que não contava e apanhou-me “desprevenido” tocou-me ao ponto de esboçar um esgar de surpresa e abrir os olhos (mesmo que já me custasse por causa das horas moídas na noite e madrugada) mas as ofertas continuaram com Charlton: Tirou do bolso um isqueiro “zippo” ornamentado com cornucópias, acompanhado de respetiva bolsa em couro castanho e ofereceu-me. Tinha esquecido a pesada derrota do dia anterior que seria impossível de reverter a nosso favor e à qual se juntaria o resultado de White Hart Lane, na 2.ª mão, 6x0.

Foi também por causa daquela noite que ainda hoje tenho enorme estima pelo povo inglês, ao qual invejo o seu fair play, o canto e encanto que emprestam a cada jogo de futebol
Na hora do difícil adeus desejei-lhes felicidades.
Também fiquei nessa altura a saber que eram conhecidos como os lilywhites ou os spurs (significa espora) por causa da sua mascote; uma espécie de galo daquelas bandas que aliás se encontra também no emblema deste clube londrino.

Se algum dia lhes parecer que algo inusitado, mas que pode ser memorável, vai acontecer, agarrem essa oportunidade... com as duas mãos.
Podem ficar surpreendidos e surpreender.
Nem imaginam como!

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